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20 de dezembro de 2016

Escola de graça e para todos

Uma escola para todos, com pobres e ricos dividindo o mesmo espaço, era o sonho do empresário do ramo metalúrgico Salvador Arena, falecido em 1998. Hoje, é a pura realidade para os 2.400 alunos do Centro Educacional da Fundação Salvador Arena (CEFSA), uma instituição de ensino básico e superior gratuito localizado em São Bernardo do Campo, região da Grande São Paulo. Lá, onde metade dos alunos matriculados é de famílias com renda de até 1,5 salário mínimo, não há uns mais iguais que outros, como ironizava George Orwel. Todos comem da mesma comida ou lanche, estudam com os mesmos professores e têm os mesmos direitos e deveres.

O CEFSA é o braço educacional e o carro-chefe dos projetos sociais da Fundação Salvador Arena, instituição criada em 1964, que atua ainda nas áreas de saúde, habitação e assistência social. Com dezenas de laboratórios, rede de bibliotecas interativas, ginásios e quadras poliesportivas, conjunto aquático, campo de futebol, pista olímpica, estação agroambiental e um teatro com capacidade para 600 pessoas, o complexo educacional ocupa uma área verde de mais de 131 mil metros quadrados. “O processo escolar tem como objetivo formar um cidadão para transformar a sociedade com o seu trabalho e sua atitude”, explica a diretora Pedagógica do CEFSA, Cristina Favaron, repetindo uma máxima que deveria nortear qualquer escola de qualidade.

No CEFSA ninguém paga nada, nem material escolar, mas a condição para permanecer na escola, além de passar de ano, é cumprir à risca a rotina da escola, que é rígida. A direção não abre mão de horários, uniforme e muita disciplina. Contudo, os alunos devem achar que vale a pena, tal a procura por vagas. No último processo seletivo do ensino fundamental, a disputa chegou a 393 candidatos por vaga, enquanto que no curso de Engenharia de Controle e Automação foi de 16 candidatos por vaga. Para os cursos que iniciaram em janeiro de 2016, da educação básica e do ensino superior, o CEFSA recebeu 23.225 inscrições. Deste total, 20.981 foram para educação básica, no Colégio Termomecânica, e 2.244 para o ensino superior, na Faculdade de Tecnologia Termomecânica. “A grande procura deve-se ao nosso diferencial de ensino, focado nos conteúdos, mas orientado também para a formação humanística”, diz a educadora.

O gasto na formação escolar dos alunos demonstra que o bom ensino não é barato. Entre 2000 e 2015, o CEFSA consumiu recursos da ordem de R$ 440 milhões. O investimento anual por aluno, de mais de R$ 22 mil, passa ao largo do investimento per capita que o Brasil dedica à Educação. O volume é semelhante ao orçamento gasto por governos da Alemanha, Japão e Reino Unido com seus alunos, segundo o relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em 2015.

O modelo educacional aplicado no Centro desde 1989, baseado em ensino intensivo e abrangente, que também prioriza a formação humanista, chegou, na época, a ser oferecido para ser adotado em escolas públicas, mas foi recusado pelas autoridades. Na educação básica, por meio do Colégio Termomecânica – CTM, o CEFSA oferece os cursos de educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e ensino técnico (curso de metalurgia). A matriz curricular inclui ainda aulas práticas de agricultura, educação financeira, robótica, informática, idiomas, cerâmica, modelismo, teatro e música. Desde a educação infantil até o ensino médio, os alunos têm também aulas de filosofia, disciplina que há muito desapareceu dos currículos das escolas convencionais.

No ensino superior, por meio da Faculdade de Tecnologia Termomecânica – FTT, são oferecidos os cursos de Administração, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Computação e Engenharia de Controle e Automação. Com investimento anual de mais de R$ 26 mil por aluno e parcerias com mais de 140 empresas e agentes de integração de estágios, a instituição mantém índice de 96% de empregabilidade. Entre 2002 e 2015, a FTT preparou mais de 2 mil para o mercado de trabalho.

A Fundação que é a dona do negócio

Pouco antes de falecer, em 1998, sem filhos nem herdeiros, o libanês Salvador Arena doou à Fundação que leva seu nome todo o patrimônio que amealhou na vida. Na lista, que incluía imóveis e valiosos bens pessoais, estava também a Termomecânica, seu principal negócio. Líder no setor de não ferrosos, com unidades no Chile e na Argentina, a empresa tem faturamento superior a R$ 1,2 bilhão e patrimônio líquido estimado em mais de R$ 800 milhões. Com a decisão, promoveu uma lógica inversa na cartilha dos valores empresariais: ao invés de a empresa controlar a Fundação e decidir sobre os recursos que destinará a projetos sociais, é a Fundação, poderosa, que decide sobre os destinos do negócio. O conselho curador da instituição tem a responsabilidade de administrar os bens, manter e ampliar os projetos.

Nos últimos 15 anos a Fundação investiu mais de R$ 500 milhões em gratuidades. Só no ano passado, mais de 60 mil pessoas foram beneficiadas direta e indiretamente. Reconhecida pelo modelo inovador de gestão, a Fundação Salvador Arena foi a primeira instituição filantrópica do Brasil a conquistar a Certificação ISO 9001. Em 2014, recebeu medalha de ouro no Prêmio Paulista de Qualidade da Gestão, premiação concedida às melhores organizações públicas e privadas do estado de São Paulo, na área de gestão.

Se na educação a Fundação administra um projeto próprio, nas outras áreas o faz por meio de projetos com parceiros, geralmente Organizações Sociais (OS). Parece simples: a Fundação entra com recursos financeiros, assistência técnica e conhecimento em gestão, e as OS executam, uma vez que se entende serem elas que detêm os acessos, conhecem as necessidades dos públicos e dominam a expertise do negócio social. Complica um pouco na hora de selecionar os parceiros. Nos editais para seleção dos projetos a serem financiados, exige-se dos candidatos orçamento detalhado, objetivos, cronograma, metas, indicadores para mensuração de resultados e, claro, prestação de contas. A subvenção financeira dura no máximo três anos. Paralelamente, a Fundação municia as ONGs com cursos de gestão para viabilização de projetos e captação de recursos. “Costumamos dizer que não apoiamos as ONGs, mas as suas causas”, diz o gerente de Projetos Sociais da Fundação Salvador Arena, Sérgio Loyola.

A Fundação mantém, no momento, projetos em parceria com cerca de 100 ONGs, que atuam em cidades do ABC paulista, na capital e na Baixada Santista. Muitas das iniciativas contemplam instituições beneficentes de saúde, como o Hospital Santa Marcelina, o Hospital São Paulo e a Santa Casa de Misericórdia São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais. Em outra frente, a instituição está atuando na revitalização de habitações em favelas, como a construção de um conjunto habitacional em São Bernardo do Campo. A nova vila, com projeto arquitetônico moderno, foi rebatizada pela própria comunidade. O nome? Vila Salvador Arena, claro.

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