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Turma da capoeira da Unidos de Vila Maria faz apresentação na quadra da escola (Fotos: Divulgação)

Turma da capoeira da Unidos de Vila Maria faz apresentação na quadra da escola (Fotos: Divulgação)

13 de fevereiro de 2020

Escola de Samba da Zona Norte de São Paulo leva saúde, esporte e educação para comunidades carentes

Projeto social da Unidos de Vila Maria oferece mais de 30 atividades inclusivas gratuitas a moradores da região em situação de vulnerabilidade social. Uma das atividades é a equoterapia, que auxilia no tratamento de deficiências neurológicas, físicas, cognitivas e comportamentais, sendo referência na cidade.

Por Gisele Ribeiro

Miguel Pelizari Tenório, 9, tem leocomalácia, uma lesão na massa branca do cérebro que compromete o sistema motor e provoca atrasos de desenvolvimento. Para ter qualidade de vida e alguma autonomia, desde bebê ele faz diversas terapias diferenciadas. Há três meses, começou a equoterapia, um método de tratamento que auxilia na reabilitação física e mental de pessoas com deficiência neurológica, física, cognitiva e/ou comportamental e que utiliza o cavalo para estimular o desenvolvimento neuropsicomotor do paciente. “O Miguel faz várias terapias, mas desde que começou com a equoterapia evoluiu bastante”, conta Claudio da Silva Tenório, pai do menino. “Ele está bem mais solto, interagindo mais com os colegas, bem mais animado e mais disciplinado. É uma terapia mais completa”.

Miguel Pelisário na aula de equoterapia (Divulgação)

Miguel é um dos 74 pacientes atendidos pelo Centro de Equoterapia da Vila Maria, um dos poucos locais da capital paulista que oferecem esse tratamento gratuitamente. Criado há 11 anos, o Centro de Equoterapia é um dos mais de 30 projetos sociais mantidos integralmente pelo Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Unidos de Vila Maria para atender pessoas em situação de vulnerabilidade social, sejam elas das comunidades do entorno da escola, na Zona Norte, sejam elas de outros bairros da cidade. “Aqui recebemos praticantes de todos os lugares, encaminhados pelo serviço público de saúde”, diz a psicóloga Rosilei da Silva Andrade, coordenadora do programa de equoterapia.

Dos 74 praticantes com 24 tipos de diagnósticos atendidos atualmente, 42 são autistas com síndromes associadas, 18 estão se recuperando de AVCs (Acidente Vascular Cerebral) e 14 têm outros tipos de dificuldades motoras ou cognitivas. O Centro atende pessoas a partir dos 2 anos de idade, e as atividades das sessões de terapia são elaboradas de acordo com as necessidades de cada praticante, indicadas no processo de triagem que é feito pelo assistente social Jefferson Eloy, o Nilo. “O paciente chega aqui com a indicação do médico do serviço público de que ele está apto a praticar a equoterapia”, diz Rosilei. “Nós, então, pedimos uma série de exames de acordo com a patologia, e os resultados nos orientam na hora de montar o programa de tratamento.”

Centro de Equoterapia da Vila Maria atende 74 pessoas com 24 tipos de diagnósticos (Divulgação)

O Centro conta com uma equipe mínima completa, que garante atendimento de qualidade: são duas psicólogas (Rosilei e Thalita Cristina da Silva), uma fisioterapeuta (Beibiane Elias Amorim de Sá), uma condutora do animal (Isabele da Silva Mendonça) e um equitador (Cledson Rodrigues da Silva). Outros quatro voluntários, entre médicos, fisiatras e tratadores integram o time. Com os resultados dos exames médicos em mãos, a equipe define o cavalo que cada praticante vai montar, as atividades que serão feitas sobre o cavalo ou em solo, o nível de autonomia do praticante, que pode ir montado sozinho ou acompanhado, e o tipo de encilhamento (sela ou manta). A escolha do cavalo – treinado especialmente para esse tipo de terapia – leva em consideração a altura e a passada do animal, as características do praticante e a necessidade a ser trabalhada no momento.

A escola tem, atualmente, cinco cavalos, mas capacidade para dez. As sessões são semanais, com duração de 30 minutos, e cada praticante é acompanhado por dois terapeutas e um condutor. Dependendo da evolução, o praticante é enquadrado em um dos quatro programas da terapia. Sessenta pacientes estão nos 1º e 2º programas, que são voltados para aqueles que mais precisam da terapia. Catorze estão nos 3º e 4º programas, pré-esportivos, que são para os pacientes que já atingiram mais autonomia. Dois autistas integrantes desses programas já participam de competições esportivas. “Ver um paciente que chegou aqui totalmente dependente de cadeira de rodas terminar os programas andando de muletas é gratificante e só nos mostra o quanto a equoterapia é benéfica”, diz Rosilei.

Devido à grande procura, o ciclo de equoterapia dura apenas um ano. Após esse período, os praticantes são encaminhados a outras atividades inclusivas oferecidas pela escola de samba, como fisioterapia, caratê e musicalização. “Quando o ciclo de cada um está terminando, nós avaliamos que outras atividades oferecidas pela escola poderiam ajudar na continuidade do tratamento até que o praticante possa retornar para a terapia com os cavalos”, conta Rosilei. “Geralmente, o intervalo entre os ciclos fica em torno de um ano e meio”. Somente em 2019, o programa de equoterapia da Unidos de Vila Maria realizou 4.224 atendimentos, com média mensal de 380.

Um caso de amor

O Centro de Equoterapia faz parte do “Projeto Social Vila Maria um Caso de Amor”, que realiza 150 atendimentos anuais e desenvolve atividades inclusivas gratuitas para a comunidade nas áreas de:

Os projetos sociais que beneficiam cerca de 16 mil pessoas por ano são mantidos com recursos próprios da escola, obtidos por meio das vendas de ingressos dos eventos relacionados ao Carnaval e de produtos da lojinha e de doações de diretores da agremiação e empresas da região. Com esses recursos, a Unidos de Vila Maria paga médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, professores e demais profissionais envolvidos nas atividades. “Ainda contamos com a ajuda de voluntários em várias das atividades”, acrescenta Nilo, o assistente social que coordena os projetos sociais e faz a triagem dos participantes das atividades.

Curso profissionalizante de tranças, que possibilita renda extra para as famílias

Nilo conta que a ideia inicial da escola, ao promover ações sociais, era tirar crianças e adolescentes da rua e fortalecer os vínculos familiares e comunitários, oferecendo atividades apenas para as comunidades em situação de vulnerabilidade social dos bairros de Vila Maria, Vila Sabrina, Vila Medeiros e Parque Novo Mundo, que estão no entorno da quadra da escola, no Jardim Japão. A região é carente de centros que promovam a cultura, a educação, a saúde, o esporte, o lazer e o bem-estar dos moradores. Faltam árvores, parques, piscinas públicas, bibliotecas, quadras esportivas, praças preservadas e com equipamento esportivo e de lazer mínimos – apenas 1,2% dos equipamentos culturais públicos existentes na cidade atendem à população desses bairros, segundo a subprefeitura local.

Fundada na década de 50, a escola foi ganhando o coração da população da região ano a ano, com um desfile de seu bloco de Carnaval pelas ruas dos bairros. Moradores aguardavam nas calçadas, janelas e portões a passagem do grupo e, não raro, iam engrossando o cordão ao longo do roteiro.

Quando a Unidos de Vila Maria cresceu e se profissionalizou, virando uma empresa, a diretoria incluiu em seu estatuto o compromisso de promover ações sociais gratuitas para a população de baixo poder aquisitivo, contribuindo para o seu desenvolvimento moral e intelectual e devolvendo o amor que a comunidade tem pela agremiação.  Isso foi há 18 anos.

Sob o lema “Samba e Responsabilidade Social de Mãos Dadas”, a Unidos de Vila Maria passou a oferecer atividades como escolinha de futebol, musicalização e alguns cursos profissionalizantes, todos nas dependências de sua quadra, hoje um complexo bem estruturado, localizado próximo às rodovias federais Presidente Dutra e Fernão Dias, e com fácil acesso à Marginal Tietê e a estações de metrô. A quadra ocupa uma área de 5 mil m2, e suas instalações incluem vários anexos, camarotes, camarins, cinco bares, salas para atividades diversas, campo de futebol, espaço para equoterapia, estábulo, galpão para a produção de carros alegóricos e fantasias e uma loja de artigos oficiais da escola, cuja receita subsidia os projetos sociais da escola.

Comunidade do entorno da escola tem atendimento odontológico gratuito (Divulgação)

À medida que a popularidade da Unidos de Vila Maria foi crescendo, a procura pelas atividades gratuitas do local também aumentou, e o projeto social passou a se chamar “Vila Maria um Caso de Amor” e a receber pessoas de todos os lugares da cidade. A principal missão: “proporcionar atividades no espaço cultural, a fim de atender crianças, adolescentes, adultos e idosos em situação de vulnerabilidade social e pessoas com deficiência ou necessidades especiais, promovendo inclusão cultural e auxiliando o desenvolvimento social, profissional e emocional, ampliando assim a qualidade de vida”. Para participar de uma ou mais atividades, entre as mais de 30 oferecidas pela escola, é preciso passar pela assistência social.

Inclusão cultural e social

Para saber em qual atividade a pessoa pode ser incluída, o assistente social Nilo faz uma primeira entrevista com a família, chamada de entrevista social, para identificar problemas, necessidades e terapias que podem ser adotadas. A entrevista é feita com os interessados em participar de quaisquer atividades oferecidas, independentemente de terem ou não problemas físicos, cognitivos ou comportamentais. “A gente oferece a possibilidade dessas crianças, jovens, adultos e idosos terem algo para fazer além de ficar em casa. Aqui elas podem interagir com outras pessoas, fazer amigos e cuidar da mente e do corpo”, diz.

Nilo conta que quando a pessoa chega com encaminhamento já para uma atividade pré-determinada, ele procura saber se os pais também precisam de atendimento e têm interesse em participar de uma das modalidades oferecidas. “Muitas vezes, a mãe, que dispensa tantos cuidados com o filho doente, também precisa de cuidados, seja um tratamento dentário, seja uma terapia, seja uma aula de dança. A gente tenta levantar a autoestima da pessoa para que ela se sinta mais forte para cuidar do filho ou filha que está em tratamento”, observa o assistente social.

“Outras vezes, o pai ou a mãe está desempregado e a gente oferece um dos nossos cursos profissionalizantes, que pode ajudá-los a ter uma nova fonte de renda”, conta Nilo. “A gente pede a eles também o currículo, que vamos encaminhando para as empresas que conhecemos e que têm vagas com aquele perfil”.

Muitos dos pais dos praticantes de equoterapia acabam participando de outras atividades oferecidas pela escola. “Todos os projetos sociais da Unidos de Vila Maria têm condição de promover a inclusão social”, diz Rosilei, da equoterapia. “Quando o ciclo de um praticante chega ao fim, por exemplo, eu converso com cada um dos professores das outras atividades para ver se eles têm condição de atender àquele paciente e promover determinado benefício que precisa ser trabalhado para que ele não perca a evolução obtida na equo”.

A parceria da escola de samba com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), o SUS e as Unidades Básicas de Saúde leva para o projeto um público com os mais diversos problemas e diagnósticos, que são acolhidos por uma ou mais atividades. Os serviços de saúde são um diferencial do projeto. Só as modalidades de saúde oferecidas responderam por 18.964 dos 153.112 atendimentos realizados no ano passado, e as mais procuradas foram a equoterapia, a fisioterapia, a psicologia e a odontologia.

Do esporte à saúde

Além dessas, a escola oferece consultas médicas com um cardiologista duas vezes por mês. O médico verifica o estado de saúde dos pacientes, orienta sobre cuidados necessários, pede exames conforme os casos e faz o acompanhamento dos resultados, encaminhando para outros especialistas dependendo do diagnóstico. No ano passado, o cardiologista realizou 660 consultas, numa média de 15 por dia de visita. Uma vez por ano, o projeto social realiza o Sambando com a Saúde, um mutirão que junta a realização de exames de checkup com campanha de vacinação. A ação é realizada em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde e, só em 2019, atendeu 3.750 pessoas.

O projeto social da Unidos de Vila Maria começou com o futebol. A escola queria tirar das ruas as crianças no contraturno escolar. Com o sucesso da modalidade, outros esportes foram sendo incorporados ao projeto, como o caratê, o jiu-jítsu e a capoeira. Depois vieram a dança (balé, samba, samba-rock, zumba, dança do ventre), as atividades musicais e culturais (violão, cavaquinho, percussão, teatro, canto e coral), as sociais relacionadas ao carnaval (mestre sala, passista, bateria mirim) e os cursos profissionalizantes (como cabeleireiro, fotografia, trança, escola de moda, maquiagem, áudio e som, decoração, corte e costura). Para participar de qualquer atividade, a criança ou o adolescente precisa frequentar a escola regular. “É um requisito obrigatório”, afirma Nilo.

Aula de balé é uma das atividades oferecidas pelo projeto social da Unidos de Vila Maria (Divulgação)

O trabalho da assistência social não se limita a encaminhar os interessados para as várias atividades da escola. Nilo costuma fazer visitas familiares para ver em que situação de vulnerabilidade o aluno se encontra. “Tem casa que eu vou que não tem um pacote de arroz e os pais não têm condição de comprar”, conta. Quando ocorre uma situação como essa, o pessoal da escola se reúne, monta uma cesta básica e encaminha para essa família.

A escola também distribui cestas básicas uma vez por ano. Os produtos são arrecadados em um dos eventos sociais beneficentes, a Feijoada de São Jorge, patrocinada por uma família da região devota do santo. A entrada da festa são 5 kg de alimentos não perecíveis. Com os itens arrecadados, a escola monta as cestas básicas, que, uma vez por mês, são distribuídas pelo grupo religioso Sambistas do Bem para famílias previamente cadastradas ou com necessidade comprovada em visita familiar do assistente social. No ano passado, 3.800 famílias receberam uma cesta básica do projeto.

O projeto social da Unidos de Vila Maria também colabora para o desempenho da escola na passarela do samba, ao oferecer cursos de bateria mirim, passistas e mestre-sala. Desses cursos saíram e saem muitos dos integrantes dos desfiles oficiais do Carnaval de São Paulo. “Além de promovermos a inclusão, também estamos investindo no futuro da agremiação”, conclui Nilo.

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