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1 de julho de 2018

A reciclagem inclusiva das cooperativas de catadores

Everton Henriques Ferreira, 27 anos, vivia de fazer bicos de eletrônica, técnica que não chegou a estudar. Há mais de dois anos foi contratado pela cooperativa de catadores Viva Bem, aprendeu diversos ofícios e hoje é um dos coordenadores da unidade da Anhanguera, em São Paulo. A remuneração mensal varia por ser calculada sobre as horas trabalhadas, mas chega até a R$ 3.500,00. Casado, com um filho, Éverton já reformou a sua casa, comprou um carro usado, ano 1997, e garantiu a prótese ortopédica que a mãe precisava. “Aqui se aprende de tudo. Hoje sou um homem melhor, mais humilde e menos tímido. E ainda posso dar mais conforto para minha família”, conclui.

Estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aponta que o Brasil tem mais de 400 mil catadores, e a reciclagem, que hoje movimenta pouco mais de R$ 500 milhões, poderia gerar até R$ 10 bilhões em receitas, se os catadores fossem integralmente formalizados e as políticas governamentais de apoio à atividade fossem cumpridas. Hoje, apenas 10% dos catadores estão, como Everton, organizados em cooperativas e associações.

A oportunidade de Everton surgiu com a parceria entre a Cooper Viva Bem e a Via Varejo – responsável pela administração das marcas Casas Bahia, Pontofrio e Barateiro – que resultou na comercialização de mais de 20 mil toneladas de material reciclável ao longo de três anos e gerou renda para mais de 40 famílias. O programa, batizado de Reviva, foi idealizado e implantado pelo grupo varejista para reciclagem, apoio à logística reversa e destinação ambientalmente adequada dos resíduos sólidos gerados na operação paulista das redes Casas Bahia e Pontofrio.

A Central de Triagem de Resíduos Sólidos (CTRS) da Via Varejo, no Centro de Distribuição (CD) de Jundiaí (SP) – o maior da América Latina – passou a ser gerido pela Cooper Viva Bem. Quase todas as unidades (centros de distribuição, escritórios e lojas) do grupo varejista no estado de São Paulo enviam material reciclável à CTRS. A cooperativa realiza todo o processo até a venda: a separação por tipos (papel, papelão, plásticos etc.) e a prensa do material.

“Além de reduzir os impactos ambientais da operação, a empresa também contribui para a geração de renda, a inclusão social dos cooperados e a promoção do profissionalismo e do conhecimento de resíduos. Estamos contentes com os resultados”, comemora Jay Mil Homens Neto, gerente de Sustentabilidade da Via Varejo, um dos responsáveis pelo Reviva.

A coleta seletiva e a logística reversa administradas pela Via Varejo recuperaram, até meados de 2014, mais de 70 mil toneladas de resí­duos por meio do programa Amigos do Planeta, que tinha sua operação focada na coleta seletiva de materiais recicláveis no Centro de Distribuição. Mas havia muito espaço para evolução no âmbito da sustentabilidade. A partir da vigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2014, a empresa entendeu ser necessário não apenas fornecer viabilidade técnica para a coleta e reciclagem do resíduo gerado, mas também tornar a iniciativa ambiental, social e financeiramente sustentável em escala nacional. Assim foi concebido o Reviva.

Após intensa pesquisa e análise de variados cenários socioeconômicos, chegou-se ao modelo de parceria com uma cooperativa de catadores. Embora desafiadora, a iniciativa abria a possibilidade de impactar socialmente a vida de dezenas de trabalhadores e suas famílias, reduzir custos em até 44% e cobrir os investimentos realizados por meio de um acordo de reembolso da infraestrutura já instalada para triagem, tudo em consonância com as diretrizes e incentivos previstos na PNRS.

As cooperativas de catadores de materiais recicláveis têm, em geral, mais know-how e melhores resultados do que as demais alternativas, além de maior impacto social na divisão dos frutos do trabalho, na organização dos processos produtivos dos materiais recicláveis em diferentes cadeias e na profissionalização e atuação dos catadores. A Cooperativa Cooper Viva Bem foi a escolhida porque conseguia um retorno financeiro em média 10% maior no valor por tonelada, garantindo que a renda média dos seus cooperados não tivesse flutuações.

Um dos desafios do Reviva para chegar a um formato economicamente saudável com a inclusão dos catadores era cobrir as despesas da Via Varejo com a manutenção no galpão. A partir de estimativas, foi fixado um valor de 20% do faturamento mensal da Cooper Viva Bem na operação da Central de Triagem de Resíduos Sólidos, já sublocada à cooperativa, a serem reembolsados para a empresa. Os 80% restantes são destinados para as coberturas das despesas operacionais e para distribuição de ganhos mensais entre os cooperados, além do recolhimento de INSS, décimo terceiro salário e férias. A remuneração dos catadores do Reviva é quase 4,5 vezes maior que o ganho médio desses profissionais no Brasil, de acordo com pesquisa da Giral.

Em quase três anos de operação sob a gestão da Cooper Viva Bem, cerca de mil toneladas de materiais reciclados foram triados na CTRS de Jundiaí, gerando uma receita aproximada de R$ 4 milhões até dezembro de 2017.

Segundo Jay, a ideia era gerar receita em uma cultura inclusiva e de compartilhamento de ganhos e riscos entre empresas e organizações de catadores. “Queríamos um modelo que contribuísse para o fortalecimento das cooperativas de catadores. Então desenvolvemos uma estratégia que não apenas atendesse os requisitos legais da destinação dos resíduos, mas que o fizesse por meio da adoção de um modelo financeiramente inteligente, possibilitando sua expansão para todas as unidades do grupo no país”, afirma.

Foi quando surgiu a ideia de formar uma parceria com as cooperativas instaladas próximas de cada um dos Centros de Distribuição da Via Varejo. Desde então, a tratativa dos materiais coletados é feita prioritariamente com cooperativas de reciclagem, que recebem um acompanhamento mensal da empresa com suportes para dificuldades administrativas e relacionamento com compradores. Hoje, são 242 catadores, em 10 estados, incluídos e capacitados com sucesso na Logística Reversa, preparados para lidar com um cenário corporativo mais complexo e tecnológico.

“O modelo de recuperação de resíduos com a inclusão dos catadores do Reviva alcançou metas e se mostrou financeiramente sustentável no longo prazo, o que foi essencial para a expansão do programa para todo o Brasil”, garante Jay. “Em parte, o sucesso pôde ser explicado pela experiência da Cooper Viva Bem no mercado de reciclagem. Tanto é verdade que houve aumento dos preços de venda por quilo de resíduos obtidos pela cooperativa em comparação com os da Via Varejo antes da entrada no Reviva”, completa.

O incentivo à indústria da reciclagem e a necessária articulação das diferentes esferas sociais, com vistas à cooperação técnica e financeira para gestão integrada de resíduos sólidos em programas como o Reviva, passam pela capacitação das organizações de catadores em diferentes processos administrativos, tecnologias, adaptação à cultura corporativa e desenvolvimento humano de suas lideranças e colaboradores. A estrutura organizacional da cadeia da reciclagem é complexa e exige mecanismos sofisticados para o seu acompanhamento. Assim como o Reviva, é nesse contexto que surge o Reciclab, um laboratório de práticas em reciclagem inclusiva, nascido da identificação do potencial de transformação do sistema de gestão e gerenciamento de resíduos existente nas cooperativas de catadores.

O foco da ação educativa é o empoderamento dos catadores membros da cooperativa para a construção de sua autonomia como cidadãos e agentes fundamentais na reciclagem, um complemento decisivo para o sucesso do programa Reviva e sua continuidade. Cada dimensão, em seus conteúdos específicos, leva em conta isso. A dimensão “Desenvolvimento humano” leva em conta as competências e habilidades necessárias para a plena participação, envolvimento e crescimento pessoal e social. A dimensão “Operacional” busca o desenvolvimento da prática, do aprimoramento dos processos técnicos, com foco na melhoria do rendimento e resultados econômicos. A dimensão “Gestão” olha para os potenciais de aprimoramento dos processos, desde a geração até a correta triagem e comercialização dos resíduos sólidos junto às empresas recicladoras. A dimensão “Políticas Públicas“ traz para a pauta o contexto político e legislativo no qual todos os envolvidos no sistema de gerenciamento e gestão de resíduos sólidos estão inseridos.

“Como se não bastasse a inclusão social, o programa tem a importância de levar às famílias o compromisso com o meio ambiente. O Reviva mostra que esse caminho é mais que possível”, atesta Jay.

O Reviva oferece lições para o mercado nacional. O modelo inédito de aliança entre uma grande empresa e uma cooperativa de reciclagem representa a promoção e a disseminação do respeito aos direitos humanos, da inclusão social e da redução dos impactos ambientais. A meta em longo prazo da Via Varejo é que um dia o programa opere em todo o território nacional, sempre em parceria com cooperativas, e realize a destinação correta de todos os materiais recicláveis enviados pelas lojas Casas Bahia e Pontofrio, prédios administrativos e centros de distribuição do grupo.

Autonomia e empoderamento

Criado pela Giral Desenvolvimento de Projetos com apoio da Via Varejo e da Cooper Viva Bem, o Reciclab – Laboratório de Práticas em Reciclagem Inclusiva forma catadores de materiais recicláveis e contribui para que se apropriem de seu modelo de negócio, impactando no desenvolvimento da autonomia e do empoderamento do indivíduo.

Catadores de riqueza

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a indústria de reciclagem movimenta anualmente US$ 200 bilhões e possui em torno de 1,6 milhão de pessoas nas suas atividades. No entanto, quando se contabiliza o papel dos catadores que trabalham na informalidade, o número pode chegar a 20 milhões de pessoas envolvidas nas diversas etapas de gestão dos resíduos sólidos em todo o mundo. Apenas na América Latina, são 4 milhões de trabalhadores que dependem dos resíduos recicláveis para garantir sua subsistência, segundo a ONU-Habitat.

Um dos exemplos de como é possível fazer da expertise dos catadores uma oportunidade está no estudo que acompanha a proposta para a Coalizão Embalagens, um acordo setorial firmado em 2015 entre o Ministério do Meio Ambiente, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e 21 entidades do setor empresarial, entre produtores, importadores, consumidores e comerciantes. Segundo a pesquisa, o direcionamento de investimentos empresariais deve resultar na absorção de mais 14,7 mil catadores em atividade nas cooperativas que receberão apoio empresarial até o começo da próxima década. Com o consequente aumento da produtividade e da renda, inclusive como resultado da venda direta dos materiais para os recicladores, é previsto um crescimento de ganhos entre 40% e 135% nas receitas das cooperativas.

Dado esse potencial e a participação significativa na triagem e destinação adequada dos resíduos sólidos, além de sua experiência no mercado de reciclagem, a inclusão dos catadores e das cooperativas nos processos de logística reversa das empresas é contemplada também no marco regulatório da PNRS. Mais do que uma premissa para a inclusão, a lei abre uma oportunidade para que grupos privados diversos da economia se beneficiem de um

know-how adquirido com anos de prática em um serviço ambiental essencial e profissionalizem suas cadeias de valor nesse sentido.

Inteligência logística

A Via Varejo, que pertence ao GPA, é responsável pela administração
das lojas físicas e do e-commerce das marcas Casas Bahia e Pontofrio, além dos sites do Extra e Barateiro. A empresa, que tem sede administrativa no município de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo (SP), posiciona-se
como uma das maiores varejistas de eletroeletrônicos do mundo e conta com cerca de 50 mil colaboradores em todo o país. A empresa está presente em mais de 400 municípios brasileiros, 20 estados e no Distrito Federal, com cerca de 1 mil lojas físicas.

Para dar suporte à demanda cada vez maior de lojas e clientes, a empresa mantém uma rede inteligente de logística, com 26 Centros de Distribuição e Entrepostos localizados em regiões estratégicas do país, com área de armazenagem superior a 10 milhões de m2. Toda essa infraestrutura suporta uma média mensal de 1 milhão de entregas, realizadas por uma frota superior a 3 mil equipamentos, entre próprios e terceirizados.

Em 2017, a receita líquida da Via Varejo alcançou a marca de R$ 25,6 bilhões, além de lucro líquido de R$ 195 milhões no mesmo período.
A companhia possui capital aberto na BM&FBovespa desde 2013.

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