Ir para o Topo

5 de junho de 2017

A guerra contra a fome não tem fronteiras

A Sodexo, empresa que atua em serviços de qualidade de vida, tem dois corações. Em um, bate o fervor capitalista, que disputa palmo a palmo a liderança do mercado de refeições corporativas e quer crescer, crescer e crescer. No outro, o lado altruísta, que tomou para si a missão de combater a fome e a desnutrição entre os 80 países onde atua. Neste segmento, entre as iniciativas não governamentais, está disparada na liderança.

Empresa controlada por capital francês, a Sodexo como negócio vai muito bem, obrigado. A empresa acaba de adquirir, por R$ 1 bilhão, a brasileira VR – empresa de tíquetes-alimentação fundada há 30 anos pelo empresário Abram Szajman – e já encosta na Ticket, do grupo Accor, líder do segmento no país. Recentemente foi listada, pela décima vez com pontuação máxima no setor em que atua, no Anuário de Sustentabilidade 2017 da RobecoSAM. É uma boa vitrine para empresas politicamente corretas.

Mas a briga mercadológica da Sodexo é fichinha se comparada à meta, hercúlea, de acabar com a fome nos 80 países onde atua. Tome-se os do continente africano, por exemplo, onde a falta de comida é uma tragédia humana. Mesmo no Brasil, embora muitos desconheçam, mais de 7 milhões ainda passam fome, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo IBGE, com dados de 2013. “Infelizmente, a fome é ainda uma tragédia aqui”, diz Fernando Cosenza, presidente do Instituto Stop Hunger no Brasil. “Muita gente ainda morre disso, sejam mendigos, moradores de rua ou pessoas que vivem na miséria em alguns rincões distantes do país.”

Para esta empreitada contra a fome e a desnutrição, a Sodexo conta com o Instituto Stop Hunger, nome que já diz tudo. Braço de responsabilidade social da companhia, foi fundado em 1996 pelos empregados nos Estados Unidos e hoje está sediado na França, onde também fica a matriz da companhia. Com base em um trabalho de estímulo ao voluntariado e parcerias em prol do desenvolvimento de comunidades carentes, tornou-se uma das entidades líderes no combate à fome e a má nutrição. No Brasil, o Stop Hunger já atuava desde 2003, em vários estados, com ações pontuais em comunidades carentes, mas foi oficialmente constituído no país em 2015.

Uma das principais iniciativas do Stop Hunger no Brasil vem sendo operacionalizada por meio do programa Servathon, nome da maratona mundial de voluntariado organizada pela Sodexo. Com atuação em grande escala e ajuda de voluntariado, sempre, a maratona coleta alimentos para distribuir em instituições e abrigos assistenciais. A 8a edição brasileira do Servathon, realizada nos meses de abril e maio do ano passado, mobilizou milhares de parceiros, entre clientes, estabelecimentos comerciais, fornecedores, colaboradores, familiares e membros da sociedade em geral, para contribuir com doações de alimentos e trabalho solidário. As 70,7 toneladas de alimentos doados superaram em mais de 74% a arrecadação do Servathon 2015. Foram mais de 130 mil refeições prontas, beneficiando 92 instituições de diversas regiões do Brasil.

A mobilização é epidérmica. O Servathon 2016 envolveu 31.506 voluntários, que, ao todo, deram mais de 33 mil horas de trabalho para a causa, e mobilizou 246 empresas parceiras, entre supermercados e grandes atacadistas, que participam todos os anos da Servathon e fazem as doações maiores. Some-se a isso as doações financeiras que são convertidas em alimentos e fazem parte do bolo.

Mantido parcialmente pela Sodexo, o Instituto depende de doações para viabilizar suas campanhas, a maioria em âmbito mundial. Em janeiro deste ano o Brasil foi um dos 12 países participantes do Stop Hunger Week, programa de arrecadação financeira nos restaurantes onde a empresa atua. Dos US$ 2.000 angariados – metade doada por consumidores e o restante pelo Instituto –, 50% foi para o World Food Programm (WFP), entidade de combate à fome do qual o Stop Hunger é parceiro, e 50% para o grupo Vida Brasil, de Barueri, em São Paulo. Em nível mundial, a campanha “Stop Hunger Week” priorizou refeições escolares para crianças mais pobres da África, América do Sul, Ásia e França.

Nem sempre as iniciativas de combate à fome e à desnutrição são gestadas dentro do Stop Hunger e mesmo traduzidas em mobilizações arrecadatórias de alimento. O Instituto encampou, por exemplo, o Satisfeito, um programa mundial de combate ao desperdício que atua em parceria com restaurantes. O Satisfeito procura estimular os estabelecimentos a oferecerem nos seus cardápios pratos equivalentes aos do cardápio normal, porém com um terço a menos de quantidade de comida e, teoricamente, a mesma fração subtraída do preço. Só teoricamente. Na verdade, a diferença é doada – voluntariamente – pelo consumidor para o programa que, por sua vez, destinará o valor recebido a alguma organização social que alimenta crianças com fome. Em um ano, desde que aderiu ao Satisfeito, o Stop Hunger já credenciou cerca de dez restaurantes no programa.

A fome é a palavra-chave na atuação do Stop Hunger, especialmente em países pobres, mas uma reunião, em fevereiro, no quartel general do Instituto, na França, pode ter alterado, ou pelo menos flexibilizado, a visão assistencialista que tem marcado as ações do Instituto nos seus 20 anos de existência. “Não, o asistencialismo não será abandonado, mas acrescentado a ele um pouco da noção de que é preciso também desenvolver aptidões, empoderar pessoas”, garante Cosenza. As iniciativas incluem o desenvolvimento de comunidades sociais, diversidade de gênero, raça, responsabilidade ambiental e, claro, promoção da nutrição, da saúde e bem-estar.

É uma visão mais avançada, que vai além do assistencialismo. Há muito vem sendo aplicada em países mais desenvolvidos, onde o essencial é dar condições de vida para as populações mais pobres, principalmente das grandes cidades onde a Sodexo atua, como os árabes da periferia de Paris, os turcos dos arredores de Berlim ou os indianos dos subúrbios londrinos. Nesses, fome não é o principal problema. Mas o empoderamento não será certamente a principal arma com a qual o Stop Hunger atuará na África ou na Ásia e mesmo na América Latina, onde há ainda grandes bolsões de miséria. Esses continentes engrossam as estatísticas da ONU, de que quase 800 milhões no mundo passam fome. Somem-se a má nutrição infantil, desnutrição e a alimentação desbalanceada.

O Stop Hunger vê o Brasil em posição intermediária. Já estão saindo da gaveta alguns projetos voltados para a educação nutricional. “Queremos ajudar as pessoas a compreender como se alimentar melhor e até produzir em casa algumas hortaliças”, explica Cosenza. O Instituto quer, por exemplo, replicar a experiência com o Programa Hortaliças, que vem sendo implementado no país desde 2003 em parceria com a UNESP, nos campi de Jaboticabal e Botucatu, no interior paulista.

O programa consite em oferecer bolsas de estudos a estudantes de Agronomia que não têm condições de pagar as mensalidades do curso. Em contrapartida, eles trabalham nas duas hortas de 5 mil metros quadrados cada mantidas pela universidade. A produção das hortas, de 48 toneladas de verduras e hortaliças por ano, é destinada a organizações sociais da região e doadas às comunidades locais. Até agora o Programa Hortaliças já beneficiou 373 bolsistas. É bem-vindo. O Brasil precisa de tudo.

A Sodexo

Fundada por Pierre Bellon em 1966 em Marseille, na França, a Sodexo, líder em Serviços de Qualidade de Vida, opera em 80 países e é a 18a maior empregadora mundial, com 428 mil colaboradores.

As ações de sustentabilidade da companhia são promovidas no âmbito do programa global “The Better Tomorrow Plan” (O Plano por um Amanhã Melhor), que inclui compromissos com a proteção do meio ambiente, desenvolvimento de comunidades locais, com ações de qualidade de vida até 2020.

A multinacional também promove a integração no seus processos de pequenas e médias empresas (PMEs). Ao longo de 2017, o Grupo planeja comprar mais de US$ 1 bilhão em produtos e serviços vindos de PMEs de todo o mundo, com o objetivo de beneficiar cerca de 5 mil PMEs em 40 países, sendo que 1.500 devem ser lideradas ou gereciadas por mulheres.

Com um time de mais de 36 mil colaboradores, a Sodexo atua no Brasil por meio da Sodexo Beneficios, que opera restaurantes em hospitais, universidades e empresas, e a Sodexo Serviços, administradora de cartão-refeição, vale-transporte, cartão-alimentação e seguros. A empresa atende cerca de 5,8 milhões de clientes no país.

O Stop Hunger

Embora seja mantido e atue dentro do ecosistema da Sodexo – colaboradores, clientes, consumidores, fornecedores e acionistas –, o Stop Hunger é uma pessoa jurídica autônoma. O Instituto tem um conselho de mantenedores que funciona como adviser para a gestão e aprova as contas, além de uma diretoria-executiva integrada por um presidente, um vice e um superintendente. E como é um movimento global, há uma coordenação com representantes de todos os continentes. Além de tocar o Instituto, os conselheiros e diretores estão sempre envolvidos no esforço de atrair parceiros para a causa.

No Brasil, os dois mantenedores do Instituto, a Sodexo Beneficios e a Sodexo Serviços, garantem com suas contribuições mensais um orçamento básico para manter uma equipe dedicada, escritório, materiais, transportes etc. Eventualmente, dependendo do projeto, a Sodexo internacional também pode enviar doações ou recursos para o Stop Hunger brasileiro. Recentemente, o Instituto ganhou da Sodexo Beneficios 80 computadores com dois anos de uso, mas em ótimo estado. Os R$ 28.000 arrecadados com a venda do equipamento foram revertidos para a causa.

Há doações sistemáticas que vêm de funcionários, clientes, fornecedores e demais steakholders envolvidos no negócio da empresa, as quais são 100% revertidas em projetos de combate à fome. Além da doação financeira, no Brasil, nas inciativas de voluntariado o Instituto conta com a mobilização dos mais de 30 mil funcionários da Sodexo, clientes e parceiros. Em 2016 as ações do Stop Hunger entregaram mais 150 mil refeições para pessoas carentes.

Apesar de a Sodexo atuar em 80 países, o Stop Hunger está presente em apenas metade deles, o que não impede, porém, de participar também com projetos de combate à fome e a desnutrição no restante desses países.

Leia também

19 de agosto de 2019

Projetos da FBB impactam a vida de 130 mil pessoas em todas as regiões do país em 2018

Ações apoiadas e desenvolvidas pela Fundação Banco do Brasil reforçam compromisso da instituição de valorizar vidas para transformar realidades; projetos socioambientais estão alinhados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas. A designer Luiana da Silva, moradora de uma favela no Rio de Janeiro, está fazendo cursos de capacitação em […]

8 de agosto de 2019

Sistema hídrico autossustentável garante 100% do abastecimento de água de shopping de SP

Impulsionado pela crise de abastecimento de água que atingiu São Paulo entre 2014 e 2016, o Cantareira Norte Shopping incluiu em seu projeto um sistema de tratamento de água e esgoto que fornece 100% da água utilizada no empreendimento. Com isso, deixou de depender do fornecimento dos reservatórios da Sabesp e de jogar 4,5 milhões […]

2 de agosto de 2019

Suzano amplia projetos socioambientais após megafusão com a Fibria

Para reduzir o impacto ambiental de suas atividades, a gigante da indústria de base florestal Suzano SA mantém um relacionamento estreito com as comunidades das áreas onde atua. Seus projetos socioambientais vão do incentivo à apicultura sustentável e à agricultura comunitária até a implantação de bibliotecas e programas de educação ambiental em escolas públicas O […]

© Revista Nós - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e imagens sem prévia autorização.