Ir para o Topo

3 de dezembro de 2019

74% das empresas adotam sustentabilidade para reforçar imagem e reputação

Pesquisa da Aberje a que NÓS teve acesso exclusivo revela que esse é o principal objetivo das corporações para a implementação de programas orientados à sustentabilidade. O desenvolvimento das comunidades do entorno das unidades de negócios (55%) e o cumprimento da legislação (47%) vêm em seguida. O estudo contou com a participação de 105 empresas (nacionais e multinacionais) com mais de 3.000 funcionários.

Com as mudanças climáticas, o aumento no número de desastres naturais, a possibilidade de extinção de espécies da fauna e da flora e o esgotamento dos recursos do planeta, todos decorrentes de processos humanos, investir em sustentabilidade passou a ser uma necessidade não apenas para as pessoas, mas também para as empresas.  Não se trata apenas de realizar ações pontuais, como fechar a torneira ao escovar os dentes ou trocar copos descartáveis por canecas de porcelana, mas, sim, de adotar um comportamento ambientalmente responsável. Isso envolve pensar no antes, no durante e no depois do ato de produzir e consumir, de modo a reduzir os impactos na natureza e tornar mais harmônica a convivência com o meio ambiente.

Infelizmente, há uma ideia equivocada de que a sustentabilidade está relacionada a sacrifícios. No entanto, a responsabilidade ambiental ajuda as corporações a se posicionar positivamente perante seu público consumidor – cada vez mais exigente e atento aos impactos socioambientais dos processos produtivos – e a ter ganhos financeiros, uma vez que a adoção de métodos produtivos mais limpos leva à economia na produção, ao ganho de qualidade e a uma maior lucratividade. Além disso, do ponto de vista do marketing, ela pode conectar à própria imagem a responsabilidade ambiental que assume, criando um valor de mercado que é muito valorizado pela sociedade atual.

Muitas organizações já perceberam que adotar uma postura responsável com o planeta e a sociedade é vital para a longevidade dos negócios, pois processos produtivos danosos podem impactar, por exemplo, na oferta futura de matéria-prima. Ao longo do último ano, NÓS vem publicando os exemplos dados pelas empresas nessa seara. Mas quão avançados nesse tema estão as companhias brasileiras? De que forma elas investem em sustentabilidade? Qual é a prioridade do tema na agenda corporativa? Como os programas estão estruturados? Quais os objetivos da implantação de políticas sustentáveis? Quais são as linhas de atuação preferenciais? Essas e outras perguntas foram respondidas na pesquisa “A Sustentabilidade/Responsabilidade Social das Organizações no Brasil – discursos e práticas”, realizada pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) e a cujos resultados NÓS teve acesso exclusivo.

Patrocinada por Bayer, FCA e Natura, três empresas reconhecidas pela adoção de práticas sustentáveis nos negócios, a pesquisa traça um panorama da estrutura e dos programas socioambientais implementados pelas organizações brasileiras. Além das motivações para o investimento na área, a pesquisa aborda questões sobre o trabalho de redução de impacto ambiental, a participação no Pacto Global, o uso de parâmetros dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, e as principais barreiras para implantação de projetos de sustentabilidade.

Participaram do estudo 105 empresas (95% privadas nacionais e multinacionais, com mais de 3.000 funcionários), que figuraram entre as Maiores e Melhores da revista Exame e foram responsáveis por um total de receita líquida de R$ 703,2 bilhões – o que representa 10,3% do PIB brasileiro de 2018. A coleta on-line de dados ocorreu entre os meses de maio e junho de 2019.

A pesquisa revelou que a quase totalidade das participantes possui programas de sustentabilidade e de responsabilidade social formais (91%) e publicados (87%), o que demonstra um comprometimento das corporações com o desenvolvimento da economia sustentável por meio de ações sistematizadas e permanentes. Para 57% das empresas participantes, o tema sustentabilidade/RSE está entre as cinco principais prioridades. Para 25%, entre as três, e para 8%, é prioridade máxima. No entanto, 10% das empresas entrevistadas disseram que o tema não está entre as prioridades da organização.

Nas empresas com programas formais, a área está estruturada em nível de diretoria (50%) e de gerência (30%) para a gestão e a disseminação da sustentabilidade/RSE. A maioria das equipes conta com até cinco funcionários (58%), e a área se reporta diretamente à Presidência (38%) ou às diretorias de Assuntos Corporativos e Relações Institucionais (17%), Recursos Humanos (17%) e Comunicação (9%).

Mesmo com estrutura específica, a área de sustentabilidade conta com o suporte de comitês para tratar dos temas pertinentes. Esses comitês, formalizados ou não, auxiliam a área a identificar nas atividades de cada diretoria o que pode ser melhorado, adaptado ou modificado dentro da política sustentável e de compliance da empresa. De acordo com a pesquisa, 73% das organizações participantes possuem comitês, sendo 55% de caráter formal e 18%, informal. Na composição desses comitês, as áreas mais frequentes são Comunicação Corporativa (81%), Recursos Humanos (78%) e Sustentabilidade/RSE (76%).

Motivação e barreiras

A pesquisa mostrou ainda que são três os principais objetivos das empresas para implantar um programa de sustentabilidade e responsabilidade social:

As organizações concentram seus esforços em quatro áreas potenciais: participação dos problemas e do desenvolvimento de comunidades locais (65%); manutenção de práticas e políticas ambientalmente sustentáveis (64%); promoção da educação, educação especial e habilidades vocacionais (43%); e redução das desigualdades socioeconômicas (38%).

Segundo a pesquisa, a agenda de sustentabilidade das empresas (seleção de projetos) sofre maior influência dos seguintes grupos: liderança da organização (80%), investidores (48%), comunidades (44%), e consumidores/clientes (36%). Os grupos de menor influência são fornecedores (48%), meios de comunicação (46%), ONGs e ativistas (44%) e academia (65%). A representação das comunidades nas implementações dos projetos de responsabilidade socioambiental também foi medida: 50% das empresas disseram contar com a representação comunitária eventualmente, 29% disseram que contam sempre e 21% não têm representação da comunidade nas decisões sobre os projetos.

Qualquer que seja a influência dos grupos com os quais a empresa interage, a seleção dos projetos se dá com base:

A maioria dos projetos (61%) é implementado diretamente pelas empresas, mas uma parcela das organizações participantes da pesquisa dizem tocar os projetos por meio das ONGs (16%) e de suas Fundações (9%). Frequentemente, as corporações fazem parceria com o governo ou com outras empresas para colocar seus projetos socioambientais em prática (48%). É o caso da FCA, com os projetos educacionais Rota do Saber e Vozes Daqui, em conjunto com prefeituras de municípios da Zona da Mata de Pernambuco; da IBM, com o projeto P-Tech, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo; e da Suzano S.A., com o projeto de extrativismo sustentável, realizado com associações comunitárias, Instituto Chico Mendes e Conselho de Desenvolvimento Comunitário das Quebradeiras de Coco Babaçu.

Impacto ambiental

De acordo com a pesquisa da Aberje, a quase totalidade das empresas participantes trabalha a redução de seu impacto ambiental pela conservação de energia (94%), minimização e reciclagem de resíduos (97%), prevenção da poluição com redução de emissões e efluentes (94%), proteção do meio ambiente (93%) e uso da conservação da água (95%). O levantamento, contudo, não traz a maneira como as empresas utilizam a tecnologia em seus processos produtivos de modo a torná-los mais sustentáveis. Na fábrica da Jeep, em Pernambuco, por exemplo, a linha de montagem moderna permitiu que os carros ali produzidos consumissem o mínimo possível de água e energia.

As empresas conscientes (90% das participantes) também aplicam sustentabilidade no desenvolvimento de novos produtos e serviços, visando a redução do impacto ambiental e a conscientização do consumidor. Casos da Natura, que passou a utilizar somente materiais reciclados e biodegradáveis nas embalagens de seus produtos e informam seu impacto ambiental, e do Grupo Ferrero, que informa nas embalagens de seus produtos a quantidade de plástico que foi economizada sem alteração na qualidade da preservação do produto. Além disso, o grupo desenvolve a economia circular em toda a cadeia produtiva, com um modelo de autorregeneração em substituição ao de consumo linear tradicional.

Apesar dos avanços nas estratégias sustentáveis, as empresa ainda não adotam padrões de sustentabilidade em seus processos de compras e aquisições (72%). Quinze por cento delas preveem a adoção nos próximos 2 ou 3 anos, enquanto 54% das que já adotam o fazem com fornecedores de manufatura/processamento e 48% com serviços. Caso do Mercado Livre, que vem priorizando a formação de uma cadeia de valor sustentável de ponta a ponta com vistas à diminuição de sua pegada de carbono e das emissões de gases do efeito estufa.

Interação com as comunidades

Quando perguntadas se mantêm um diálogo aberto com a comunidade local sobre questões adversas, controversas ou sensíveis que envolvem suas operações, 69% das empresas participantes responderam afirmativamente. Elas justificam a importância de estabelecer um canal de comunicação com as comunidades para que o engajamento da população afetada aos programas seja maior. As empresas (75%) também incentivam seus funcionários a participar das atividades da comunidade local, fornecendo tempo e experiência, por meio de programas de voluntariado. No Grupo Allianz, o projeto socioeducativo da Associação Beneficente dos Funcionários do Grupo Allianz na comunidade Santa Rita, na periferia da cidade de São Paulo, começou com o trabalho voluntário de alguns colaboradores. Outro ponto envolvendo os programas para a comunidade local é o apoio financeiro a atividades e projetos. Oitenta por cento das empresas que participaram da pesquisa disseram apoiar várias iniciativas financeiramente, mesmo quando o projeto cresceu a ponto de se tornar independente (veja a trajetória do Instituto Árvore da Vida).

A pesquisa também revelou o grau de comprometimento das empresas com seus programas de sustentabilidade e responsabilidade social. Ainda que 55% delas tinham dito que criaram o programa por exigência legal, 80% afirmaram que o manteriam, mesmo com a eventual remoção das regulamentações governamentais que promovem ações sustentáveis, e 77% disseram que o compromisso teria pouco ou nenhum enfraquecimento caso o Brasil deixe o Acordo de Paris.

Apesar de a maioria (80%) não ser signatária ou participante do Pacto Global da ONU, 62% já utilizam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para a definição de metas de desempenho corporativo – o que fazem por meio de campanhas internas (81%) e de ações voluntárias (57%). Mas uma parcela significativa (16%) das empresas que participaram da pesquisa afirmou que não pretende utilizar os ODS no curto prazo. Das que utilizam os ODS, 66% aderem ao Objetivo 8 (trabalho digno e crescimento econômico), 61% ao Objetivo o 12 (produção e consumo sustentáveis), 59% ao Objetivo 4 (educação de qualidade), 57% ao ODS 9 (indústria, inovação e infraestruturas), 56% ao ODS 7 (energias renováveis e acessíveis) e 55% ao Objetivo 5 (igualdade de gênero).

As empresas pesquisadas apontaram a limitação de fundos (61%) para a implementação de projetos como a principal barreira na estratégia de sustentabilidade. Outros entraves encontrados foram a dificuldade para mensurar desempenho e benefícios (36%), a falta de uniformidade de compreensão entre as partes interessadas (25%) e a falta de mecanismos de monitoramento eficazes e transparentes (22%), mesmo entre as empresas que utilizam a metodologia GRI para monitoramento e reporte do programa de sustentabilidade.

As empresas também disseram que o gerenciamento das relações com as partes interessadas, a realização de análise de gerenciamento de riscos e a criação de oportunidades de receita com foco em sustentabilidade são os principais temas a serem trabalhados nos próximos dois anos, bem como a mensuração do progresso em relação aos ODS.

Comunicação das práticas sustentáveis

A pesquisa quis saber como as empresas comunicam seus programas sustentáveis. Oitenta e um por cento das organizações disseram fornecer para os stakeholders informações claras e precisas quanto à sustentabilidade de seus produtos, serviços e atividades; 96% delas afirmaram que mantêm processo para feedback, consulta e/ou diálogo efetivo com clientes, fornecedores e outros parceiros de negócios de maneira formal (77%) e informal (19%); e 52% disseram ser questionadas com frequência sobre as realizações direcionadas à responsabilidade social/sustentável.

Um dos pontos destacados pela pesquisa é que as empresas se ressentem da falta de espaço e de interesse na imprensa dedicado às ações de responsabilidade socioambientais corporativas. Para 44% das entrevistadas, é baixa a frequência com que a mídia questiona as organizações sobre o tema. E 61% delas relaciona a falta de espaço na mídia tradicional à baixa frequência com que são procuradas. Por isso, a veiculação de notícias em canais digitais é o principal meio utilizado pelas organizações para informar suas realizações sustentáveis. Para atingir públicos estratégicos, as entrevistadas disseram recorrer à divulgação em canais próprios de conteúdo digital (54%) e nos relatórios detalhados das ações (53%). Redes sociais, como Facebook (41%), Linkedin (39%) e Instagram (20%), são usadas por 44% das empresas participantes na divulgação de ações de RSE.

Um dado da pesquisa pode ajudar as empresas a entender o porquê da alegada falta de interesse da mídia. A Aberje entrevistou 13 jornalistas de jornais e revistas impressas nas editorias de sustentabilidade, ecologia, meio ambiente e economia, nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, para saber a percepção da imprensa sobre a sustentabilidade/RSE das organizações no Brasil. Para esses profissionais, as empresas socialmente responsáveis são aquelas que desenvolvem ações concretas para contribuir com:

Além disso, a pesquisa mostrou que os jornalistas acreditam que o tema sustentabilidade/RSE não está entre as prioridades na agenda corporativa brasileira, o que contribui para a percepção de que apenas 25% das empresas têm ou mantêm programas efeitos de responsabilidade socioambiental.

De forma geral, as corporações elaboram e divulgam relatórios anuais de sustentabilidade/RSE. A maioria deixa a divulgação a cargo das áreas de sustentabilidade (85%), comunicação (78%) e recursos humanos (34%). Mas para os jornalistas, as organizações não fornecem informações claras e precisas quanto à sustentabilidade de seus produtos, serviços e atividades para seus públicos-alvo nem utilizam meios com credibilidade para a divulgação das ações. E eles apontam como menos críveis justamente os meios utilizados pelas empresas para informar sobre sustentabilidade: espaço pago em canais impressos e digitais, propaganda veiculada em rádio e TV e relatório detalhado das ações da organização.

Qualquer que seja a percepção de ambos os lados, é fato que uma empresa pode investir em ações sustentáveis e ser bem-sucedida; mas, se não houver esforços internos para divulgar esses resultados para a diretoria, os funcionários, os acionistas e a sociedade, esses investimentos e ações não serão percebidos.

© Revista Nós - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e imagens sem prévia autorização.

Pular para a barra de ferramentas