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10 de agosto de 2018

A música que nasce e volta para as ruas

O Projeto Fator Talento, uma iniciativa do Banco Fator em parceria com o ReciproCidade, projeto desenvolvido pelo portal Catraca Livre, é uma incubadora de novos músicos. O projeto junta no mesmo palco artistas promissores, que cantam ou tocam instrumentos de corda, com nomes consagrados da MPB. A ideia de montar uma programação voltada para impulsionar carreiras foi da produtora cultural Carla Ferraro e do jornalista Gilberto Dimenstein, criador do Catraca Livre. “Já fazíamos esse trabalho com artistas plásticos, que não tinham oportunidade de mostrar suas obras, e começamos a receber pedidos para ajudar novos músicos”, explica Carla. A produtora conta que estruturou o projeto e procurou o Banco Fator, que é reconhecido por apoiar a cultura. “O Banco Fator abraçou a iniciativa, e desde outubro começamos a atuar com muito sucesso”, comemora Carla.

As apresentações mensais são em locais diversos, na cidade de São Paulo, para convidados ligados ao cenário musical, com uma cota de convites para o público em geral, distribuída uma hora antes dos espetáculos. Os encontros são transmitidos ao vivo pelo Catraca Livre e atingem a marca de mais de 300 mil visualizações. O formato dos shows é flexível, que podem acontecer no palco de um teatro, no meio da rua ou em uma galeria de arte, sempre privilegiando a criatividade e proporcionando boas surpresas.

Em fevereiro, o show do premiado pianista Marcelo Bratke, no teatro da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo, comoveu o público. Bratke se apresentou para uma plateia de 140 pessoas, entre elas, deficientes visuais da Fundação Dorina Nowill. O pianista, que era praticamente cego devido a uma catarata congênita, aos 44 anos de idade recuperou 80% da visão depois de uma cirurgia feita nos EUA, há 14 anos. “Na abertura do espetáculo, o teatro ficou totalmente no escuro, para que todos se igualassem e sentissem a mesma sensação dos deficientes visuais. Nessa atmosfera, o Marcelo tocou e contou um pouco da sua vida. Foi muito emocionante”, relata Carla. Em seguida, com as luzes acesas, entraram em cena os jovens da Camerata Brasil. A partir desse show comovente, as portas do teatro se abriram para outras apresentações. O diretor da Biblioteca Mario de Andrade, Charles Cosac, ficou encantado com o evento e colocou o local à disposição para futuras apresentações.

Os músicos talentosos, sem recursos para iniciarem suas trajetórias artísticas, chegam até o Fator Talento por vários caminhos. “Eles nos procuram por conhecerem o alcance do projeto, são indicados por artistas consagrados, ou nós mesmos saímos em busca de músicos que se apresentam nas ruas”, destaca Carla. A produtora afirma que não há inscrições e que cada apresentação de um instrumentista ou cantor é tratada de acordo com os objetivos que eles têm na carreira.

Os tocadores de viola de arco Pedro Visockas, Gabriel Marin e Roberta Marcinkowsky foram os primeiros a receber o apoio do projeto. Eles queriam realizar o Primeiro Encontro Campestre de Violas, em Piracicaba (SP) e, com dois shows, conseguiram o financiamento para o evento. “Não cobramos ingresso, mas ao final das apresentações explicamos os objetivos dos artistas e perguntamos como a plateia poderia ajudá-los”, comenta Carla.

O sonho dos violonistas Bruno de La Rosa, Pedro Visockas e Gabriel Marin começou a se tornar realidade no show de lançamento do projeto, no Teatro Brincante, na Vila Madalena, em São Paulo, quando o cantor e compositor Toquinho se apresentou com eles e o clarinetista Luca Raele, com participação especial do conhecido violonista e percussionista Renato Braz. No mês seguinte, o projeto reuniu na Galeria de Arte Urbana Choque Cultural, também na Vila Madalena, o sanfoneiro Toquinho Ferragutti, o violonista Neymar Dias, além de Lucas Raele, Roberta Marcinkowsky e Pedro Visockas, em um show acústico com músicas de Bach e Beatles. Com essa segunda apresentação, a meta de realizar o Encontro Campestre de Violas, em Piracicaba, foi concretizada.

O Fator Talento levou para a rua, ainda na Vila Madalena no ano passado, os músicos da comunidade de Heliópolis, o sanfoneiro Toquinho Ferragutti, os violonistas Neymar Dias e Pedro Visockas e o clarinetista Luca Raele.

Em outra apresentação na Galeria de Arte Urbana Choque Cultural, o maestro João Carlos Martins e o pianista Marcelo Bratke destacaram os talentos do tenor Jean William, do pianista Davi Campolongo e de Gabriel Marin. Mas foi em um encontro na redação do Catraca Livre, acompanhado do maestro João Carlos Martins, que Jean William teve sua chance de ouro. Na plateia estava Marcos Arbaitman, que faz parte do conselho do Metropolitan Opera House, de Nova York. “Depois dessa apresentação, Jean foi convidado por Arbaitman, que se emocionou com a voz do tenor, para cantar naquele teatro nova-iorquino”, orgulha-se Carla. Jean nasceu em Barrinha, interior de São Paulo, foi criado pelos avós, um boia-fria e uma faxineira, e começou sua trajetória cantando na Igreja Católica.

As histórias bem-sucedidas dos jovens foram se espalhando e chamaram a atenção do professor de piano da Berklee College of Music, em Boston, Gilson Schachnik. O professor não se conformava com a possibilidade da violoncelista Kely Cristina da Conceição Pinheiro perder a bolsa de estudos integral em uma das mais importantes escolas de música do mundo, por não ter o dinheiro para se manter por quatro anos em Berklee. A instrumentista foi a vencedora de uma disputa internacional, mas sem ter, pelo menos, um ano do valor que precisaria em Boston depositado na conta, o equivalente a R$ 100 mil, não conseguiria tirar o visto para os EUA. A prova foi em fevereiro e o prazo para obter o dinheiro terminava em julho. A violoncelista, que é moradora da comunidade da Grota, em Niterói, no Rio de Janeiro, e iniciou os estudos musicais aos cinco anos, no projeto Orquestra de Cordas da Grota, não vislumbrava nenhuma perspectiva para arranjar os recursos. As dificuldades de Kely chegaram até Carla e Gilberto por intermédio de um sobrinho do professor Gilson Schachnik. “Estava em um jantar na casa de um músico e o rapaz veio me contar o problema que a Kely estava enfrentando e me perguntou como poderíamos ajudá-la. Por coincidência, o Gilberto estava indo para Boston e a incluímos no projeto”, relata Carla.

A partir daí, foi iniciada uma campanha para arrecadar o dinheiro para a violoncelista estudar em Berklee. O maestro João Carlos Martins convidou Kely para tocar no Theatro Municipal de São Paulo, acompanhada de Marcelo Bratke. Ela se apresentou também com os ex-alunos da Berklee, o maestro Nelson Ayres e os violinistas Ricardo Herz e Muari Vieira, acompanhados da cantora Mônica Salmaso. Os shows e a vaquinha digital cobriram dois anos dos gastos que a instrumentista terá nos EUA. A violoncelista embarca para Boston em agosto. “Será um tiro no escuro, mas vou fazer a faculdade dos meus sonhos”, comemora Kely. Ela disse que ainda não conseguiu todos os recursos necessários, mas que a campanha vai continuar. “O Fator Talento deu um up na captação do dinheiro”, reforça a violoncelista.

O sucesso dessa arrecadação deu origem ao desdobramento do Fator Talento, o Diamantes Musicais, voltado para estudantes de música. A próxima beneficiada é a violinista Nathalia Oliveira, moradora da Zona Leste de São Paulo, que ganhou bolsa para a Mozarteum, em Salzburgo, a melhor escola de música da Áustria. Nathalia foi aprovada por unanimidade por uma banca internacional para cursar quatro anos de bacharelado. Finalista da 6a edição do Prêmio Ernani de Almeida Machado, no ano passado, Nathalia diz que aprender alemão é o menor de seus problemas. Ela aproveita as três horas diárias que gasta no transporte público em seus deslocamentos por São Paulo para estudar a língua.

A moradora da comunidade de Heliópolis e chefe de família, a trompista Tayane Sepúlveda, ganhou uma bolsa de mestrado na Alemanha e, como Kely e Nathalia, busca levantar recursos para se manter no exterior.

Em 26 de agosto, no encerramento da Virada Sustentável, os jovens talentos ocuparão um dos palcos montados na Avenida Paulista. Um público maior terá a oportunidade de ver e ouvir o que há de novo no cenário musical. No evento vão se apresentar, entre outros, Davi Campolongo, Jean William, Gabriel Marin, Pedro Visockas, Kely Pinheiro e Nathalia Oliveira, com participação especial do maestro João Carlos Martins.

Os melhores momentos do Fator Talento serão registrados em um documentário, que contará as histórias de superação dos jovens e sobre a generosidade dos músicos consagrados, que são convidados a se apresentar no projeto, como o maestro João Carlos Martins, para citar um deles. “A disponibilidade dos artistas renomados e a boa vontade deles de impulsionar as carreiras dos novos talentos é fundamental para as conquistas que tivemos até agora”, resume Carla.

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