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15 de outubro de 2017

A empresa privada e a revolução na escola pública

Há uma revolução em curso em parte do ensino público brasileiro e, paradoxos dos paradoxos, tem como protagonista o setor privado. Está sob a batuta do Instituto Natura, braço de Responsabilidade Social da Natura, fabricante de cosméticos e perfumes. No entanto, ao lado de empresas socialmente responsáveis, professores abnegados e alunos interessados, a ONG vem promovendo ações inovadoras e de primeira necessidade na área de educação. São projetos integrados, emoldurados pela bandeira da escola em tempo integral e com uso interativo da tecnologia. Os números são grandiloquentes: no ano passado pelo menos 800 escolas, 10 mil professores e 460 mil alunos foram impactados pelos programas educacionais. Há novidades no front, sim.

Escola em tempo integral é um sonho distante, isso a se considerar a situação da educação no Brasil. Ora, o País possui 2,5 milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos fora da escola, segundo o último levantamento feito pelo “Todos Pela Educação”, com base nos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). O montante representa cerca de 6% do universo total de alunos. É muita gente sem estudo. É esse quadro que o Instituto Natura está se esforçando para mudar. E uma das principais aliadas nessa empreitada é a tecnologia.

Primeiro trata-se de capacitar o mestre, que é o difusor do conhecimento. É justamente o que procura fazer o Trilhas, projeto do Instituto Natura voltado para formação de professores de Educação Infantil (crianças de 4 e 5 anos) e do Ensino Fundamental (1o, 2o e 3o anos). Por meio de um curso a distância e com apoio de material impresso ou online, contendo cadernos de orientação pedagógica, indicações literárias e jogos de linguagem, os professores trabalham na alfabetização, no estímulo à oralidade e desenvolvem o gosto pela escrita nas crianças. Os docentes que completarem as 40 horas de atividades do curso recebem certificado validado pelo Ministério da Educação (MEC).

Reconhecido, em 2012, como eficaz para ser implementado em políticas públicas, o Trilhas já teve seus materiais distribuídos para 72.051 escolas, entre municípios considerados prioritários pelo MEC. No ano passado, com mais 85 mil ingressos, já havia 115 mil cadastrados no Portal e cerca de 1.500 professores visualizaram os posts do Trilhas no Facebook.

Se na formação do professor, a atualização é item de primeira hora, no projeto Escola Digital a tecnologia é a peça que move toda a engrenagem. Parceria entre Instituto Natura, Instituto Inspirare e Fundação Telefônica Vivo, consiste na troca e colaboração entre as redes municipais e estaduais de ensino e tem como foco apoiar os professores na incorporação de objetos digitais de aprendizagem na prática pedagógica e, também, compartilhar conhecimento entre docentes, estudantes e gestores escolares. Com mais de 1,6 milhão de acessos/ano, a Escola Digital oferece mais de 10 mil recursos educacionais digitais, disponíveis em plataformas online de acesso aberto e gratuito.

Por meio de um curso a distância, gratuito e com 40 horas de atividades, a Escola Digital induz os professores, coordenadores pedagógicos e diretores a refletirem sobre tecnologia e educação e auxilia no processo de incorporação dos recursos digitais para a aprendizagem e organiza a infraestrutura tecnológica da escola. Os docentes que concluem o curso recebem certificado validado pelo MEC.

Na Escola Digital, as ferramentas digitais variadas, que estimulam a imaginação, são eficientes para reter os alunos em sala ou evitar que durmam sobre a carteira. Mais habilitado e com familiaridade com o mundo da tecnologia de educação, os professores promovem atividades lúdicas com seus alunos, com dinâmicas que envolvem jogos, vídeos, animações e mapas interativos. A atividade didática fica bem menos maçante com o uso de plataformas digitais e aplicativos para produzir filmes, editar imagens e áudios, fazer infográficos, design, cartazes multimídia, organizar fotos, colagens, murais e até ajudar no dever de casa.

O ensino digital pode assustar alguns docentes, mas ajuda a derrubar resistências dos alunos mais enfastiados e pode surpreender nerds e CDFs. Os conteúdos, ou pelo menos a forma como são apresentados, têm diferenças abissais em relação aos métodos tradicionais. Uma das aulas da plataforma digital, voltada para o estudo de sociologia, por exemplo, mostra um vídeo, produzido pela Univesp TV, em que são aplicados os conceitos do sociólogo francês Émile Durkheim. Uma filmagem, feita na Câmara Municipal e em escolas do município de Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, tem como proposta ajudar a refletir sobre a relação do pensamento de Durkheim e o município.

Em outro vídeo, produzido pela Universidade de Aveiro, em Portugal, a aula é sobre as reações químicas presentes nos fogos de artifícios, que resultam numa linda explosão em cores. Noutro, o aluno aprende a calcular a distância entre dois pontos que estejam ou não alinhados.

A Escola Digital mudou a rotina da professora Marta da Conceição de Paula, da Escola Municipal de Educação Básica (EMEB) Senhorinha Ana Alves de Oliveira, em Cuiabá (MT). Formada em Pedagogia e Educação em Séries Iniciais, ela fez o curso de aperfeiçoamento de professores a distância da Escola Digital e, por meio dos recursos da plataforma digital disponível no site, ganhou mais motivação para ensinar as matérias de Português, Matemática, Geografia, Ciências e História e passou a estudar mais. Nas aulas, começou a tratar de temas como diversidade, homofobia, feminismo, manifestações culturais, entre outros, e ganhou a atenção dos alunos. Ao criar novas formas de introduzir os conteúdos, aumentou o rendimento escolar. “Aprendi a montar sequências didáticas, saindo de uma aula monótona e me aproximando do século XXI”, diz.

A Escola em Tempo Integral é o mantra de educação do Instituto Natura, que deve ser ouvido com entusiasmo e ao mesmo tempo com cautela. Entusiasmo, porque se trata de um caminho pedagógico que, aplicado em várias escolas pelo mundo, demonstrou ser capaz de melhorar o desenvolvimento do aluno. Mas cautela, por que a educação em tempo integral, no sentido de simplesmente aumentar a jornada escolar dos alunos, suscita polêmicas entre os educadores. O argumento mais respeitável defende que apenas ampliar a permanência do aluno na escola não garante a qualidade do estudo. Vide o que aconteceu com os CIEPs.

O Instituto Natura, por sua vez, defende “uma educação integral que desenvolva um currículo focado não só na aprendizagem acadêmica, mas também nas dimensões afetiva, emocional, social, física, cultural e ética do aluno, com envolvimento da família, promoção do diálogo e geração de altas expectativas por parte de todos os envolvidos no processo de aprendizagem”. É um conceito que soa como música aos ouvidos dos educadores mais sensíveis. O modelo adotado está alinhado à meta 6 do PNE (Plano Nacional de Educação), que almeja oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos alunos da Educação Básica.

Já há uma rede 770 escolas no País, distribuídas por 17 estados que receberam apoio do Instituto Natura, em parceria com secretarias de educação e organizações do terceiro setor, para a implementação do ensino em tempo integral. Há experiências animadoras, como a do estado de Pernambuco que, a bem da verdade, já havia adotado a educação em tempo integral como política pública em 1978. Em 2015, com apoio do Instituto Natura e empresas parceiras, o ensino em tempo integral chegou às escolas municipais de Recife. Nos últimos 15 anos Pernambuco deu um salto na qualidade da educação do Ensino Médio, saindo do 21o lugar para a primeira posição no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Com essa posição, alcançou o mesmo patamar do estado de São Paulo.

Em 2015, o Instituto Natura, em parceria com o Instituto Sonho Grande, o Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE), Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco e a Bain & Company (consultoria), produziu o estudo “Análise dos modelos de Escola em Tempo Integral de Pernambuco” concluindo que “escolas que adotaram o modelo obtiveram resultados de proficiência significativamente superiores aos das escolas em tempo parcial”. Prova disso, atesta o estudo, é que os índices de evasão no universo pesquisado caíram 90% e os de reprovação 40%. O estudo revelou ainda que, independentemente da classe social do aluno, o modelo é eficaz.

O trabalho do Instituto Natura de apoio à escola integral teve início em 2011, quando firmou parceria com o Instituto de Corresponsabilidade pela Educação – ICE, entidade sem fins econômicos, criado por um grupo de empresários para resgatar o padrão de excelência do então decadente e secular Ginásio Pernambucano, localizado em Recife. Desde 2004, o Instituto Natura vem implementando o sistema em larga escala nas escolas públicas do País. Ainda em 2011, o Instituto passou a apoiar o Programa de Ensino Integral (PEI) da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Em 2014, o mesmo modelo foi implementado nas redes municipais de Fortaleza e Sobral, no Ceará, e em Recife. No ano seguinte firmou parceria com as redes municipais do Espírito Santo, Maranhão e Paraíba.

É digno de mérito o trabalho educacional desenvolvido pelo Instituto Natura num País como Brasil, em que a educação ou a falta dela pode explicar boa parte das mazelas socais. Mas é razoável refletir que a melhoria no ensino, para ser absoluta, abrangente e duradoura, precisaria atuar sobre a grade curricular, que está defasada e desconectada da atualidade, e na capacitação permanente dos professores, que precisam ampliar seu conhecimento e pedagogia e na gestão da escola como centro de aprendizado. Isso para ficar no mínimo.

Métodos alternativos de ensino com eficácia comprovada podem não ser seguidos à risca, mas ajudam a refletir sobre a educação que se quer no futuro. Na escola sueca Vittra, totalmente digital, os alunos estudam em laptops em qualquer lugar que desejarem. Na Escola Primária José Urbina Lopez, do México, localizada ao lado de um lixão, os alunos interferem nos conteúdos que vão estudar. A Sugatta Mitra, da Índia, não tem professores. No sistema democrático de Summerhill, as crianças só vão às aulas se quiserem. Na Brokwood Park School, da Inglaterra, o ensino é holístico e prega a não competição. É bom olhar para todos os modelos, mas é melhor criar o próprio.

Na defesa da Educação Integral

O Instituto Natura defende uma educação integral que desenvolva um currículo focado não só na aprendizagem acadêmica, mas também nas dimensões afetiva, emocional, social, física, cultural e ética do aluno

De Vila Mariana a Nova Iorque

Com vendas em 2016 de R$ 7,9 bilhões e lucro líquido de R$ 297 milhões, a Natura divide com o Boticário o mercado de cosméticos e perfumes, mas é líder na venda direta, por meio de um exército de 1,8 milhão de consultoras. A empresa tem operações na Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela, França e Estados Unidos, além de outros 63 países indiretamente. Em abril deste ano, a Natura inaugurou sua loja em Nova Iorque.

Fundada em 1969, por Antônio Luiz Seabra, a Natura começou com uma loja na Vila Mariana, em São Paulo, e teve crescimento exponencial nos últimos anos. Hoje, com oito centros de distribuição no Brasil e cinco na América Latina, a empresa vem aumentando o número de lojas físicas. No quarto trimestre de 2017 a Natura teve um lucro de R$ 201,8 milhões, uma alta de 38,8% em relação ao mesmo período de 2016.

O exército da Natura

Fundado em 2010, para expandir as ações de Responsabilidade Social da Natura na área de Educação, o Instituto Natura dedica-se a projetos para capacitação de professores e instituições educacionais, em especial dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Presente em todos os estados brasileiros e em mais de 80% dos municípios, tem como bandeira a educação em tempo integral como condição para a melhoria do ensino no País.

Os recursos para os projetos são obtidos com contribuições da Natura e dos parceiros, muitos deles fundações ligadas a organizações de peso, como Itaú, Globo, Telefônica e C&A. O Instituto tem verba própria, que vem da venda de uma linha exclusiva de produtos, o Crer para Ver, incluindo canecas, bolsas, cadernos, chaveiros e nécessaires que são comercializados pelo exército de mais de 1,5 milhão de consultoras Natura em todo o País. Todo lucro obtido é reinvestido em projetos educacionais. Em 2015, o Crer para Ver arrecadou R$ 19,5 milhões e, em 2016, mais R$ 23 milhões.

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