Ir para o Topo

19 de março de 2017

Lucro e inclusão social de mãos dadas

Fazer o bem dá lucro? Não é fácil mensurar o que uma empresa recebe de volta ao investir em programas de responsabilidade social, mas a resposta é sim, a julgar pelas conclusões do estudo “Inclusão Social e Competitividade de empresas com operações no Brasil: Uma análise da percepção de executivos C-Level em grandes e médias organizações”, recém-lançado pela Fundação Dom Cabral. Dos 159 executivos estratégicos de empresas de médio e grande porte auscultados na pesquisa, 58% responderam afirmativamente ao serem confrontados com o enunciado: “Inclusão social vai além da responsabilidade social praticada atualmente pelas empresas. Ações inclusivas implicam uma intenção de gerar maior competitividade para as empresas ao mesmo tempo em que contribuem para melhorar a qualidade de vida das pessoas e reduzir a desigualdade social”.

Pode-se deduzir, pelas respostas, que a percepção dos entrevistados quanto à chamada questão social não está dissociada da missão empresarial, o que é animador para os que pretendem uma sociedade mais justa. Mas atente-se para o fato que os executivos concordam com a afirmação, contida no enunciado, de que a agenda de responsabilidade social das organizações com operações no País ainda é precária. Isso, levando-se em conta que a pesquisa considerou como inclusão social apenas aquelas ações ligadas ao próprio empreendimento, como a política de emprego, as práticas e governança e a relação com o consumidor. As práticas “indiretas” de Responsabilidade Social, ou seja, aquelas externas ao negócio, como preservação ambiental e apoio a projetos nas áreas de saúde e educação, entre outras, farão parte da segunda etapa da pesquisa que a Fundação Dom Cabral já está trabalhando e lançará ainda este ano.

Lucro social? Não há consenso no meio empresarial da responsabilidade social corporativa como item agregado ao negócio e, mais ainda, fomentador de bons resultados. A cultura empresarial não é altruísta e move-se por demandas. “A empresa sempre vai atrás da maior lucratividade possível. É da natureza empresarial”, confirma o professor Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral e um dos envolvidos no estudo. “Não há muita clareza para as empresas da correlação positiva entre a lucratividade e a responsabilidade social.”

O economista Milton Friedman, líder da escola monetarista de Chicago, defendia friamente que a responsabilidade social da empresa resume-se ao aumento dos seus lucros. Num artigo publicado no New York Times em 13 de outubro de 1970, afirmou que a única responsabilidade de uma empresa consistia em “utilizar os seus recursos e empenhar-se em atividades destinadas ao aumento dos seus lucros, desde que respeite as regras do jogo, isto é, as regras de uma concorrência aberta e livre, sem logro ou fraude”. Com uma orientação menos fundamentalista, Michael Porter, professor da Harvard Business School, defendeu que a competitividade não é incompatível com a orientação social das organizações e que estas poderiam inclusive se valer da “vantagem competitiva da filantropia empresarial”.

Mais de uma década depois da morte de Friedman – o maior advogado do liberalismo econômico –, a discussão sobre se é possível combinar lucro com responsabilidade social pode ainda suscitar dúvidas, mas que avançou, avançou. No mínimo já há uma predominância no meio empresarial, pelo menos entre as grandes companhias, de que o sucesso do negócio não se mede apenas pelo êxito financeiro, mas pela sua contribuição para a melhoria da qualidade de vida e da saúde das comunidades onde operam e, por extensão, do planeta.

Pode-se ponderar, relativizando Friedman, que a primeira responsabilidade social de uma empresa privada é sobreviver. Por esse raciocínio, gerando resultados, a organização poderá pagar salários, fornecedores, impostos e, claro, remunerar sua majestade, o capital, garantindo assim a continuidade do negócio. Depois, viria a agenda social. Depois? Junto. Nos novos tempos da sustentabilidade empresarial, o que vem sendo pregado por governos e organizações sociais é que o investimento em programas sociais está no mesmo grau de prioridade das demais despesas que mantêm a empresa respirando. Sim, só falta avisar boa parte do empresariado nacional.

Segue que a percepção do que vem a ser agenda social no meio empresarial brasileiro ainda está muito ligada ao negócio em si. O estudo da Fundação Dom Cabral considerou itens como emprego, consumo e empreendedorismo (de acordo com a definição do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) como formas das empresas promoverem a inclusão social, e 39% das respostas indicaram que a oferta de produtos e serviços às classes C, D e E é a que tem maior influência positiva sobre a competitividade. Resta saber se não é mais por opção mercadológica, dado a conjuntura atual recessiva, que as empresas se deslocam naturalmente suas baterias competitivas para setores de menor renda. Nesse caso, a competitividade se sobreporia à inclusão social.

A ideia de que o capitalismo é impiedoso e que o negócio não suporta benemerências cai por terra quando se defronta com o empreendimento feito pelo economista Muhammad Yunus, conhecido como “o banqueiro dos pobres”. Por meio do Grameen Bank, que ele fundou em 1983 em Bangladesh, Yunus concedeu, em escala internacional, sem garantias ou papéis, empréstimos a gente pobre que nunca teria acesso ao sistema bancário. Por suas ações, Yunus recebeu vários prêmios, inclusive o Nobel da Paz em 2006. O empreendedor indiano tornou-se, desde então, um dos oradores mais requisitados do planeta, inclusive por empresários e banqueiros, duramente criticados em suas palestras.

É sintomático, como aponta o estudo, que as empresas com braços no exterior sejam mais sensíveis quanto à influência positiva da inclusão social na competitividade. Mais do que compreensível. Em face de um mercado mais exigente e regido pelo mantra da sustentabilidade empresarial, as companhias brasileiras com operações internacionais foram obrigadas a ampliar a sua agenda social. “Uma postura mais inclusiva pode ser vista como um diferencial das multinacionais atentas à sua contribuição para a sociedade”, conclui o estudo.

A pesquisa revelou também que, visto pelo viés da competitividade, o conceito de Reponsabilidade Social tem elasticidade. A valorização da Ética interna e de práticas avançadas de governança na relação com os stakeholders foi avaliada pelos entrevistados como o fator condicionante mais importante na relação entre inclusão social e competitividade. “As empresas percebem, cada vez mais, que o sucesso de seus negócios depende de uma postura atenta à sociedade de uma forma mais ampla”, revela o estudo.

A educação foi outro item apontado na pesquisa como fator que combina a inclusão com a competitividade. “Treinamento e qualificação da mão de obra foram percebidos como formas importantes de favorecer a inclusão social e promover a competitividade, tanto do ponto de vista interno quanto externo”, diz o estudo, mostrando mais uma vez que inclusão social para as empresas refere-se mais à preservação do próprio negócio. É claro que ao investir no aprimorando de seus quadros as empresas estão, por extensão, qualificando seus funcionários, melhorando a mão de obra para o mercado e contribuído para o desenvolvimento da sociedade. Mas há passos fora de casa que tornam a inclusão social mais abrangente.

Pode depreender pela pesquisa que o lucro, visto aqui como a paga ao empreendedor pelo risco e o esforço de manutenção do negócio contra todas as intempéries, continuará inviolável, mas a história da conquista dos direitos civis, dos benefícios aos trabalhadores e do aumento do Estado mostrou que não é intocável. O que vem por aí? Para o professor da Fundação Dom Cabral, nestes tempos de inclusão social, as empresas trocarão o lucro maximizado por uma rentabilidade menor, que, em contrapartida, será mais estável. Pode ser um bom negócio.

Leia também

10 de junho de 2019

Gigante do comércio eletrônico Mercado Livre tem os pés fincados na sustentabilidade

Presente em 18 países, a empresa cujo modelo de negócios é fonte de sustento para mais de 580 mil famílias latino-americanas promove o empreendedorismo digital, a inclusão financeira e a diversidade com práticas sustentáveis e inovadoras Vinte anos atrás, quando o comércio eletrônico ainda engatinhava, o Mercado Livre tinha sua imagem vinculada ao segmento de […]

30 de maio de 2019

Ações sustentáveis de ponta a ponta garantem terceiro lugar no ranking mundial ao Grupo Ferrero

Fabricante italiana de confeitos e chocolates divulga relatório de responsabilidade social corporativa com resultados dos programas socioambientais; escolas públicas de Poços de Caldas foram beneficiadas com projeto da empresa que promove a prática esportiva

22 de maio de 2019

Shopping de SP transforma lixo orgânico de praça de alimentação em ‘comida’ para horta urbana

Projeto Telhado Verde é exemplo de ecoeficiência, pois além de dar destino correto a resíduos sólidos produzidos no estabelecimento, beneficia 600 famílias com a doação de produtos livres de agrotóxicos

© Revista Nós - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e imagens sem prévia autorização.