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7 de março de 2017

Maratona contra a miséria

A crença de que uma corrida pode transformar uma vida é a mensagem força da campanha que a Kamel Turismo está lançando em parceria com a Samaritan’s Feet, uma empresa do terceiro setor criada há 30 anos na Nigéria para dar calçados a crianças carentes. Para cumprir a meta – entregar até julho deste ano mil pares de tênis para jovens atendidos em projetos socioesportivos no Morro do Borel e no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro –, a Kamel vai ter que correr. “Somos uma agência de viagens diferenciada e não vendemos pacotes para lua de mel, visitas ao Corcovado ou cruzeiros para ilhas paradisíacas”, diz a diretora da empresa, Elisabet Olival. O foco da Kamel é o corredor brasileiro que quer competir em maratonas pelo mundo.

Calçar crianças pobres de favelas cariocas pode parecer pouco diante da imensidão de carências a que elas estão submetidas. Mas a ideia é de que, ao receber um tênis, uma criança não está simplesmente deixando de andar descalça ou com um sapato furado, mas ganhando a possibilidade de praticar esportes, principalmente corridas. Serve, mais do que simbolicamente, como uma plataforma de apoio para, na condição de excluída, pisar no solo firme da emancipação social.

A escolha do local de ação da campanha não poderia ser mais acertada. O Borel, favela localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, com mais de 8 mil moradores, é carente de tudo. Apesar da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora no local, é comum a guerra entre facções criminosas. Já o Complexo da Maré, um agrupamento de várias favelas onde residem mais de 130 mil pessoas, é um barril de pólvora social. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na área, palco de frequentes tiroteios entre polícia, traficantes e grupos rivais, é um dos mais baixos do País.

A proposta da campanha de incentivar a corrida como meio de superação social, consideradas as diferenças de classe, tem relação com a missão do negócio da Kamel Turismo, qual seja o de facilitar corredores brasileiros a participarem de maratonas internacionais. Lá, tudo é feito em função da corrida e dos corredores. E são os clientes, na verdade, que financiam a campanha de doação de tênis, destinando às crianças carentes, nos pacotes contratados, valores entre R$ 10 e R$ 50.

Voltada para o segmento corporativo, desde sua fundação, no final dos anos 1940, a Kamel mudou o foco de atuação em 1988, para dar suporte aos amantes de corridas e maratonas internacionais. “Somos pioneiros nesse tipo de turismo”, diz Elisabet, ela própria maratonista. Hoje, além de dar toda a assessoria para a participação nas provas, a Kamel disponibiliza pacotes adicionais que incluem passeios e atrações turísticas na cidade onde se realiza o evento. Há maratonas para todos os gostos: Tóquio, Boston, Londres, Berlim, Chicago e Nova York são as mais conhecidas, mas provas menores também são muito procuradas por aficionados.

Por exemplo, para participar da Maratona de Dubai, realizada em 20 janeiro deste ano, e ficar quatro dias hospedados no hotel quatro estrelas Four Points by Sheraton Downtown Dubay, os maratonistas pagaram US$ 740, não incluída a passagem aérea. A corrida, pelas ruas de Dubai, mostra o contraste entre o deserto dos Emirados Árabes e os grandes edifícios da cidade, uma das mais luxuosas do mundo. Contraste em grau semelhante ao choque visual das favelas cariocas, onde vivem os pés-descalços, em oposição aos prédios cravados na paradisíaca beira-mar da Zona Sul do Rio.

O rito do lava-pés na passagem para cidadania

Organização sem fins lucrativos, criada em 2003 com o objetivo de tirar da miséria jovens e crianças carentes, a partir da doação de calçados, a Samaritan’s Feet conta com mais de 70 mil voluntários que servem em mais de 70 países, promovendo ações de saúde, educação e esporte. Em 30 anos de existência, a organização impactou diretamente mais de 6,5 milhões de pessoas em todo mundo e mais de 10 milhões por meio da parceria com outras instituições. Além da sede central em Charlotte, nos Estados Unidos, a Samaritan’s Feet possui escritórios na África do Sul, Argentina, Brasil, Honk Kong, Nigéria e Peru.

No Brasil, o trabalho da organização teve início em 2006 junto às comunidades ribeirinhas da Amazônia. Nesse mesmo ano, quando foi formado o primeiro time de voluntários e apoiadores, houve projetos e doações de calçados na cidade de Goiânia (GO). Em 2008, a organização passou a atuar em pequenas ações de doação de calçados em várias cidades de Goiás e outros estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 2012, as operações da Samaritan’s Feet no Brasil foram concentradas em Curitiba, local estratégico para construção de novas parcerias, captação de recursos e crescimento da organização. Desde então foram milhares de calçados distribuídos em várias cidades do país, acompanhados da tradicional cerimônia do lava-pés nas crianças.

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