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27 de outubro de 2016

Maria Claudia Amaro

Raio X

Maria Claudia Amaro, filha do lendário comandante Rolim Amaro, fundador da TAM, desde sempre esteve associada à vida empresarial. Já na infância andava de bicicleta no hangar da companhia aérea. Com a maturidade, escalou todos os cargos executivos até aterrissar na presidência do Conselho da TAM – foi a primeira mulher a atingir esse posto na aviação civil mundial. Parecia ter encontrado seu ápice profissional.Logo viria a fusão entre a TAM e a chilena LAN, criando a LATAM, maior companhia de aviação da América Latina. E Maria Claudia se tornaria um dos membros do Conselho Administrativo da LATAM. Tinha chegado o seu momento de decisão. Há anos pensava em empreender fora do segmento da aviação. Começou a trabalhar com algumas ONGs da periferia de São Paulo, em áreas de muita violência e carência. Vivenciar essa realidade, ao mesmo tempo em que acompanhava a educação das filhas, despertou a vontade de fazer algo pelo país na área de educação, o que aos poucos foi se tornando sua paixão desabrida. A dedicação ao novo projeto exigia concentração. Maria Claudia tinha chegado ao fim de um ciclo. Retirou-se de todos os cargos nos Conselhos de suas empresas, nomeando um executivo para representá-la.

Voltou-se de corpo e alma para um projeto de proa, algo inovador que posiciona o Brasil no mundo sem fronteiras, por meio das crianças de todas as origens. Trata-se da Rhyzos Educação, uma “escola internacional brasileira”, que se tornou referência antes mesmo de ser criada.

Educação

Eu navego nos mares da educação desde que me tornei mãe. Minha primeira inspiração foram minhas filhas. Não chega a ser original, porque em diversos lugares do mundo, onde eu estive fazendo pesquisas, verifiquei que muitas pessoas criadoras de escolas tiveram sua primeira inspiração nos próprios filhos. O fato é que desejo para todas as crianças o que desejo para as minhas filhas. A outra inspiração foi um projeto social com o qual me envolvi, na periferia de São Paulo, em que a pedagogia é fortemente associada ao afeto. Eles conseguem iluminar a vida de uma criança que é desprovida de tudo. Então eu comecei a me incomodar com essa lacuna do social; a enxergar que ninguém é cidadão, nem nós nem eles que estão na periferia, no caso de São Paulo – no Rio de Janeiro são as favelas. Acho que não dá mais para ver essa diferença social toda e ficar quieto. Passei a visitar diversos projetos no Brasil e no mundo para ver o que está acontecendo na área de educação, aprendendo com quem inova. Desde o início, a ideia era que o nosso empreendimento fosse sustentável. Caminhar se aprende caminhando. E eis que nos deparamos com o conceito do Negócio Social, que se encaixa bastante no projeto da escola. Na nossa empresa, o lucro precisa existir, é claro, mas para financiar o retorno à sociedade por meio do intercâmbio com escolas e professores da rede pública, além das bolsas escolares. Não é o lucro pelo lucro, mas, digamos assim, é o lucro pelo social. Esse modelo é aplicável a variados segmentos. No meu caso é a educação. Então eu preciso ter uma receita para pagar todos os custos e lucro para reinvestir nas atividades educacional e social.

Identidade

Quando tomei a decisão de fazer um projeto de educação socialmente inclusivo e com aquilo que há de mais inovador no mundo, imediatamente decidi colocar o pé na estrada. Fui buscar inspirações, conhecer modelos criativos para a construção da identidade da Rhyzos, a nossa escola internacional brasileira. As melhores experiências seriam fundamentais para a definição do projeto. Rodei meio mundo: Europa, Estados Unidos, Ásia, África. Vi experiências transformadoras. Uma das mais impactantes foi na visita à Índia. Trata-se de uma escola que usa a metodologia do Design Thinking. Para ser mais precisa, essa escola fica no Noroeste da Índia, na cidade de Ahmedabad, perto do Paquistão. O nome da escola é River Side. Sua dona se chama Kiran Sethi. Ela desenvolveu uma metodologia chamada Design for Change. É uma escola particular onde os alunos se envolvem profundamente com a comunidade do entorno, com as crianças da rede pública, e tudo ali é uma oportunidade para o aprendizado. Eles são levados a abraçar os problemas da cidade e se envolvem com essas questões de maneira diversa; por meio de danças, interação com a administração pública, movimentos sociais, entre outros. Foi inspirador encontrar um ambiente que não minimiza a capacidade da criança. Coisa que, aliás, tendemos a fazer sempre. Muitas vezes eu vejo a descrença dos adultos em face das condições de a criança resolver um problema x ou y, quando na verdade ela é mais capaz do que se imagina. Pois bem, isso da gente subestimar a criança está afastando os alunos e professores. A escola não fala a mesma língua do aluno. A gente precisa parar de falar em tecnologia como inovação. Essa criança nasceu no mundo digital. Para ela, tecnologia é uma ferramenta. Inovação é mudança de modelo mental. Mudança dos papéis na escola, o professor não mais como mestre, e sim como gestor do conhecimento. Um dos métodos que nós conhecemos foi o Gamefication, em uma escola pública, a Quest to Learn. É a linguagem dos games. Eles fazem jogos, produção de vídeo, tudo isso de uma forma mais lúdica de ensino com inovação tecnológica e interações curriculares nada convencionais. Pensando que nem todas as pessoas vão querer fazer jogos, robótica, existe o caminho das artes. Nos Estados Unidos, eu visitei a DreamYard no bairro do Bronx, um projeto que me inspirou demais: uma escola que usa as artes como metodologia para ensinar ciências. Isso me encantou porque o pensamento científico e o artístico são muito parecidos. O Bronx é uma área onde vivem imigrantes de primeira geração, africanos, e a proposta foi causar um impacto, para que os filhos desses imigrantes já conseguissem entrar na faculdade. Hoje, os alunos dessa escola têm um índice de aprovação na universidade superior a 96%. Apesar da pressão para se seguir uma carreira universitária, ela tem a vibração positiva que a arte provoca. Eu acredito nisso: a ciência não pode caminhar separada da arte e da filosofia.

Mão na massa

Eu cheguei aos FabLabs@School quando fomos visitar a Universidade de Stanford, na Califórnia. E o que são os FabLabs? São ambientes de fabricação digital, que foram desenvolvidos pelo MIT, em que as crianças podem exercitar a chamada educação “mão na massa”. É o ensino baseado em processo. Nesses ambientes elas criam, inventam, em síntese, fazem o novo. Eu tomei um susto quando verifiquei o potencial do método do “aprender fazendo”. Mas está comprovado que uma criança, quando quer aprender uma coisa, primeiro ela faz, e só depois vai para teoria; ela sedimenta esse conhecimento de uma forma mais perene. É preciso permitir que ela erre e tente, e erre. É assim que ela vai se tornar resiliente. Nós não podemos esquecer o professor. É fundamental que ele receba capacitação profissional, respeito e o tempo que ele necessita para se dedicar ao aluno e se reinventar. Para que nós possamos colocar o aluno no centro, o professor é o eixo. No fim do ano passado, eu tive encontros com muitas pessoas de diversos segmentos, buscando ouvir a realidade dos diversos públicos, com adolescentes, pais, moradores das comunidades, empresários de diversos portes e setores, professores, físicos, matemáticos, artistas, todo tipo de gente, em busca de uma nova linguagem para a educação. Aprendemos todos, nós e eles. A realidade foi reveladora. Por vezes a comunicação dos principais vetores, o professor e o aluno, é completamente cacofônica. O que nós estamos buscando é um novo modelo, que não reinvente a roda, e sim aproveite as melhores práticas do mundo – nós temos muitos educadores bons, tais como Anísio Teixeira e Paulo Freire –, preservando a nossa cultura e identidade.

Inclusão social

A gente precisa derrubar os muros que nos separam. O brasileiro é um povo miscigenado; isso é bonito e admirado no mundo inteiro. Aqui se cultua realmente a diversidade. Mas a questão das diferenças social e econômica é algo que precisamos enfrentar. É um problema muito sério e não vai sumir facilmente. Um dos meus projetos é trabalhar e integrar a Rhyzos, nossa escola internacional brasileira, às escolas públicas. Temos que quebrar os preconceitos de classe, raciais e de que a criança é incapaz. Uma das nossas missões prioritárias é trabalhar contra o preconceito. Falamos do preconceito em relação às possibilidades da criança, do preconceito de classe; e eu acho relevante tratar também do preconceito contra o ensino público, que ele não é bom, isso ou aquilo. Há iniciativas no ensino muito inovadoras, às vezes mais do que na escola particular. É claro que você tem uma desvantagem comparativa em relação ao ensino privado, devido ao diferencial de recursos disponíveis. Por outro lado, quando trazemos uma criança ou um jovem da periferia para participar das nossas atividades, vemos que, por muitas vezes, ele é bastante mais articulado do que uma criança formada em uma escola particular. Isso porque esse jovem é obrigado a crescer lidando com milícia, com tráfico de droga, com a polícia. Então eles têm uma articulação social que as crianças nascidas em berços prósperos não têm. Esses meninos são mais bobos porque cresceram atrás do muro, protegidos por segurança, não andam de ônibus, não brincam na rua. Nós verificamos que essa troca é muito rica, porque um tem muito a ensinar para o outro. Eles têm sonhos muito parecidos, as músicas são muito parecidas, os gostos são muito parecidos, a moda muito parecida. As crianças, todas elas, querem o mesmo brinquedo, é tudo muito igual nesse sentido. No nosso projeto não está previsto somente fazer intercâmbio e troca entre alunos da nossa escola e alunos da rede pública, mas também intercâmbio de professores. Por que não? Tenho certeza que a educação pública não será resolvida sem a ajuda da iniciativa privada. Essa interação com as comunidades carentes por meio do ensino vai melhorar as condições de vida das crianças da periferia e de comunidades mais pobres. Vamos trilhar esse caminho. Mas não tenho a fantasia de que vamos resolver o problema do Brasil. A minha meta nunca foi escala. Eu sou uma formiga. O que eu pretendo é produzir impactos, pequenas brechas por onde eu possa entrar e, quiçá, sejam de grande ressonância, capaz de mudar a vida dessas pessoas e do seu entorno.

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