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30 de agosto de 2017

Acordos cooperativos na solução dos problemas sociais

Sejamos francos, o poder público no Brasil, com raras exceções, não consegue entregar com eficiência os serviços básicos à população. E dê-lhe impostos. Tomem-se áreas de Saúde e Educação, que em muitos estados e municípios brasileiros estão defasadas, quando não em colapso. É nesse vazio de competência que estão despontando as parcerias dos governos com consultorias especializadas em gestão pública e soluções mistas envolvendo empresas e Organizações Sociais. O Instituto Tellus é um desses casos. Fundada em 2010 com o propósito de trazer a inovação em serviços públicos no Brasil, com apoio de empresas privadas, a ONG vem atuando em projetos com forte impacto social.

O Área 21 – Laboratório de Criatividade, que acaba de sair do forno de Inovação do Tellus, é um exemplo típico de projeto de capacitação que, pela sua natureza de vanguarda, o Estado não teria como protagonizar por sua própria conta. Lançado em maio último e voltado para jovens do Ensino Médio das escolas públicas, o Área 21 trabalha com a aprendizagem aliada à alta tecnologia. A meta é em seis meses capacitar 260 estudantes do Instituto Ana Rosa, localizado na Vila Sonia, em São Paulo.

O Laboratório de Criatividade inclui oficinas interativas para os experimentos e, além dos estudantes, conta com a participação dos professores e gestores do Ana Rosa. O parceiro técnico do projeto é a WeFab, consultoria especializada em conectar as empresas aos makers – como são chamados os adeptos do movimento que tem na sua base a cultura do “faça você mesmo” e de que pessoas comuns podem construir, consertar e inovar.

Para a realização do Área 21, o Instituto Ana Rosa foi equipado com aparelhos de ponta, doados pela Samsung, como a câmera Gear 360, o smartphone Galaxy S7 e os óculos de realidade virtual Gear VR, além de computadores e tablets. Após o término do curso, todo o equipamento ficará no Ana Rosa para utilização da comunidade.

O Área 21 confirma a tendência mundial de envolvimento do tripé ONGS-Estado-empresas na viabilização de projetos com impacto social. Países mais desenvolvidos, como Inglaterra, Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, Estados Unidos e Holanda, estão a um passo além e já adotam os Social Impact Bonds ou Contratos de Impacto Social (CIS), na tradução. Os CIS são títulos que, aplicados em programas sociais, oferecem a possibilidade de retorno do capital, mas o risco deixa de ser do contribuinte e passa para o investidor.

No caso do Área 21, o Tellus é a ponta do terceiro setor no tripé que inclui ainda os setores público e privado na ação social. Financiado via Lei de Incentivo Fiscal, o projeto tem o apoio da Fundação Telefônica, da Samsung, do escritório de advocacia Matos Filho, do Governo do Estado de São Paulo e a bênção do Conselho Estadual dos Direitos da Criança. “O Área 21 é uma nova agenda de assistência e desenvolvimento social em que o objetivo é trabalhar as competências do século XXI com jovens em alta vulnerabilidade social para afastá-los do caminho de risco e capacitá-los para o mercado de trabalho”, explica Germano Guimarães, cofundador e diretor do Tellus.

No laboratório, os estudantes desenvolvem a criatividade, resiliência, trabalho em equipe, colaboração e fluência digital. Ao longo do curso recebem alguns desafios e tem como tarefa transformá-los em um negócio ou um projeto social. “O objetivo é que sejam protagonistas do seu futuro e mostrem que podem criar”, explica Guimarães. Os alunos aprendem, por exemplo, a desenvolver ideias e projetos a partir de uma impressão 3D, uma impressora a laser e modelos de robótica.

Organização sem fins lucrativos, o Instituto Tellus tem projetos em 42 municípios de 12 estados nas áreas de educação, saúde e assistência social. Só no ano passado, pelas suas contas, os serviços gerenciados pelo Ellus impactou 630 mil pessoas. “Trabalhamos com o setor público por que acreditamos na capacidade de os governos, se bem capacitados, gerarem impacto positivo na vida dos cidadãos”, diz Guimarães.

Para engajar os cidadãos, gestores e servidores na execução de políticas públicas, o Tellus desenvolveu uma metodologia a partir de premissas elaboradas na experiência com o setor público. Também contou a influência do design thinking, da IDEO e da Teoria U, desenvolvida pelos professores Peter Senge e Otto Scharmer da universidade americana MIT. “Toda a metodologia Tellus trabalha com princípio de cocriação, não temos solução de prateleira”, explica Guimarães.

A tecnologia aliada à educação está presente na maioria dos projetos do Tellus. O Smart School, realizado em parceria com a Samsung e a Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo, foi implementado em 2016 em cinco escolas estaduais da capital. Com duração de um ano, aliou inovação pedagógica com tecnologia. O Lê no Ninho, outro projeto da área de educação, tem como objetivo desenvolver o gosto pela leitura em crianças de seis meses a quatro anos. Durante 45 minutos as crianças ouvem histórias, brincam e cantam em bibliotecas equipadas com dispositivos digitais, como TVs, tablets, chromecast e notebooks. O programa foi implementado em parceria com a SPLeituras em dez bibliotecas de São Paulo. “O que fazemos é ajudar a melhorar a qualidade dos serviços públicos no Brasil em educação, saúde, cultura, turismo e desenvolvimento social.

OS bonds da liberdade

Até 2010, 63 em cada 100 ex-detentos do Reino Unido, de um universo de 60 mil condenados por ano, depois de soltos voltavam a cometer crimes. O custo para o governo britânico chegava a 20 bilhões de dólares por ano. A Social Finance, uma instituição inglesa, captou, por meio de social impact bonds, US$ 8 milhões junto a 17 fundações filantrópicas. Com o dinheiro, ela contratou quatro ONGs para fazer um trabalho de reinserção social de 1.080 ex-detentos de uma prisão de Peterborough, incluindo capacitação profissional e psicológica.

Estão feitas as apostas. A estimativa é que se a queda total na reincidência dos ex-detentos incluídos no programa for de pelo menos 7,5%, as fundações não só receberão de volta os US$ 8 milhões como também ganharão uma bonificação, que, dependendo do resultado, poderá variar de 2,5% a 13% anuais. Mas se as metas não forem alcançadas, os investidores perderão todo o dinheiro investido. Se der certo, pode ser a comprovação de que investimento social e ganho financeiro não são incompatíveis e nem excludentes entre si.

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