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7 de novembro de 2017

Filho de Betinho peixinho é

O documentarista Daniel Carvalho de Souza, filho do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, criador da ONG Ação da Cidadania, herdou do pai a vocação para o envolvimento em causas sociais. Como documentarista produziu o longa “Eu me lembro”, que conta a história das Caravanas da Anistia, e está trabalhando num documentário sobre AIDS, que será lançado no ano que vem.

Quando Betinho criou a ONG, em 1993, baseou-se em dados do Instituto de Pesquisas Aplicadas – IPEA, que mostravam que havia 32 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. O País cresceu e, dessa forma, deixou de figurar no mapa mundial da fome da ONU em 2014.

Hoje, 20 anos depois da morte de Betinho, o Brasil pode voltar a figurar na lista negra da ONU. Como presidente do Conselho da ONG, Daniel de Souza, está reeditando a campanha “Natal Sem Fome” e retomando uma das principais causas abraçadas pelo pai. “Hoje, temos pelo menos 7 milhões de pessoas vivendo na pobreza, sem contar os que estão em situação de risco social”, diz.

NÓS: A Ação da Cidadania nasceu com a bandeira principal de combate à fome. Continua sendo assim?

DCS: O nosso entendimento era de que, a pressão da Ação da Cidadania e da sociedade junto aos governos, no sentido de se adotar uma política pública de combate à fome, tinha surtido efeito com a instituição dos programas Fome Zero e o Bolsa Família. E que tínhamos chegado naquele momento especial em que a ONG, como brincamos aqui, tem que se autoextinguir, pois a missão havia sido concluída. Desde 2006, quando fizemos o último Natal Sem Fome, que tinha como símbolo denunciar e combater a fome no Brasil, vínhamos atuando em outras áreas da cidadania, com projetos de inovação, capacitação e formação profissional. Estávamos indo por este caminho quando vimos que o Brasil havia retornado ao mapa da fome. Então, neste momento, depois de dez anos, tivemos que reeditar a campanha do Natal sem Fome.

Um retrocesso em termos sociais, não?

DCS: Um enorme retrocesso. Não é possível que, três anos depois de o Brasil ter saído do mapa da fome da ONU, estejamos voltando para esta condição degradante. Por isso temos que mobilizar muita gente para dizer à sociedade que, com esta política que está aí, não vamos chegar a lugar nenhum, que precisamos mudar esses governantes, pois eles estão preocupados em salvar a própria pele.

Houve então, digamos, uma inflexão na política governamental de combate à fome no Brasil?

DCS: Bem, com a crise, que é grave, o fato é que temos aí uma parcela da população brasileira que já está vivendo na pobreza, que a gente calcula em 7 milhões de pessoas, e também aquele contingente que tinha saído desta condição com as políticas adotadas e está em situação de risco. Sei que o governo precisa se ocupar com a economia, crescimento, inflação etc., mas a questão da fome é imperativa. Estamos falando de gente que não tem nada, mal tem o que comer, em que toda a cidadania lhe foi negada.

Mas, em tese, a equação da economia é sempre um caminho para acabar com a fome e a miséria…

DCS: É, mas eu vejo esses governantes que estão no comando do País muito mais ocupados em se proteger das denúncias de corrupção do que focar numa parcela da população que está precisando ser assistida.

Qual o objetivo do Natal Sem Fome?

DCS: O evento é um simbolismo para dizer que no Natal, quando todo mundo está em casa, celebrando comendo e bebendo, há muita gente que está com a mesa vazia. A gente sabe, claro, que a cesta que entregamos para os pobres, com 10 quilos de alimentos, não resolve o problema, pois só dá para alimentar uma família durante uma semana.

É uma ação política, no sentido de pressionar as autoridades para a melhoria social?

DCS: Na verdade, a Ação da Cidadania nasce empunhando a bandeira pela ética na política, e o Natal sem Fome existe para chamar a atenção para esta questão. Isso é relevante, pois 2018 será um ano emblemático, marcado por grandes eventos no terreno dos Direitos Civis. Teremos eleições e estaremos completando os 30 anos da Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã; também será um ano em que o mundo vai comemorar o septuagésimo aniversário da Declaração dos Direitos Humanos.

O Natal sem Fome não acaba sendo uma grande manifestação política contra a política de governo?

DCS: É livre a manifestação. Hoje as pessoas se manifestam contra ou a favor do governo nos teatros, cinemas e em qualquer ato público. O nosso ponto é que, seja de direita, de esquerda ou de centro, ninguém pode tolerar a fome no País. E é bom que se diga que a Ação da Cidadania sempre foi suprapartidária. Em nenhum momento, nos seus 25 anos de existência, se aliou a qualquer governo, ideologia ou partido. Não que tivessem faltado convites para isso. Nossa bandeira é pelo fim da fome.

Defina a fome no Brasil atual.

DCS: A fome no Brasil é política, sempre foi. Já dizia Josué de Castro, escritor e ativista no combate à fome, ainda na década de 50, que a fome no Brasil é criação do homem, é consequência de decisões humanas. Tanto que, durante um período de 12 anos, quando enfim se teve uma vontade política de combater o problema, o Brasil saiu do mapa da fome da ONU, depois de 500 anos convivendo com esse flagelo. Durante muito tempo argumentava-se que o problema da fome era devido à seca, desastres naturais, que sempre foi assim e até com Deus, que não tem nada a ver com isso.

Aqui há fome, no sentido, de falta do que comer? O Brasil não tem níveis africanos de fome.

DCS: Sim, não se vê por aqui aquelas cenas africanas de crianças esquálidas, que são pele e osso. O que se tem aqui é uma brutal desigualdade social, um abismo imenso entre os mais ricos e os mais pobres, que resulta, para muita gente, principalmente no interior do Brasil, na falta de comida. Os nossos Comitês da Ação da Cidadania, que atuam na ponta, onde a comida é necessária, nos trazem relatos de geladeiras vazias e falta de dinheiro para o supermercado.

A luta contra a fome no Brasil pode ter ganhos duradouros como o país obteve no caso da prevenção da AIDS?

DCS: Não tão duradouros. Além da Ação da Cidadania, sou documentarista e atualmente estou produzindo um documentário sobre a AIDS no Brasil, que será exibido no ano que vem. E o que estamos constatando é um aumento da doença no País, principalmente no público jovem. A Ação da Cidadania fez um denso trabalho nesse campo e se tornou uma referência na luta contra a AIDS, mas o problema persiste, inclusive no mundo em geral. Tem muito a ver com a crise, a falta de verbas e de uma ação mais proativa das autoridades para reduzir os índices da doença. E tem como causa ainda um certo conservadorismo da sociedade brasileira, que não aceita a educação sexual nas escolas. O resultado disso é gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis e outros problemas que poderiam ser evitados com informação e prevenção. Infelizmente nisso e em outras questões também estamos retrocedendo, como a homofobia, o machismo e o conservadorismo. Veja o caso do Bolsonaro. Há dez anos ele tinha votos para ser um mero deputado, hoje teria votos para ser presidente do Brasil. É a síntese do nosso retrocesso.

Além de combater a fome, como é a atuação da Ação da Cidadania?

DCS: A Ação da Cidadania começou como um movimento nacional e, aos poucos, foi se tornando uma ONG. Hoje, por meio dos comitês da cidadania, está presente em 18 estados, que atuam, cada um, de diversas maneiras. Alguns estados no Nordeste trabalham com arrecadação de alimentos, outros no auxílio às populações que padecem com a seca e também o contrário, quando sofrem por conta de enchentes. No Rio, temos o Armazém da Cidadania, no Valongo, onde realizamos diversos projetos de captação e inovação.

Neste momento de crise, inclusive nas políticas sociais, cresce o papel desempenhado pelas ONGs, como braços operacionais, complementares a ação de governo?

DCS: Sem dúvida, a gente tem que entender que, quanto mais retrocesso no campo social, mais as ONGs serão chamadas a participar nesse quesito. E está visível para todos o quanto estamos retrocedendo no campo social, em todas as áreas, segurança, renda, desemprego. Por isso, com o Natal sem Fome, estamos querendo fazer uma grande articulação, para entrar o ano de 2018 com a sociedade mobilizada não só para combater a fome, mas também para propor a volta do movimento pela ética na política.

O que acha da evolução das ONGs para empresas sociais, como prestadoras de serviço para o governo?

DCS: Houve um momento no Brasil em que todo mundo queria abrir uma ONG. No início as ONGs não tinham um vínculo com o governo, uma vez que estávamos saindo de um ciclo de governos militares que não tinham esta abertura. Eu vejo a ONG como um braço da sociedade, e o ideal é não estarem vinculadas financeiramente a nenhum governo, pois isso tira a sua autonomia. Veja o caso de uma ONG como Green­peace. Ela tem que ser independente para fazer suas denúncias e atos contra governos que devastam o ambiente.

As ONGs devem sobreviver apenas com doações?

DCS: Antes havia recursos sobrando, que vinham de todas as partes, empresas, fundações, mas essas fontes de recursos estão secando, isso em todo o mundo, e as ONGs tiveram que se reinventar. Essa época acabou com a crise de 2009. A Ação da Cidadania não tem um mantenedor, estatal ou privado, e sobrevive por conta de parceiros que acreditam no nosso trabalho e os projetos que criamos.

Por um Natal sem fome

Uma mesa literalmente quilométrica, montada no Aterro do Flamengo, no Rio, no último dia 22 de outubro, foi a forma como a Ação da Cidadania, ONG fundada pelo sociólogo Betinho, falecido em 1997, quis mostrar ao Brasil que a fome está de volta ao País.

Em 2014 o Brasil havia saído da lista dos países que, segundo os critérios da Organização das Nações Unidas (ONU) têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias que o recomendável. Pelo menos 11% da população mundial passa fome, sendo 7 milhões de pessoas só no Brasil.

O “Natal sem Fome” tem a parceria da UNESCO no Brasil – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura –, da FAO, Agência da ONU para a alimentação e a agricultura –, e da Agência África, responsável pela criação da campanha que está sendo veiculada nas TV abertas e por assinatura, além de rádio, out of home, sites e redes sociais, por intermédio de influenciadores digitais e artistas. É a primeira vez que a campanha, que vem sendo realizada desde 1993, tem a cooperação de duas agências da ONU.

A campanha da Agência África, que será veiculada até o dia 20 de dezembro, tem como ícones a mesa de um quilômetro, o prato vazio da campanha de 1994 e a imagem do sociólogo Betinho, idealizador do “Natal Sem Fome”. O propósito da ação é arrecadar a maior quantidade possível de cestas básicas e entregar para quem não tem o que comer na semana do Natal.

A doação de recursos, em âmbito nacional, pode ser feita pelo site www.natalsemfome.org.br, e a arrecadação de alimentos, por meio de pontos de coleta nos vários estados. Postos de Coleta: Sede da Ação da Cidadania (Av. Barão de Tefé, 75 – Saúde – Rio de Janeiro) e Comitês da Ação da Cidadania pelo Brasil: Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe. (ver endereços no site www.natalsemfome.org.br).

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