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15 de outubro de 2016

A mãe natureza agradece

Quanto custa a qualidade da água e do solo, o controle natural de pragas, a polinização feita por insetos e aves e outras ações espontâneas da natureza? A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza está fazendo esta conta e procurando quem esteja disposto a pagar. Em 2006, a instituição lançou o Projeto Oásis, iniciativa pioneira no país que prevê o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), ofertados, até agora graciosamente, pela mãe natureza, com a ajuda de homens de boa vontade. Definam-se como serviços ambientais aqueles vitais, prestados pelos ecossistemas que garantem nossa sobrevivência no planeta. Ou seja, a vida.

O PSA é uma espécie de contrapartida financeira aos proprietários rurais por suas ações na preservação dos ecossistemas nas áreas onde desenvolvem suas atividades. O cálculo leva em conta uma equação complexa, que considera, entre outras, as providências em benefício do ambiente, o grau de sustentabilidade e o raio de impacto da iniciativa. Cabe à Fundação Grupo Boticário selecionar o proprietário beneficiário e o valor anual a ser pago. Áreas mais bem sustentadas, maior valor.

O proprietário é visitado anualmente e, se não cumprir com a sua parte, o pagamento é suspenso. Mas pode aumentar sua renda se a área nativa, por exemplo, tiver crescido a partir das suas ações. Trata-se de um estímulo para melhorar seu desempenho ambiental e receber mais. A iniciativa, ressalte-se, é voluntária. O valor varia, em média, 300 reais por hectare/ano de área destinada à conservação.

O Oásis, que está completando dez anos de existência, foi implantado, primeiramente, na Região Metropolitana de São Paulo, abrangendo as bacias hidrográficas de Guarapiranga e Billings e as Áreas de Proteção

Ambiental (APAs) municipais de Capivari-Monos e Bororé-Colônia. Depois, foi adotado em Apucarana (PR), São Bento do Sul (SC), Brumadinho (MG) e nas regiões dos Corredores Ecológicos Chapecó e Timbó, que incluem mais de 30 municípios, em Santa Catarina. Atualmente o PSA está em fase de desenvolvimento em Palmas (TO), São José dos Campos (SP), Bonito (MS) e na região metropolitana de Curitiba (PR).

A lógica de premiar proprietários que, com suas ações, preservam o ambiente tem dado certo. No total, já foram beneficiados 434 proprietários particulares, e conservados mais de 3,5 mil hectares de áreas naturais. É animador, mas, rigorosamente, o Oásis ainda é um grão de areia no deserto, dada à imensidão de áreas que precisam ser protegidas. Como sempre faltam recursos, a Fundação Grupo Boticário não faz os desembolsos do PSA, mas articula com as fontes pagadoras – por enquanto empresas e prefeituras – e dá o suporte técnico na estruturação das iniciativas, incluindo a consultoria ambiental e adequação ao marco legal.

Achar os que vão pagar a conta ambiental, aliás, é um dos desafios do Projeto Oásis. Como o esforço de recuperação das áreas é benefício para todos, portanto público, é natural que na equação haja participação das prefeituras. É o caso de São Bento do Sul, onde há 15 proprietários envolvidos na recuperação do rio Vermelho e remunerados pelo município. Note-se que, se o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (SAMAE), em vez de adotar o PSA, fosse investir na melhoria da qualidade da água, a conta seria muito mais salgada.

Em São José dos Campos, a prefeitura determinou a criação do Fundo Municipal de Serviços Ecossistêmicos (FMSE), que abre crédito adicional especial à Secretaria do Meio Ambiente para, com recursos do PSA, recuperar os mananciais de abastecimento hídrico do munícipio. O processo de seleção das propriedades rurais aconteceu em 2015, por meio de chamada pública, e os contratos com os proprietários foram assinados em 2016. Nesta etapa, o programa promoverá a restauração florestal de 50 hectares de terra e a conservação de 500 hectares de floresta na microbacia Ribeirão das Couves.

Já os recursos para a recuperação da área de floresta em torno das represas Billings e Guarapiranga, em São Paulo, vieram, incialmente, da Fundação Mitsubishi, que durante sete anos remunerou os proprietários rurais locais. Depois disso, por um tempo, o pagamento passou a ser feito pelo estado e municípios, em conjunto com empresas locais. Hoje o projeto está paralisado. “Infelizmente ainda não está disseminada nas empresas a cultura de pagar pelo benefício ambiental”, reconhece Guilherme Karan, coordenador de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

O PSA ainda é novidade no Brasil, mas sua prática já remonta há pelo menos 26 anos. O primeiro e mais famoso PSA ocorreu no final dos anos 1990 em Nova Iorque. À época, o abastecimento de água da cidade, que vem do município de Catskill, ao norte do estado, estava comprometido por anos de degradação ambiental. Como o custo para a construção de uma superestação de tratamento era muito alto – em torno de US$ 7 bilhões –, a alternativa foi investir na conservação da bacia hidrográfica da região com incentivos aos proprietários rurais. Hoje a água que sai das torneiras das casas dos nova-iorquinos é de excelente qualidade, com tratamento mínimo de aditivos.

No Brasil, o modelo de negócio do PSA está sendo ajustado aos poucos. Com baixo dispêndio nesse caso, a Fundação Grupo Boticário atua essencialmente como articulador das ações de preservação ambiental. É esse mesmo princípio, o de articular e juntar as partes, que rege as outras duas áreas que compõem o tripé Estratégia e Conservação da Fundação, Mudanças Climáticas e Negócios e Biodiversidade.

Negócios? Sim, trata-se de uma iniciativa que se propõe a viabilizar qualquer empreendimento inovador que gere renda e valor ambiental. O piloto começou a ser desenvolvido em 2013 no planalto catarinense, na Floresta de Araucárias, um ecossistema atacado por atividades extrativistas e com apenas 3% de sua área original preservada. O Projeto Araucária+, em parceria com a Fundação Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras (CERTI), prevê incentivos para empreendimentos que utilizem o pinhão, erva-mate, canela e outros subprodutos cuja produção dependa da floresta de araucária.

Uma cervejaria do interior do Paraná, a Insana, foi a primeira a aderir ao Araucária+ e já produz uma cerveja feita à base de pinhão. Com um aumento nas vendas de 120% em 2015, o gestor da cervejaria, Pedro Reis, não se queixa da vida. “O grande aumento nas vendas confirma que o consumidor valoriza a redução do impacto no meio ambiente”, confirma ele, dando aval a um negócio que parece, sim, aquele que é bom para todo mundo. Ganha o cervejeiro, que teve exposição diferenciada com o seu produto e dobrou suas vendas. Beneficiam-se os consumidores, que degustam um produto orgânico e saudável. Saíram-se bem os produtores, que, com práticas sustentáveis, passaram a comercializar o pinhão, com aumento de cerca de 30% no insumo. E, claro, a floresta, penhorada, agradece.

Na área de Mudanças Climáticas, a Fundação apoia a pesquisa científica e projetos que minimizam os impactos ambientais. São bem-vindos estudos amparados em engenharia convencional, como, por exemplo, muros de contenção e diques contra deslizamentos. No entanto, haverá mais boa vontade com os projetos de recuperação de áreas naturais por meio de soluções de adaptação ao ecossistema, como o reflorestamento no enfrentamento de secas ou a recuperação de manguezais para evitar as ressacas.

Reservas Particulares

Todos sentados. As imagens são exibidas em seis telas dispostas em 360 graus, e o espectador sente na pele a chuva e as variações de temperatura, o frio, o calor. Aspira aromas de mato, ouve o barulho das folhas ao vento e, com Oculus Rift (usado em realidade virtual para jogos eletrônicos), passeia por paisagens magníficas da Mata Atlântica brasileira. É virtual, mas também é real. A Conexão Estação Natureza, da Fundação Grupo Boticário, é uma exposição interativa que utiliza a tecnologia digital como ferramenta para sensibilizar as pessoas sobre a importância da biodiversidade brasileira. Mais de sete milhões já assistiram.

As imagens se sucedem. Bem-vindos à Reserva Salto Morato, em Guaraqueçaba, no litoral paranaense, a 2.500 km de Camaçari. Hoje é a joia da natureza da Fundação Grupo Boticário, que também mantém sob sua gestão a Reserva de Serra do Tombador, em Cavalcante, no interior de Goiás. Os dois biomas somam mais de 11 mil hectares e inserem-se entre as 207 Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) existentes no país, que são geridos por mãos privadas. Estão entre os mais ameaçados do país, seja pelo extrativismo indiscriminado, caça proibida ou incêndios.

Adquirida em 1994 com apoio financeiro da The Nature Conservancy, a Reserva Natural Salto Morato, com seus 2.253 hectares de área, está dentro do maior remanescente contínuo de Mata Atlântica brasileira. A reserva, considerada referência nacional em manejo de reservas privadas, é reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade.

Desde 1996 a reserva é aberta ao público e programa turístico obrigatório do município de Guaraqueçaba. Um contingente de apenas 11 pessoas, entre técnicos e pessoal de apoio, trabalha na reserva. Eles garantem a infraestrutura necessária para atender aos visitantes, que inclui as inúmeras trilhas, alojamento para pesquisadores, quiosques, camping, centros de pesquisa e laboratório. Até hoje, foi registrada no local a ocorrência de 646 espécies vegetais, 93 espécies de mamíferos, 325 de aves, 36 de répteis, 61 de anfíbios e 55 de peixes.

Onze anos depois, com a experiência de Salto Morato, a Fundação Grupo Boticário adquiriu a Reserva Natural Serra do Tombador. Localizada a cerca de 20 quilômetros de Brasília e próxima ao Parque Nacional Chapada dos Veadeiros. Com uma área de mais de 8 mil hectares, é uma das maiores RPPNs do Cerrado brasileiro. Não está aberta à visitação pública, mas recebe pesquisadores para estudos científicos. Bioma constantemente ameaçado pelo desmatamento e pela agricultura intensiva, a Serra do Tombador é um verdadeiro santuário natural. Já tem catalogadas 435 espécies de plantas vasculares, 35 de mamíferos, 346 de aves e 56 de anfíbios e répteis. Muitos animais característicos da Mata Atlântica, como o puma, a jaguatirica, a anta e o gato do mato, estão ameaçados de extinção.

Inicialmente, a Fundação Grupo Boticário pretendia implementar uma RPPN em cada bioma brasileiro, mas em 2007, com a aquisição da Reserva Natural Serra do Tombador, percebeu a inviabilidade da empreitada. “Vimos que precisávamos concentrar esforços na implementação dessas duas reservas, que demandam um trabalho imenso de planejamento e várias ações”, explica a bióloga Marion Letícia Bartolamei Silva, coordenadora de áreas Protegidas da Fundação Grupo Boticário.

A semente sagrada

Em meados dos anos 1980, numa viagem a Israel, o judeu Miguel Krigsner, dono do Boticário, teve a inspiração que tornaria o Grupo Boticário um dos maiores investidores privados em projetos de preservação ambiental do Brasil, destinando para esse fim 1% da sua receita líquida. Na visita ancestral, Krigsner conheceu a Keren Kayemet LeIsrael (KKL), uma organização centenária que, com recursos de judeus de todo o mundo, faz a recuperação do deserto por meio do reflorestamento. Filho de asquenazes que emigraram para o Brasil na década de 1970, Krigsner conhecia o costume judeu, milenar, de presentear amigos com certificados de mudas plantadas na terra santa. Estava ali a semente da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Em 1990 nascia a Fundação Grupo Boticário, isso antes da Rio92, um marco mundial da sustentabilidade, numa época em que havia pouca discussão sobre ações de proteção à natureza, e mesmo as ideias de responsabilidade social empresarial eram ainda muito pouco aplicadas. A premissa era implementar ações que gerassem resultados práticos para a proteção da biodiversidade brasileira e de forma perene. Depois de análises e conversas com renomados conservacionistas, chegou-se à conclusão que a melhor estratégia era atuar como financiadora de projetos de conservação da natureza por meio de outras instituições.

Com a criação da Fundação, O Boticário adotava, numa só tacada, o ambientalmente correto e o economicamente sustentável, o que não é pouco para uma empresa que retira do meio natural os insumos para os seus produtos – fragrâncias, cosméticos – e associa fortemente sua imagem à natureza. A iniciativa, mais do que isso, tem conexão direta com a sustentabilidade do negócio. “Um dia, O Boticário será lembrado não apenas pelos produtos que desenvolveu, mas pelo compromisso e pelas iniciativas feitas em favor de uma sociedade mais justa e equilibrada”, costuma dizer Krigsner, fundador da empresa e presidente do Conselho de Administração.

Para ser eternamente lembrada por seu papel ambiental a Fundação Grupo Boticário, entidade privada sem fins lucrativos, vem reforçando suas ações ambientais, embora tais iniciativas não tenham relação direta com o negócio do grupo. A instituição promove editais para financiar seus projetos, em que empresas do terceiro setor atuam como braços operacionais dessas iniciativas.

A Fundação Grupo Boticário é gerida por um Conselho Curador, composto por 11 membros voluntários, dos quais apenas três são dirigentes do Grupo Boticário. Os demais são conservacionistas de renome e profissionais que atuam nas áreas de comunicação, gestão e jurídica e que têm ligação com a conservação da natureza. Além disso, a organização também conta com o Conselho Fiscal, formado por três membros voluntários externos.

Gastronomia responsável

Outra ação da Fundação Grupo Boticário é o Movimento Gastronomia Responsável. Inicialmente implantado em Curitiba (PR), já se espalhou por várias cidades do país e reúne chefs e amantes da gastronomia. Os chefs são convidados a adotar práticas menos impactantes ao meio ambiente no preparo de suas receitas. O público, por sua vez, contribui com a biodiversidade ao consumir os pratos do Gastronomia Responsável em qualquer restaurante participante e ao incorporar os princípios em sua cozinha.

Projeto Araucária+

A cervejaria Insana, do interior do Paraná, foi a primeira a aderir ao projeto. A cerveja feita à base de pinhão teve um aumento nas vendas de 120% em 2015.

Uma botica internacional

Criada em 1977 pelo farmacêutico, recém-formado, Miguel Krigsner, O Boticário nasceu numa pequena farmácia de manipulação em uma rua secundária de Curitiba. A segunda loja foi inaugurada em 1980, no Aeroporto Afonso Pena, na capital paranaense. Daí em diante novas filiais começaram a ser abertas pelo sistema de franquia. Hoje, quase quatro décadas depois, o Grupo Boticário é líder do setor de perfumaria no Brasil. Com 3.700 lojas, 600 produtos no portfólio, entre fragrâncias e cosméticos, está presente em mais de 20 países. No Japão, por exemplo, há mais de 600 pontos de venda. Dono de uma das marcas brasileiras mais valiosas, O Boticário, mesmo na crise, deve contabilizar aumento no seu faturamento, hoje na casa dos R$ 10 bilhões.

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