Ir para o Topo

30 de julho de 2018

A voluntária da cidadania

A ex-secretária executiva Maria Elena Pereira Johannpeter conhece os dois lados da moeda social. Da origem traz o Pereira, de família humilde de Gravataí, cidade perto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Do marido, o empresário Jorge Gerdau, um dos mais bem-sucedidos do país, acrescentou o sobrenome alemão e uma vida de prosperidade. A combinação tem algo de alquímico e deve ter influenciado para que, em 1996, ao se aposentar, Maria Elena criasse a Parceiros Voluntários, uma ONG que, patrocinada por grandes empresas, recruta voluntários para as Organizações Sociais. Não deixa de ser algo como receber dos ricos para distribuir aos pobres.

A Parceiros Voluntários é uma ONG que movimenta alguns milhões de reais por ano e mobiliza no Rio Grande do Sul mais de 470 mil voluntários em 21 cidades, impactando cerca de 7 milhões de pessoas. São 2,4 mil organizações sociais conveniadas e 2,6 mil empresas engajadas à causa. Em 2003 a instituição criou a Tecnologia Social – certificada pela Fundação Banco do Brasil – Tribos nas Trilhas da Cidadania, maior movimento de voluntariado jovem do Brasil, formado por milhares de estudantes da rede escolar pública e privada do Rio Grande do Sul, que se dedicam a empreender soluções para os desafios existentes em suas comunidades. Nesta entrevista Maria Elena fala de voluntariado, cidadania e do papel das empresas na questão social. “A Responsabilidade Social valoriza a marca e o marketing das empresas”, diz. “Não é um almoço grátis”.

NÓS: Como nasceu a Parceiros Voluntários?

Maria Elena Pereira Johannpeter: Eu conheci, no exterior, muitos programas de voluntariado, como ocorre no Chile, Holanda, Estados Unidos, e alguns de governo como o da Espanha. Passei a pesquisar aqui no Brasil alguns projetos que utilizavam voluntariado e estudar sobre mobilização social. Decidi então implementar um programa de voluntariado em Porto Alegre, que se estendeu depois para cidades próximas. No início trabalhávamos só com voluntariado. Depois passamos também a capacitar as organizações sociais e, finalmente, trabalhar com as escolas. Foi uma caminhada de 21 anos. Nossa primeira visão foi desenvolver uma cultura de trabalho voluntário organizado. Trabalho voluntário existe desde o descobrimento o Brasil. Mas nós acrescentamos a palavra organizado, que significa comprometimento dentro de uma metodologia própria, em que o voluntário se compromete em um dia da semana, no mesmo horário e na mesma instituição, para desenvolver a atividade que escolheu.

Como conseguiu patrocinadores para a sua causa?

Em 1996, quando estava formatando o programa, procurei algumas empresas, que até hoje são nossas fundadoras e mantenedoras, para mostrar a ideia. E todas entenderam perfeitamente e concordaram que o Brasil precisava de um programa de voluntariado forte, como já existia em outros países. Temos uma faixa de patrocínio que é das mantenedoras e fundadoras e há um nível de empresas apoiadoras, que entram com recursos, expertises, serviços ou produtos. Temos entre apoiadores, por exemplo, empresas de comunicação e de tecnologia.

O que é voluntariado organizado?
Voluntariado organizado é muito diferente do voluntarismo. O volun­tarismo é o desejo da pessoa e não do necessitado. O voluntarista decide quando, onde e como quer ajudar, mas só quando tiver vontade. Num dia nublado e chuvoso ele imagina ir para um asilo e ficar algumas horas tomando um chazinho com os velhinhos. E numa tarde ensolarada talvez prefira ir para uma creche brincar com as crianças. Outro dia decide que quer ficar em casa. Isso é voluntarismo. Pergunto: isso ajuda ou atrapalha o trabalho dessa organização social a qual a pessoa vai de vez em quando? Atrapalha, claro, pois a organização nunca sabe quando vai contar com a pessoa. Ao atrapalhar, desrespeita o público interno dessa organização, com o qual mal ou bem cria vínculos, sem levar em conta os sentimentos das pessoas.

Como comprometer um voluntário se ele exerce trabalho não remunerado?

Depende do propósito de cada pessoa. Quando ela entende a responsabilidade do trabalho voluntário, que está de acordo com as necessidades das pessoas que estão na organização, o voluntário sai do desejo pessoal e passa a olhar para o outro, no que pode contribuir para aquela organização, com a sua experiência, o seu know-how. Percebe que é só um turno por semana, algumas horas, e se sente comprometido e o quanto aquela atividade serve para o seu autodesenvolvimento, formando novas relações, conhecendo novas realidades, tratando com temas diferentes. É quando percebe que é um ganha-ganha para todos: a organização, o voluntário os beneficiados e a sociedade como um todo.

Há alguma medida para mensurar o quanto o voluntariado representa em ternos financeiros?

Nós fizemos uma fórmula simples para medir essa participação dos nossos 188 mil voluntários, considerando um valor de R$ 20 por hora trabalhada, que, convenhamos, é bem baixo, ainda mais se considerarmos a média na qual estão incluídos profissionais bem remunerados. Pois bem, esse contingente despende mais de 36 mil horas anuais em projetos sociais, o que equivale, em valores, pelas contas que fizemos, a mais de R$ 720 milhões anuais. Não é pouca coisa, o que prova que essas pessoas, além de entregar gratuitamente para a sociedade suas emoções, boa vontade e disposição, estão entregando efetiva força de trabalho, que tem um lado econômico.

Como é a metodologia para recrutar voluntários?

Primeiro é feito um cadastro do candidato através do site. Ele escolhe o dia em que vai participar de uma das Reuniões de Conscientização (RC). É o primeiro passo para se tornar voluntário. As RCs servem para que o pretendente entenda a responsabilidade e o comprometimento em ser voluntário. Ao aceitar essas condições ele preenche um cadastro e volta outro dia para a Reunião de Encaminhamento. Aí ele vai escolher, com base em nosso banco de dados, a organização e o trabalho com o qual se identifica e de acordo com a sua formação e experiência. Na verdade, somos um banco de dados que reúne as vontades dos voluntários e as necessidades das organizações.

Quantas pessoas estão cadastradas na Parceiros Voluntários?

Nestes 21 anos de existência, já passaram pela rede dos Parceiros Voluntários mais de 470 mil pessoas, que participaram das atividades ou escolheram fazer o voluntariado por conta própria. Estamos presentes em 21 cidades do Rio Grande do Sul e há seis meses abrimos uma unidade em São Paulo, nos moldes que temos aqui em Porto Alegre, para que seja dinamizadora desse nosso programa para todo o Brasil.

Como é o cadastramento das Organizações credenciadas?

Temos mais de 2.400 organizações cadastradas, e elas também são submetidas a um processo de triagem que as habilita a receber voluntários. Nossos representantes fazem uma visita às instituições e, uma vez aprovadas, elas são inseridas no banco de dados para começar a receber voluntários. Em contrapartida, a organização deve enviar um coordenador de voluntários, alguém com experiência, para participar do nosso curso de Coordenação de Voluntários, que dura 16 horas e ensina a administrar o voluntariado dentro da sua organização.

A Parceiros é uma prestadora de serviços para as ONGs?

Temos nossa área de consultoria, que transmite conhecimentos para a gestão dessas organizações, de forma a atuarem com transparência, captar voluntários, gerir e captar os recursos. Esse é um trabalho ainda gratuito, que nos permitimos oferecer a partir de recursos que captamos junto aos nossos patrocinadores. Mas estamos reformulando o modelo para prestar esse serviço de uma forma tal que as organizações contribuam com o valor do curso, talvez não integralmente, mas com cerca de 70%.

Além de atuar junto às ONGs e voluntários, a Parceiros também atua diretamente em programas de ação social?

Sim, temos um programa chamado Valores na Educação. Nesse programa trabalhamos junto às escolas, sendo que 80% são públicas, em que oferecemos desde a educação infantil ao ensino médio. Nós ajudamos as escolas a atingir os requisitos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Um dos movimentos desse programa prevê fazer com que as crianças sejam protagonistas em ações nas suas comunidades. Chamamos esse programa de nossa caderneta de poupança, pois estamos investindo hoje nessas crianças de cinco anos até os jovens de 20 anos para que, ao chegarem à universidade, no mercado de trabalho ou no governo, tenham absorvido os valores da cidadania e da responsabilidade social.

Que tipo de trabalho é mais demandado pelos voluntários?

É muito variado. As pessoas procuram muito trabalhar com crianças, mas há também aqueles que preferem atuar internamente, na gestão da organização, em capacitação de recursos, contabilidade, auditoria, atendimento, cozinha. Mas o voluntário pode trabalhar diretamente com o público da organização. Se trabalhar com crianças vai ler contos, fazer brincadeiras, ensinar, ajudar nos deveres de casa, cuidar de bebês no berçário, há um sem-número de atividades.

Qual o objetivo, a missão da Parceiros Voluntários?

Educação para a cidadania.

Isso pode ser traduzido também como inclusão social?

Não, não é inclusão social. É a noção de que todos nós, como cidadãos, temos direitos e deveres com o nosso país ou com a nossas comunidades. Não é só pagar impostos ou votar nas eleições. Ser cidadão, muito mais do que isso, é estar atento às questões da sua comunidade. É claro que se fôssemos uma sociedade rica não precisaríamos de uma Parceiros Voluntários. Mas como somos um país como muitas mazelas, muitas necessidades, se cada um fizer um pouco de investimento social, haverá uma melhoria substancial na sociedade. A nossa missão, na verdade, é ajudar a construir uma sociedade de desenvolvimento sustentável, tendo por base pessoas éticas e participativas. Em outras palavras, isso quer dizer que pretendemos uma educação para a cidadania, para todos os 200 milhões de brasileiros.

O trabalho então não é voltado apenas para pessoas carentes?

Eu não preciso falar de populações carentes, pois quando, na condição de voluntário, eu faço o meu autodesenvolvimento, eu estou suprindo uma carência da minha formação. Não gosto de usar a palavra carente, pois no fundo me pergunto: o que é ser carente? Pode haver carência mesmo dentro de uma família abastada, por exemplo, um carente emocional, carente de cidadania.

Qual então o papel das ONGs na solução das mazelas sociais brasileiras? Elas estão substituindo o Estado nesse quesito?
Primeiro, eu não vejo o terceiro setor como um tapa-furo de governo, mas como um ator do desenvolvimento humano e social. E como diz o Robert Putnam, o desenvolvimento humano é o capital social de uma nação. E o básico nisso é o grau de cooperação e de confiança que uma sociedade tem, entre seus governantes, empresas e cidadãos. E me pergunto, como está o capital social do nosso país?

E como está o capital social do Brasil?
Está muito frágil. Ninguém confia em ninguém. E, ao não confiarmos uns nos outros, a cooperação também fica precária.

Com 470 mil voluntários cadastrados, ainda assim falta solidariedade ao brasileiro?
Não falta, e isso é o mais interessante: o brasileiro é supersolidário. Mas não o é por inciativa, mas somente quando é solicitado. Nesse caso atende todas as solicitações, seja de doação de sangue, alimentos, ajuda em catástrofes. Todo mundo se mobiliza. Mas isso não se reflete em atitude diária, que não se refere à doação de coisas materiais. Estou falando em doar cidadania, de colaboração mútua, de colaborar com informações, no desenvolvimento coletivo. Nisso tudo somos bem precários.

E as empresas são solidárias?
As empresas já perceberam que trabalhar a responsabilidade social empresarial é muito mais do que atuar em projetos sociais. Que agindo de forma sustentável serão recompensadas pelo valor agregador à sua marca e com o valor competitivo de mercado, com retorno inclusive financeiro. Os clientes, empregados e fornecedores querem interagir com empresas que sejam transparentes, éticas, que não poluam o ambiente.

Então não se está falando aqui de filantropia, benemerência?
Absolutamente. Não existe almoço grátis.

Mas, no caso de empresas que exploram os recursos naturais, não teriam a obrigação de devolver socialmente o que tiraram?
Não gosto desta palavra: obrigação. Ora, obrigação é aquilo que é obrigado, que está na letra da lei. Por isso considero que uma responsabilidade moral e ética é bem maior do que uma obrigação legal, que prevê punição no caso de não cumprimento. Mas uma responsabilidade social e ética está dentro dos valores de uma empresa, e nesse caso há uma contribuição ao desenvolvimento sustentável como um todo.

Leia também

17 de setembro de 2019

ABA desenvolve competências socioemocionais em crianças em situação de vulnerabilidade social

Desde 2012, a Associação Beneficente dos Funcionários do Grupo Allianz Seguros (ABA) vem mudando a realidade da Comunidade Santa Rita, na Zona Leste de São Paulo, com um programa de atividades socioeducativas que ensina crianças e adolescentes a lidar com conflitos e emoções. Na Comunidade Santa Rita, na Zona Leste da capital paulista, as casas […]

3 de setembro de 2019

Multinacional americana IBM dedica 1,3 milhão de horas a trabalho voluntário

A gigante de tecnologia IBM lançou no Brasil, na semana passada, a IBM.org, plataforma que conecta funcionários ativos e aposentados a iniciativas de impacto social. O programa de voluntariado é apenas uma entre muitas iniciativas mantidas pela empresa para levar inovação, conhecimento e dedicação ao sucesso de organizações que constroem comunidades mais fortes em todo […]

19 de agosto de 2019

Projetos da FBB impactam a vida de 130 mil pessoas em todas as regiões do país em 2018

Ações apoiadas e desenvolvidas pela Fundação Banco do Brasil reforçam compromisso da instituição de valorizar vidas para transformar realidades; projetos socioambientais estão alinhados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas. A designer Luiana da Silva, moradora de uma favela no Rio de Janeiro, está fazendo cursos de capacitação em […]

© Revista Nós - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e imagens sem prévia autorização.