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7 de agosto de 2017

O anjo da guarda da criançada da Maré

Um sentimento de não pertencimento parece perseguir a carioca Yvonne Bezerra de Mello. Egressa da classe média, foi casada com o empresário Álvaro Bezerra de Mello, já falecido, da rede de hotéis Othon, o que por si só lhe valeria um passaporte permanente para frequentar a alta sociedade. Mas Yvonne parece mesmo estar bem quando junto de suas crianças do Uerê, projeto que fundou há 20 anos no Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas do Rio.

Lá, cercada de barracos, pobreza e não raro em meio a tiros trocados entre traficantes rivais ou com a polícia, dá expediente diário. Cuida da parte administrativa, das finanças, da camerata formada por membros da comunidade e dá aulas para as 500 crianças que estudam, almoçam e brincam no local. Lá sim, a 20 quilômetros da Zona Sul carioca, onde mora, ela está no seu elemento.

A sensação de não pertencer ao meio de origem vem desde pequena, quando visitava com a mãe as crianças de orfanatos na Zona Sul do Rio. Filha de mãe desquitada e pai pouco presente, Yvonne, a exemplo das crianças órfãs, sentia-se também uma excluída. “No internato, onde estudei, as freiras me proibiam de dizer que era filha de mãe desquitada”, conta. “Até hoje sou discriminada e criticada por trabalhar com crianças faveladas”.

Filha de funcionária pública e de comandante da Marinha, Yvonne tem pedigree acadêmico. Estudou na Sorbonne, na França, onde conheceu seu primeiro marido, um diplomata sueco, com quem teve três filhos. Fez mestrado e doutorado em linguística e filologia, sendo seu estudo baseado em crianças africanas com problemas de cognição. Em 1980, separada, com 34 anos, voltou ao Brasil e, sensibilizada com o número de crianças nas ruas, decidiu alfabetizá-las. Na Candelária, onde, na época, meninos de rua dormiam e cheiravam cola, conheceu Sandro Nascimento – um dos sobreviventes da matança conhecida como a Chacina da Candelária. Sandro, sete anos depois, sequestrou o ônibus 174 e protagonizou nova tragédia, televisionada em rede nacional e encerrada com a chocante morte de uma refém.

Aos 72 anos (que não aparenta), Yvonne vem difundindo seu método Uerê-Mello – ensino diferenciado para alunos com problemas cognitivos – entre as crianças moradoras de áreas de risco. No momento escreve suas memórias, enquanto um documentário sobre sua vida está sendo produzido pela cineasta Lucy Barreto.

NÓS: O que te dá maior prazer na vida?

Yvonne Bezerra de Mello: Prazer é estar aqui com as crianças. Dar aula todos os dias. Agora mesmo chegou aqui uma família que veio da rua, com crianças maltratadas que nós vamos receber e tratar. É isso que eu gosto de fazer. E pegar estas crianças com dificuldades de aprendizado e resolver o problema com o nosso método. (Nisso, chega uma criança passando mal, trazida no colo pelas assistentes e professoras, é medicada e passa bem.)

E os seus cavalos, que gostava tanto?

YBM: Isso acabou. Aos 72 anos não posso mais me expor a certo movimento com o corpo, como sofrer uma queda. Como tenho uma saúde de ferro, achei melhor me preservar. Já faço academia, nado e velejo.

Que tipo de problemas estas crianças que chegam aqui têm?

YBM: Aqui todas as crianças têm problemas. Pai preso, mãe drogada, abandono de filho, filha estuprada, tem de tudo.

E tem como resolver?

YBM: Sempre tem um jeito de melhorar. Conseguimos 95% de sucesso no nosso trabalho de recuperação dessas crianças. Apesar de ter uma vida familiar complicada, aqui no Uerê as crianças aprendem e são felizes. Isso que me leva a continuar este trabalho. A criança chega aqui rebentada pela vida e três meses depois é outra criança. Apesar de a família ser a mesma, com o mesmo ambiente, a criança ganha forças para viver a sua vida, com mais alegria e esperança.

Como é a metodologia educacional aplicada para estas crianças?

YBM: A pedagogia Uerê-Melo foi criada por mim para atender crianças que vivem em zonas de risco, com problemas cognitivos de aprendizado. É uma pedagogia sedimentada, com 95% de resiliência. Ela muda completamente a gestão em sala de aula, onde se contemplam o tempo de concentração da criança, exercícios orais. Trabalhei com o Eduardo Paes e Claudia Costin durante sete anos e qualifiquei cerca de 5 mil professores. Têm escolas no Rio e em Recife que adotam essa pedagogia, além de duas escolas em São Paulo, onde estou qualificando os professores, e agora fora do Brasil. O Projeto Uerê é uma incubadora e está gerando frutos. Já temos dois livros publicados.

Como é a aplicação da pedagogia na criança?

YBM: A criança consegue ficar o tempo todo atenta. O ensino é mais oral, a criança escreve menos do que faria numa escola tradicional, a interação com o professor é permanente. Todas as explicações não ultrapassam 15 minutos. Uma aula dura 50 minutos e é dividida em três tempos: o tempo da explicação, o de refazer o pré-conhecimento, que não está no domínio da criança, e os exercícios orais. Uma coisa importante é o treinamento da velocidade cerebral da criança para ela armazenar melhor. É uma aula dinâmica, fácil de entender e rápida. O que eu discuto na educação é que a informação tem que ser enxugada. O ensino é fundamental, e por isso é o básico. Por que massacrar uma criança com folhas e mais folhas de um livro sobre uma mesma coisa? No ensino médio, sim, o aluno pode aprofundar esses temas.

Os pais vêm aqui?

YBM: Sempre que possível. Mas não faço reunião de pais. Cada caso é único.

Como você concilia esses dois mundos, da sua vida privada, com facilidades materiais, e a dessas crianças, que são privadas de necessidades básicas?

YBM: Sei separar muito bem as coisas. Mas é impressionante como eu sou atacada no meu próprio meio social. Tudo porque eu faço um trabalho social com crianças numa favela. Não sou bem vista em muitos desses lugares. É tão complicado que nem em clubes eu sou aceita. Levo bola preta. As pessoas têm medo que eu leve os meninos da Maré para dentro dos clubes. É uma mentalidade meio nazista, mas existe. Eu tenho uma camerata de 30 meninos que toca no museu uma vez por mês. Uma vez foi tocar num clube e tivemos problemas. Falaram que os meninos podiam tocar, mas não podiam transitar pelo local. Existe uma incompreensão e fico muito triste com isso.

Onde, por exemplo, existe essa discriminação?

YBM: Por exemplo, no Teresópolis Golf Club, onde eu tive que lutar para ser aceita. Levou dois anos para me aceitarem.

A elite não compreende a pobreza?

YBM: A elite não quer saber da pobreza, a não ser quando serve a ela. Contrata uma empregada doméstica e não se envolve, não sabe da vida dela. Existe um status quo no Brasil, que quer manter a divisão de classes e a sobrevivência da elite. Quando falo essas coisas, sou atacada:

“Ah, mas você é elite”, dizem. Com certeza, sou da elite, mas não insensível à injustiça social. Veja, minha origem é de classe média. Estudei muito para chegar onde cheguei. O problema é que vivemos num mundo dividido entre nós e eles. Às vezes eu pergunto: quem são eles? E me respondem: os outros. Ora, que outros? Somos um só!

Qual o caminho para a melhoria social?

YBM: E existe essa compreensão de que se pode ser boazinha, pode ajudar, mas não mudar o status quo. É isso o que está acontecendo no Brasil. A mudança não serve. Não que todo mundo vai ser igual, mas no Brasil a distância entre as classes é muito grande, e tem que diminuir, como é em países desenvolvidos, onde existe o menos e o mais, mas não existe o menos e o menos. Ora, recebo aqui crianças desnutridas, em pleno 2017, a 15 minutos da Zona Sul do Rio de Janeiro. Então existe uma incompreensão daquilo que eu falo. O que eu quero é que esses meninos e meninas estudem, se formem e sejam bons cidadãos e consigam sair da pobreza. A pobreza não pode ser uma condenação eterna.

Qual o seu credo político?

YBM: Eu sou uma pessoa ideológica, e meu credo político é a social-democracia. Vivi 20 anos na Suécia e aprendi o que é a social-democracia; para mim, o melhor sistema de governo. O problema é que dos anos 70 para cá a social-democracia acabou, nem na Suécia tem mais. Mas é uma forma de governo em que a distância entre ricos e pobres não é grande.

Defende então uma forte presença do Estado?

YBM: É engano achar que a Suécia é altamente estatizada. Não, na Suécia o Estado só participa com 18% da economia, mas está presente naquilo que é essencial, educação, saúde e outros serviços básicos, o resto é livre iniciativa. São cobrados impostos e há um controle. Não é como aqui, que é ao deus-dará. Não é à toa que a Suécia está entre os países mais desenvolvidos.

E no Brasil, como vê o papel das empresas privadas nos problemas sociais?

YBM: Existem ações pontuais, mas infelizmente o Brasil ainda não tem essa cultura da participação ativa das empresas na questão social, como têm os Estados Unidos, a Alemanha e os países escandinavos. Ainda estamos engatinhando na Responsabilidade Social. Considere que as empresas também estão passando dificuldades. À parte os grandes ladrões, todos estamos passando por dificuldades.

Por que você, com formação intelectual, em vez de voltar-se para a vida acadêmica quis colocar a mão na massa?

YBM: Se estivesse só na academia teria acesso ao valor teórico dos problemas. Mas não quero isso. Quando qualifico professores, recém-formados em Pedagogia, vejo que eles não têm a experiência de educar crianças em zonas de risco, não têm noção dos problemas que vão encontrar nos alunos, como os de natureza cognitiva, de concentração. A academia é importante para aprender as coisas, mas ela pode ser enriquecida com a experiência em sala de aula. É para isso que me dedico a como melhorar o aprendizado em sala de aula em zonas de risco.

Qual o tamanho do risco?

YBM: Tiros, guerra entre polícia e bandido, tudo o que pode imaginar. Mas esse é o meu trabalho, o meu campo de pesquisa. Acabo de chegar da Suécia e da Alemanha, onde capacitei 250 professores que lidam com crianças refugiadas que chegam da Síria, Afeganistão, Somália ou Mali e nunca frequentaram uma escola. Como absorver essas crianças num esquema rígido que a escola tradicional desses países impõe?

O Uerê está se internacionalizando?

YBM: Crianças precisam de ajuda em todo o mundo. O problema é o mesmo. Agora vamos capacitar professores numa escola similar ao Uerê, que estamos montando num campo de refugiados na Grécia.

Como está a educação no Brasil?

YBM: A educação no Brasil é muito ruim, há anos, e não muda. Aqui escola pública é escola para pobre, não sei porque isso, uma educação para uns e uma educação para outros, de novo o eles e nós. Nos Estados Unidos 95% das crianças do ensino fundamental estão em escolas públicas. Na Suécia 100%, independentemente de classe social. Na França 90% das crianças estão em escolas públicas. Esta convivência entre ricos e pobres no mesmo espaço traz um intercâmbio produtivo para todos, com qualidade de ensino igual para todos. Aqui não. O sujeito ganha pouco, mas coloca o filho em escola particular, mesmo que seja ruim. Se os políticos não colocarem seus filhos nas escolas públicas elas nunca vão ter qualidade. Agora, a educação não pode ser um reduto fechado. Tem que estar aberta às novas conquistas, às novas estratégias. Mas não adianta querer importar modelos educacionais que dão certo nos seus países, como o finlandês, mas são estranhos à nossa realidade.

A educação é antídoto contra a violência?

YBM: Sem dúvida, não há outra solução. Há no Brasil uma quantidade enorme de crianças que não estudam. Não se tem um censo de quantos meninos entre 10 e 14 anos estão fora da escola. Mas eu digo: são muitos. No Degase, 90% dos menores infratores não terminaram o quarto ano do ensino fundamental. Porque esses meninos saíram da escola, o que não funcionou? Esta é a discussão fundamental no Brasil hoje. Sem resolver isso não iremos a lugar nenhum.

Quando começou a trabalhar com crianças?

YBM: Trabalho com crianças desde que era criança. Tive uma infância complicada. Meu pai não era muito chegado aos filhos e aparecia de vez em quando. Minha mãe era funcionária pública federal e desquitada, o que era um estigma na época. Estudei em escola católica e sofri muito bullying por conta disso. Com seis anos, as freiras me proibiam de dizer que era filha de mãe desquitada e era obrigada a mentir que meu pai tinha falecido. Era uma situação em que eu não podia ser eu, mas um personagem, e só assim seria aceita naquele meio de meninas com famílias mais estruturadas do que a minha. Com onze, doze anos, lembro que acompanhava minha mãe em visita a orfanatos e eu passei a compreender aquelas crianças e achava que elas me compreendiam. Nessa idade eu lia para crianças cegas do Instituto Benjamim Constant e aos sábados era voluntária na unidade da Pestalozzi, no Leme, que tratava de crianças com necessidades especiais. Eu me sentia parecida com estas crianças, achava que eu pertencia mais àquele do que a outro lugar. Este sentimento de não pertencer me persegue até hoje. Em 1980, me separei e voltei para o Brasil com os três filhos. Quando cheguei me espantei com a quantidade de crianças nas ruas e achei que tinha que trabalhar com isso. Trabalhei 13 anos nas ruas do Rio, com quatro grupos: dois em Copacabana, um em Madureira e outro na Candelária.

Foi com as crianças da Candelária que houve o massacre feito por PMs…

YBM: Sim, era um dos grupos que eu atendia diariamente. Eram 72 crianças. Eu dava uma moeda para me telefonarem se tivesse algum problema. Eram quinze para a meia-noite, e toda a minha família estava dormindo, menos eu, que assistia televisão e, curioso, estava vestida quando recebi o telefone de um dos meninos dizendo que os policiais estavam matando todo mundo. Peguei o carro, e cheguei no local antes da imprensa. E foi assim que o trabalho que eu fazia ficou conhecido. Lembro que naquela hora, sentada no chão com os meninos sobreviventes eu pensei: “Caramba, a partir de hoje minha vida vai mudar”.

Como nasceu a Escola Uerê?

YBM: Em 1993, meses depois do massacre, eu e as crianças montamos a primeira escola Uerê debaixo de um viaduto, com tapumes recolhidos na rua. Era perto de uma favela e chegou a receber 200 crianças. Fizemos um banheiro, mas não tinha esgoto e puxávamos água do cano da CEDAE. Foi um negócio de louco. Trabalhei nessa escola quatro anos. Improvisamos uma cozinha, e a cozinheira, ex-menina de rua, está no projeto até hoje.

Quando o Projeto veio para a Maré?
YBM: Foi em 1998, quatro anos depois, quando recebemos uma doação para comprar a primeira casa aqui na Maré e fundamos oficialmente o Uerê. Há 20 anos estamos aqui, por onde já passaram mais de sete mil crianças, com estrutura, escola bem montada.

Quem financia o projeto?

YBM: Vem recurso de tudo quanto é lado. No Brasil os maiores doadores são duas empresas, a Norsul e Continental. Mas há pessoas físicas, fundações europeias. É muita gente, fora os editais de projetos que nós ganhamos e implementamos. Acabamos de ganhar um edital da Air France, entre 680 organizações.

Como você convive com a guerra entre facções de traficantes, tiroteio, polícia e bandido?

YBM: Minha relação com todos é de respeito. Não vou dizer que ignoro o que está acontecendo. Conheço os traficantes, os filhos dos traficantes. A polícia conheço menos porque muda muito. Estabelecemos regras de convivência. Ninguém entra aqui armado. Aqui o traficante vira o pai da criança que quer ver o seu filho aprender como todos os outros. Aqui é tudo aberto, não tem nenhuma porta fechada. Nunca fomos assaltados, nenhum tipo de violência aconteceu aqui. Eu tenho aqui um painel escrito “Escola, não atire” visível aos helicópteros da polícia. Nunca tive problema aqui.

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