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20 de abril de 2018

O negócio social é um prato cheio e sustentável

Entender a Responsabilidade Social Corporativa como benemerência, pura e simples, separando-a do negócio fim pode ser uma visão limitada do papel das empresas no campo social. A rede Carrefour, maior distribuidor de alimentos do País, está redirecionando seus negócios para o segmento de “transição alimentar” – aliás, o novo mantra da rede mundial – e espera, com isso, alimentar melhor e mais as pessoas, de um lado, e, ora, aumentar seus lucros, de outro. “A transição alimentar é o maior investimento social do Carrefour no Brasil”, explica Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Carrefour Brasil.

É com a venda de produtos mais saudáveis, a um custo mais baixo e de produção sustentável, que, de acordo o seu plano de negócios para os próximos cinco anos, o Carrefour espera estar na liderança mundial do segmento de transição alimentar. Isso vale para todos os supermercados da rede no mundo. No Brasil de muitas panelas vazias, que com a crise corre o risco de voltar ao mapa mundial da fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o buraco da alimentação é mais embaixo.

No Brasil das desigualdades, onde a transição alimentar propriamente dita ainda não chegou ao consumo de massa, o Carrefour teve
que topicalizá-la, ajustá-la aos termos da Responsabilidade Social Corporativa convencional. Ou seja, os projetos que seguem nessa linha junto a populações de baixa renda, incorporam ações inclusivas de primeira hora simultaneamente à disseminação da cultura de sustentabilidade, que inclui alimentos orgânicos e mais saudáveis. “A ideia de transição alimentar tem que ser mais acessível aos mais pobres”, reconhece Pianez. “Uma vez incluídas, as pessoas poderão acessar os alimentos mais saudáveis.” Seria como esperar o bolo crescer.

Dado que, então, a transição alimentar ainda não se reflete inteiramente nas gôndolas dos supermercados da rede, ela pode ser auferida nos 15 projetos empreendidos em 2017 junto a populações de baixa renda, que beneficiou 12.218 pessoas. Segundo o Instituto Carrefour, o braço de Responsabilidade Social da rede de supermercados, nesse ano foram doadas mais de 1,6 tonelada de alimentos, no âmbito de um programa anual em que o Grupo Carrefour Brasil doa alimentos para programas de combate à fome no País. Os itens arrecadados nos seus hipermercados e lojas de autosserviço do Atacadão são encaminhados aos bancos de alimentos cadastrados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e doados ao Programa Mesa Brasil do SESC (Serviço Social do Comércio).

Essa e as demais operações de Responsabilidade Social sob a alçada do Carrefour contam com um exército respeitável de voluntariado egresso dos quadros da companhia. Cada funcionário dispõe de quatro horas mensais livres do expediente para exercer trabalho voluntário. No ano passado, cerca de 1.000 colaboradores do Carrefour Brasil dedicaram, somadas, mais de 3 mil horas de trabalho voluntário, impactando 40 organizações sociais do Brasil.

O Carrefour desenvolve seus projetos sociais publicando editais que, uma vez concluídos, resultam em parcerias com ONGs de comprovada expertise na área em que a rede pretende atuar. Empresa privada, o Instituto banca seus projetos com verbas do próprio Carrefour Brasil e da Fundação Carrefour, na França, que, por meio de um alinhamento global, subsidia projetos de Responsabilidade Social da rede em todo o mundo. No entanto, guardadas suas características, cada país tem autonomia para ajustar os projetos à sua realidade.

O investimento social do Carre­four em comunidades em situação de vulnerabilidade social, explica Pianez, se concretiza em projetos que atuam em três grandes eixos integrados: educação alimentar, produção de alimentos sustentáveis e geração de renda. A educação tem ligação direta com o conceito de sustentabilidade, hoje uma certificação obrigatória para as empresas. Por meio de cursos ministrados por ONGs parceiras, os participantes aprendem conceitos básicos de consumo e produção de alimentos saudáveis, que não causam impactos danosos ao meio ambiente.

Uma dessas parcerias é com a Gastromotiva, uma das principais ONGs brasileiras no campo da gastronomia social. Criada em 2006, em São Paulo, pelo chef curitibano Davi Hertz, a Gastromotiva é totalmente financiada por empresas e desenvolve projetos de capacitação e empreendedorismo em gastronomia para jovens de baixa renda e até detentos. Em 2013, a ONG instalou uma unidade na Lapa, onde ministra seus cursos. Desde 2015, em parceria com a Gastromotiva, o Carrefour oferece para jovens em situação de vulnerabilidade social o curso profissionalizante em cozinha, cujo propósito é utilizar a comida como um agente de transformação e mudança social. Em 2017, mais de 100 jovens foram formados.

Durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, a ONG implementou, com o patrocínio da Fundação Carrefour, o Refettorio Gastromotiva, criado inicialmente para servir refeições a partir da comida excedente do complexo olímpico. Após os jogos o restaurante ampliou suas atividades, tornando-se um restaurante-escola permanente no bairro da Lapa. Além de promover cursos de gastronomia, atualmente o Refettorio opera em dois formatos: durante o almoço, o espaço é aberto ao público e as refeições cobradas; à noite, o jantar, reservado para pessoas em situação de grande vulnerabilidade, é gratuito. Seguindo a máxima “pague um almoço e deixe um jantar”, o pagante subsidia o jantar do mais pobre. Em 2017, mais de 63.000 pessoas foram beneficiadas com o projeto.

O incentivo à produção e ao consumo de alimentos sustentáveis junto a comunidades de grande vulnerabilidade social, outro grande eixo do investimento social do Carrefour, pode parecer utópico se for levada em conta a premissa de que estas populações, por definição, têm pouco acesso à alimentação convencional. Mas, neste particular, o Amigos do Bem, uma ONG apoiada pelo Instituto Carrefour, que atua nos estados de Alagoas, Ceará e Pernambuco, tem muitas histórias de superação para contar. Mais de 60 mil pessoas tiveram suas vidas transformadas com benefícios nas áreas de educação, saúde, trabalho e infraestrutura.

Em parceria com o Amigos do Bem, o Carrefour promove a educação nutricional e a consciência sobre alimentação saudável por meio do cultivo de hortas, aproveitamento integral dos alimentos, conhecimento dos alimentos regionais e técnicas culinárias. No ano passado, quando foi firmada a parceria, que continua, cerca de 700 jovens foram capacitados. Nos cursos, além do aprendizado teórico, os alunos aprendem, usando princípios da agroecologia, e do melhor aproveitamento do solo, a cozinhar, a se alimentar com valor nutricional e a plantar sem impacto ambiental.

A geração de renda, que completa o tripé vetorial da Responsabilidade Social do Carrefour, está imbricada com as duas outras vertentes da ação social da empresa. Segue que, ao mesmo tempo que desenvolvem a educação alimentar e produzem seus próprios alimentos, os participantes dos projetos se habilitam para o mercado de trabalho ou viabilizam o próprio empreendimento, numa ação em cadeia. Isso ocorre mais especificamente nos projetos para produção de alimentos junto a pequenas comunidades. “Na agricultura familiar apoiamos projetos orgânicos, sustentáveis e autossustentáveis, que apontem para a melhoria social e econômica dos produtores”, diz o diretor do Instituto Carrefour.

Outro projeto social conectado ao todo alimentar é o Conexão Varejo, desenvolvido pela ONG Rede Cidadã e apoiado simultaneamente pelo Instituto Carrefour e pela Fundação Carrefour. Voltado para a capacitação de jovens e adultos para o setor de varejo alimentar, o curso foi criado em 2015 e forma em média mais de 2 mil novos profissionais a cada ano. A melhor notícia é que cerca de 30% são incorporados ao quadro da companhia.

Além de homens e mulheres, o Conexão Varejo já formou 51 pes­soas transgêneras, e 17 dessas foram contratadas pela rede. Hoje há cerca de 30 transgêneros trabalhando na empresa. Essas pessoas podem também se candidatar a todas as vagas disponibilizadas no Carrefour, pelos processos seletivos regulares disponíveis nas células de seleção e lojas da rede espalhadas pelo Brasil. Todos os parceiros do Carrefour envolvidos nas seleções têm seu trabalho orientado e acompanhado regularmente pelos critérios definidos na Plataforma de Valorização da Diversidade.

O curso tem carga horária de 60 horas, sendo as primeiras 40 horas destinadas à formação pessoal, autoconhecimento e desenvolvimento humano. Esse módulo aborda questões diversas, como autoestima, empoderamento pessoal, técnicas para aumentar a atenção e concentração. Os alunos também contam com orientação profissional e formação especializada em varejo com conteúdo desenvolvido pela escola de supermercado da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Após a conclusão do curso, os jovens e adultos são selecionados para um banco de talentos e depois podem participar dos processos seletivos das empresas parceiras do projeto da Rede Cidadã.

Os refugiados na diversidade

Nos últimos anos, a valorização da diversidade, o respeito aos Direitos Humanos e a inclusão social têm sido bandeiras persistentes nas mensagens do Carrefour. E também na sua prática. Recentemente, o Carrefour incorporou mais uma minoria de marginalizados ao seu sistema solidário, os refugiados. Em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), a rede de supermercados apoiou o Projeto Empoderando Refugiadas, nos anos de 2016 e 2017. Até o ano passado o projeto tinha viabilizado a contratação por empresas privadas de 21 mulheres refugiadas.

Das maiores empregadoras privadas do país, a rede Carrefour tem entre seus funcionários imigrantes do Haiti, Senegal, Macedônia, Togo, República Democrática do Congo e Peru. Os profissionais chegam até a empresa por meio das células de RH em loja, por processos seletivos abertos ou após finalização de cursos de capacitação.

Praticar a diversidade dentro e fora de casa é uma tradição mundial do Carrefour. No Brasil, desde 2013 a rede conta com a Plataforma de Valorização da Diversidade, que tem como objetivo promover a inclusão junto a seus colaboradores, clientes e parceiros. Internamente, o Grupo de Afinidade LGBT (GALGBT) e o Grupo de Afinidade Racial (GARU) se reúnem regularmente a fim de acompanhar e aprimorar os resultados de cada uma das iniciativas da Plataforma, entre palestras, fóruns e materiais para uso interno, como o Código de Ética do Carrefour e a cartilha “Valorizamos a Diversidade”.

A cartilha reúne informações sobre o que é a diversidade e as boas práticas e valores da companhia, trazendo ainda orientações sobre como solucionar possíveis situações de conflito nas questões relacionadas à nacionalidade, raça, orientação sexual, gênero, religião, idade, aparência, além de deficiências. A rede conta ainda com um Comitê de Valorização da Diversidade, que se reúne regularmente na empresa a fim de monitorar a demografia interna, acompanhar e aprimorar os resultados dessas ações e garantir que o tema diversidade seja transversal em toda a companhia.

Alimento para o mundo

Com mais de 364 mil funcionários, distribuídos em 10.860 lojas em 33 países, a rede Carrefour, fundada em 1959, em Annecy, na região de Rhône-Alpes francesa, é um dos maiores distribuidores de alimentos do mundo. No Brasil, desde 1975, onde opera com ampla rede de hipermercados, drogaria, postos de combustíveis e atacado, tem 82 mil empregados nas
576 lojas, espalhadas em 26 estados e no Distrito Federal.

Apesar da crise, o Carrefour Brasil não para de crescer. Para o ano de 2018, o Grupo estima abrir 20 novas lojas do Atacadão, 20 lojas de conveniência Express e 10 novas lojas de supermercado no formato Market.

No ano passado, o Carrefour realizou IPO na Bolsa brasileira, movimentando R$ 5,125 bilhões, a maior abertura de capital na instituição desde 2013. No primeiro trimestre de 2018 a rede registrou vendas brutas consolidadas, excluindo gasolina, de R$ 12,3 bilhões (ou R$ 13,0 bilhões incluindo gasolina), uma evolução de 6,0% em relação ao trimestre anterior.

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