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2 de maio de 2017

Lucinha Araújo – “O Brasil não tem cultura de investimento no social”

Raio X

Aos 80 anos, Lucinha Araújo já avisou que está preparando sua sucessão na Sociedade Viva Cazuza, ONG que leva o nome do filho, morto pela AIDS em 1990. Se cumprir sua promessa, a instituição, que idealizou e fundou há mais de duas décadas, contará com um conselho curador e administrativo na gestão. Mas quem conhece Lucinha acha difícil ela se aposentar tão cedo. Passa o dia na instituição. O mais provável é que, gozando de saúde, continue à frente da instituição que presta serviços de assistência e prevenção a AIDS, principalmente à população carente. Em breve depoimento à NÓS, Lucinha abordou temas ligados ao Terceiro Setor.

Viva Cazuza

“Nesses 26 anos, a Viva Cazuza mostrou que trabalhando com seriedade é possível desenvolver projetos de qualidade. Hoje temos uma instituição respeitada, com credibilidade, mas infelizmente vemos a Aids no Brasil aumentando entre os jovens. Acho que este é o grande desafio, a prevenção entre jovens”.

Aids

“A Viva Cazuza nunca foi uma ONG que tivesse na prevenção sua principal atividade. A prevenção é um suporte ao nosso trabalho de assistência, e desenvolvemos algumas atividades em conjunto com o Ministério da Saúde e/ou a Secretaria Municipal de Saúde da cidade do Rio de Janeiro. No Brasil não existe uma cultura de investimento social vindo da parte de empresas. Uma das exceções é a L’Oréal, que desenvolve, não só no Brasil, um projeto de educação e prevenção chamado “Cabeleireiros contra Aids.”

Discriminação

“Todo portador do HIV tem direito ao sigilo quanto à sua condição de saúde, e a discriminação pela falta de conhecimento das formas de transmissão diminui, mas o preconceito é outra coisa, não passa pelo racional. Até hoje existe preconceito de cor.”

Responsabilidade social

“Como disse anteriormente, não existe uma cultura no Brasil de investimento no social, não só de pessoas físicas como de pessoas jurídicas. É muito comum você ver, nos EUA e em países da Europa, hospitais, escolas, universidades, teatros e até praças terem o nome dos doadores e financiadores. Aqui isso não existe. Não acredito que uma pessoa possa ser solidária em função de lei. Vejo pessoas jogando lixo na rua pela janela do carro. Que respeito essa pessoa tem por sua cidade, pelo seu semelhante? Cada um tem que se perguntar qual o seu papel neste mundo”.

ONGs

“As ONGs existem para cumprir uma função social que é falha. Esse é o princípio e a definição de ONG. Cada um escolhe a área em que deve atuar. Trabalho com HIV por um trauma. Talvez, se meu filho não tivesse se contaminado com HIV, eu estivesse trabalhando com outra coisa. Existe a boa gestão e a má gestão, só isso. Hoje muitas Organizações Sociais foram criadas para servir ao Estado. Isso é outra coisa.”

Solidariedade humana

“Durmo tranquila e fico feliz em saber que estou fazendo a minha parte.”

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