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1 de fevereiro de 2017

O homem certo no lugar certo em defesa do interesse público

O novo diretor-presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, ocupante do cargo desde o dia 1º de janeiro deste ano, é um homem talhado para a função. O Instituto, uma Organização Social de Interesse Público (OSIP) criada em 1998, tem como missão prioritária sensibilizar as empresas para a prática da Responsabilidade Social. Trata-se de um figurino sob medida para o novo dirigente, que atua há 14 anos na entidade, inicialmente como assessor de políticas públicas. Magri não apenas transita com desenvoltura entre as empresas privadas, mas também conhece como poucos os escaninhos da diplomacia e da política para levar às organizações o mantra da inclusão social.

A formação humanística deve ajudar Magri na sua peregrinação, no meio empresarial, com a bandeira da Responsabilidade Social. Graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e coordenador do Programa de Políticas Públicas para Juventude da Prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Em 2003 integrou a assessoria de Políticas Públicas do governo Lula, tornando-se depois gerente-executivo de Práticas Empresariais e Políticas Públicas. Nesta entrevista exclusiva a NÓS, ele aborda o tema da Responsabilidade Social Corporativa sob diversos ângulos e faz uma advertência: “Empresas que não adotarem a agenda social não vão sobreviver”.

Nós: Como novo presidente do Instituto Ethos, quais são seus planos?

Caio Magri: TTrabalhei muito para o Instituto Ethos na construção do que se tornou a entidade ao longo deste tempo. O Ethos foi o primeiro a criar indicadores capazes de desenvolver uma métrica de Responsabilidade Social corporativa que estamos aperfeiçoando ao longo do tempo. Vejo grandes desafios nessa agenda à frente do Ethos. O primeiro será fazer com que as empresas estabeleçam a conexão da Responsabilidade Social com sua cadeia de valor. Hoje há empresas que têm boas práticas nesse sentido, mas isso não ocorre com os seus parceiros comerciais e fornecedores. Outro desafio será fazer com que a prática da inclusão social seja parte das definições de negócio das empresas, dos seus investimentos, tendo a sustentabilidade e a responsabilidade social como fatores estratégicos para crescer e continuar existindo. Para isso, a Responsabilidade Social não pode estar restrita a uma determinada área – gerência ou mesmo diretoria –, mas permear toda a organização; da área financeira a de compras, da gestão de pessoas ao marketing, tudo deve estar integrado. A Responsabilidade Social deve fazer parte das decisões estratégicas das organizações, da pauta dos Conselhos de Administração, envolver investidores, empregados, acionistas e parceiros comerciais. Outra prioridade é trabalhar para que as empresas promovam cada vez mais o respeito aos direitos humanos e a redução dos impactos ambientais na sua atividade e garantir, com isso, um crescimento sustentável do negócio.

As empresas brasileiras adotaram o conceito de sustentabilidade do negócio?

CM: Muitas sim, mas é preciso avançar mais, ter a sustentabilidade como novo paradigma, embutido no conceito de negócio, na cultura da empresa. A empresa moderna, sustentável, deve participar do processo político, e não me refiro aqui a atuar partidariamente, mas dialogar com o Estado para melhorar as políticas públicas no País. Uma empresa, por exemplo, que tem projetos sociais voltados para a Educação, precisa dialogar com o governo para ampliar esta ação e integrá-la às políticas públicas. Não pode tocar o seu projeto de forma estanque, sem estar associado a um sistema maior envolvendo o poder público. Só o Estado é capaz de universalizar uma política de Educação.

Investir em projetos sociais dá lucro?

CM: Quando se fala em projetos sociais, precisamos definir aqueles que as empresas desenvolvem, financiam, investem e são parceiras. Vamos pensar primeiramente nas ações que estão ligadas ao negócio da empresa que proporcionam produtividade, melhor capacitação e reconhecimento por parte dos seus empregados, clientes, parceiros comerciais e demais stakeholders. Quando, por exemplo, uma empresa pratica a diversidade de gênero, raça, dentro de casa, promovendo a equidade entre homens e mulheres, não está apenas, num sentido amplo, promovendo a redução da desigualdade, o que é um ganho social como um todo. Com essa atitude estará, sobretudo, fomentando a melhoria do clima interno, tornando o ambiente de trabalho mais agradável. Com isso, reterá os talentos internamente, garantindo o retorno do investimento que fez em capacitação dos seus quadros, que vão preferir continuar na empresa, mesmo com um salário menor que o oferecido no mercado, Não há a menor dúvida de que isso tudo se refletirá positivamente nos resultados do seu negócio.

As políticas internas de compliance também podem ser contabilizadas positivamente no balanço da empresa?

CM: O zelo pela ética nos negócios, o cuidado com a qualidade do produto, o respeito ao consumidor, sim, são ativos que se refletirão nos resultados da empresa e reforçarão positivamente seu perfil reputacional. Agindo dessa maneira o marketing de uma empresa inclusiva e ética será real, verdadeiro na sua comunicação com o mercado.

É legítimo que as empresas capitalizem como marketing social seus feitos em Responsabilidade Social?

CM: Sim. Desde que seja transparente e possa ser demonstrado e constatado pela comunidade beneficiada. E nessa comunicação dar voz aos beneficiados.

E quanto às demais ações inclusivas que estão fora do negócio-fim da companhia? O quanto representam em ganhos para a empresa?

CM: Os projetos sociais inclusivos das empresas que promovem a redução da desigualdade na sociedade em que estão inseridas, e mesmo fora delas, representam ganhos indiretos importantes. Com isso, a empresa estabelece uma relação positiva com a sociedade e será reconhecida. Uma empresa, por exemplo, que estabelece um diálogo com a comunidade no seu entorno, que investe em programas educacionais, infraestrutura, saúde, cultura, atividades esportivas, de melhoria da qualidade de vida, certamente será reconhecida e respeitada socialmente e pelos demais stakeholders.

O ganho, nesses casos, é essencialmente reputacional?

CM: Não apenas. Com ações inclusivas que beneficiam diretamente uma comunidade, que se expressam pela melhoria da qualidade de vida e se estendem para um aumento da capacidade de consumo, a empresa estará fortalecendo o mercado interno. Não há possibilidade de crescimento para nenhuma empresa no mundo sem políticas públicas que ajudem a fortalecer o mercado interno. O mercado precisa ser fortalecido para que haja crescimento econômico, e as empresas têm papel fundamental nesse processo.

As empresas brasileiras estão conscientes da sua Responsabilidade Social?

CM: O investimento social privado, nestes últimos 20 anos, faz parte do negócio. Mas o fundamental é a empresa trazer essa visão para dentro da sua gestão, para os seus processos de geração de riqueza, de trabalho, de produção, de inovação. É onde se revela a Responsabilidade Social, onde estão embutidos os valores da empresa, como a transparência, a ética, a preocupação com o ambiente, a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, da comunidade. As empresas que não adotarem a agenda social, que está intrinsicamente ligada ao negócio, não terão sustentabilidade e, portanto, não sobreviverão.

E o combate à corrupção?

CM: Estamos falando de empresas transparentes, íntegras, que combatem a corrupção, o que é uma questão central do País. Uma empresa que tenha mecanismos efetivos internos de combate à corrupção está ajudando a preservar a qualidade dos recursos públicos. A corrupção nada mais é do que uma forma de desviar os recursos do Estado, da sociedade, os quais deveriam ser investidos em saúde, educação e serviços básicos. Integridade, inclusão social e respeito ao ambiente são questões-chaves da agenda de Responsabilidade Social das empresas.

Como avalia o estágio das empresas brasileiras na agenda social?

CM: Há 20 anos o Instituto Ethos trabalha indicadores que podem medir a ação das empresas no campo da Responsabilidade Social. Temos indicadores que acabam com aquela visão impressionista que muitos ainda têm sobre esta questão. É bom que se saiba que existem empresas no Brasil que são referências globais, outras que chegaram a um nível médio, mas há também as que sequer tomaram conhecimento dessa agenda. Temos empresas com um empenho incansável no combate ao trabalho escravo e ao trabalho infantil. Outras que adotam políticas de diversidade e contemplam sua gestão com 50% de mulheres e negros. Temos companhias que investem sobremaneira em redução do impacto ambiental, com programas de redução do consumo de energia e do efeito estufa.

Como estamos nesse quesito, comparativamente aos países desenvolvidos?

CM: Podemos dizer que, na América Latina, as empresas brasileiras são as mais avançadas na inclusão social, e globalmente temos empresas que atuam com excelência na Responsabilidade Social. Estamos avançando, mas para chegar a níveis razoáveis precisamos de uma ação mais profunda, radical. Uma mudança, por exemplo, na relação público-privada, com indução de mudanças por parte dos consumidores, dos financiadores, investidores, que são partes interessadas na melhora desse processo social.

Mas, apesar dos bons exemplos pontuais, a inclusão baseada na diversidade de raça, gênero e pessoas com deficiência ainda é exceção nas políticas de RH das empresas.

CM: Há de fato muito para se melhorar nesse tema. Estamos trabalhando para mudar esse quadro, mas não temos ainda um indicador seguro sobre como está a questão da diversidade nas empresas brasileiras. O que sabemos é que, entre as 500 maiores, muitas já estão adotando políticas de diversidade interna; mas também há aquelas que sequer tomaram contato com esse tema.

A Responsabilidade Social deve ser compulsória, estabelecida em legislação, ou ato espontâneo das organizações?

CM: No caso de empresas que trabalham com bens públicos, a legislação deve ser rígida. Uma mineradora tem envolvimento com o território, o solo, a água, a comunidade do entrono. O solo é propriedade do Estado e cedido para ser explorado sob determinadas condições. Assim, penso que concessionárias de bens públicos, de acesso a bens públicos, devem estar regradas por uma legislação mais rígida, com contrapartidas efetivas e objetivas.

Deveria haver cotas para as empresas, no caso da diversidade de gênero e raça, como ocorre com pessoas com deficiência?

CM: O fato é que não temos ainda uma cultura da diversidade racial, apesar da Lei de Cotas estabelecida para as universidades. Se a diversidade racial não chegar ao mundo corporativo de forma voluntária, é possível que chegaremos, sim, a uma etapa em que as empresas tenham que cumprir cotas para afrodescendentes em seus quadros.

As ações de Responsabilidade Social das empresas estão ocupando um espaço vazio deixado pelo Estado?

CM: Em parte sim, as empresas estão suprindo a ausência do Estado. Isso ocorre por conta de que estamos diante de um estado frágil em relação às suas obrigações com a sociedade, as suas reponsabilidades constitucionais. Mas a inclusão social, que passa pela melhoria das políticas públicas, é uma luta permanente, uma questão da sociedade como um todo. Nesse sentido, o que vemos é um Estado relapso, que está abrindo seu papel de indutor. Não está assumindo o papel de agente de Responsabilidade Social nas suas compras públicas.

Cite um exemplo de indução que o Estado abriu mão.

CM: Note-se que o maior comprador de bens e serviços é o Estado, as prefeituras, os governos estaduais, os órgãos públicos como um todo. É incrível que esses agentes públicos não coloquem, nessa relação de negócio, nenhuma condição que estimule a Responsabilidade Social das empresas. Se tivéssemos uma legislação que induzisse, que orientasse as empresas a estarem fornecendo para o Estado sob determinadas condições, teríamos uma aceleração imediata da Responsabilidade Social, não apenas empresarial, mas em cadeia, do governo e da sociedade como um todo. Ora, o Estado brasileiro não pode continuar com seus processos de licitações públicas para compra de bens e serviços sem considerar a responsabilidade social dos fornecedores. Essa é uma questão-chave. À sociedade interessa comprar bens e serviços que tragam efetivo benefício social, que tenham baixo impacto ambiental. A madeira, que não seja produto de desmatamento ilegal, ou a carne, devidamente certificada, são itens de primeira hora dessa responsabilidade social para com a sociedade que as consomem. Que os produtos tenham certificação de que não resultam de trabalho degradante. O Estado não faz nada nessa direção.

O Estado tem trabalhado com Empresas Sociais, uma modalidade de empresa do terceiro setor que prestam serviços básicos e podem auferir lucro se reinvestir no negócio. Como vê a atuação destas empresas?

CM: Considero que o setor público deve ser estimulado a fazer suas compras com empresas que reinvestem seus lucros no negócio social, seja melhorando tecnologia, qualificando empregados e reduzindo preços para tornar serviços mais acessíveis à população, principalmente de baixa renda.

Na área de Saúde há amplo espaço no segmento de baixa renda para a atuação de empresas sociais.

CM: Sim. Mas isso não deve significar que, por ser de menor custo, a qualidade do serviço também será menor. Pelo contrário, como reinvestem seu lucro no negócio, devem oferecer serviços de qualidade para o atendimento da população menos favorecida.

As Empresas Sociais devem ser financeiramente autossuficientes, gerar sua própria receita ou devem ser mantidas por meio de doações das empresas ou do Estado?

CM: Acho interessante, nessa questão, a evolução de empresas desse tipo para o que está sendo chamado de Empresa B. São empresas que têm como modelo de negócio o desenvolvimento sustentável, e, por isso, os seus impactos sociais e ambientais estão no mesmo patamar que a busca por resultados financeiros. As empresas do sistema B estão mostrando que podem ser financeiramente bem-sucedidas no negócio e gerar inclusão social.

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