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12 de abril de 2018

O valor social da memória

Na história das grandes organizações parece haver um elo entre o passado e o futuro que se perde no pragmatismo dos negócios. A cultura do esquecimento, porém, não se cria no Centro de Memória da Fundação Bunge, braço de Responsabilidade Social do Grupo Bunge, um gigante do agronegócio brasileiro e mundial. Instalado em um edifício no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, o Centro conduz a uma viagem no tempo, com áudios, imagens, documentos, mobiliário e farto material iconográfico que contam mais de um século da história da empresa e do Brasil. O acervo inclui, entre outras preciosidades, um alvará de funcionamento do Moinho Fluminense, concedido pela Princesa Isabel, correspondências dos presidentes Getúlio Vargas e Gaspar Dutra, áudios com as vozes das rainhas do rádio Dolores Duran, Dircinha Batista, Elizeth Cardoso e Linda Batista, além de jingles nostálgicos da margarina Primor e do Sabão Gaúcho.

Considerado um dos mais ricos acervos de memória empresarial do Brasil, o Centro de Memória Bunge foi criado e vem sendo mantido pela Fundação Bunge desde 1994. Foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e presta gratuitamente consultoria a empresas interessadas em resgatar a sua memória, atende a pesquisas externas, promove exposições, recebe estudantes e está acessível ao público por meio digital. Desde 2004, o Centro promove anualmente as Jornadas Culturais, uma série de palestras e oficinas gratuitas ministradas por re­-
nomados profissionais sobre a importância da preservação de acervos históricos e patrimoniais.

Os números que constam no Relatório de Sustentabilidade da Bunge dão uma ideia do tamanho e das ações do Centro de Memória. No ano passado foram manuseados, tratados e organizados 3.709.035 documentos, com o restauro de 977 peças históricas, entre livros, fitas em rolo e discos de vinil. O Centro atendeu, neste ano, a 48.316 pesquisas, recebeu 76 visitas técnicas (benchmarking) e promoveu duas Jornadas Culturais que reuniram 360 participantes. “A história da Bunge está muito ligada ao desenvolvimento do trigo e na modernização do parque fabril brasileiro”, diz Juliana Santanna, gerente de Projetos Sociais da Fundação Bunge.

Não é, de fato, um vago clichê se mencionar que a história da Bunge no Brasil se confunde com a do País. Na verdade, há uma pré-história, cuja marca é o ano de 1887, quando o Moinho Fluminense – depois adquirido pela Bunge em 1914 – recebeu o alvará de funcionamento assinado pela Princesa Isabel. O prédio, localizado na área portuária do Rio de Janeiro, na época capital do País, em 1893 serviu de abrigo ao então ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, por ocasião da Revolta Armada, movimento liderado por unidades da Marinha contra o presidente Floriano Peixoto.

Em julho de 2011, a Bunge iniciou projeto de recuperação da fachada original do Moinho Fluminense. Em estilo eclético, com detalhes vitorianos e neoclássicos, foi integrado ao Projeto Porto Maravilha, de revitalização urbana da Região Portuária do Rio de Janeiro. Quase 100 anos depois de adquiri-lo, a Bunge vendeu o imóvel à empresa de investimentos Vinci Partners, que o transformou em um grande e moderno complexo empresarial, residencial e hoteleiro.

A Bunge chegou ao Brasil em 1905 associada ao Moinho Santista, instalado em Santos, concebido para a moagem de trigo, comércio de farinha e farelos e fabricação de massas e congêneres. Em 1927, já com sua sede transferida para a capital paulista, a Bunge adquiriu o cinema São Bento, na área central da cidade, numa diversificação de negócios impensável nos dias de hoje para um grupo moageiro. A sala foi inaugurada na noite de 10 de setembro de 1927, com a exibição de Tristeza de Satanás (ou Sorrow of Satan, no original em inglês), da Paramount, um cult do cinema mudo da época. O São Bento pertenceu à Bunge até 1928, quando foi vendido pelo valor de 1.850 contos de réis.

A história do pão francês, quem diria, também faz parte do acervo Centro de Memória Bunge. Faz sentido, uma vez que está ligada à fase inicial do processo de industrialização no Brasil. Segue que, ao final dos anos 20, a empresa havia lançado a margarina Salada, feita de gordura vegetal extraída dos resíduos do algodão, matéria-prima da crescente indústria têxtil da época. Pois no rastro da margarina veio o pão francês, muito consumido na Europa, mas até então pouco difundido no Brasil. A Bunge fez propaganda espalhando cartazes sobre as vantagens do produto e, de quebra, da qualidade da sua farinha. Na sequência, a elite que viajava à Europa teria trazido a receita do pão francês, que foi copiada pelos padeiros locais.

O Centro de Memória Bunge está conectado a um sistema mais amplo de estímulo à cultura que, por sua vez, está debaixo do chapéu da Fundação Bunge, cujas ações, segundo estimativa da instituição, impactam mais de 117 mil pessoas. Isso inclui, entre outros, os projetos Semear Leitores, o Comunidade Educativa, o Comunidade Integrada e o Prêmio Bunge. Em 2017, para viabilizar todas as suas ações de Reponsabilidade Social, a Fundação investiu quase R$ 5 milhões, entre receitas próprias, adquiridas com doações e de trabalhos voluntários. Como o montante não foi o suficiente para cobrir o leque de despesas financeiras, tributárias e operacionais superiores a R$ 8 milhões no final das contas, de acordo com o balanço da instituição, a Fundação arcou com a diferença de R$ 3,4 milhões.

Mas valeu a pena. Tome-se o Semear Leitores, coordenado pela Fundação Bunge e realizado em parceria diversas secretarias de Educação municipais. Desde que foi criado, há cinco anos, está presente em 21 municípios de nove estados brasileiros. Até agora, o programa possibilitou a implantação de 32 espaços lúdicos, onde se contam histórias, trocam-se livros, promovem-se feiras literárias, apresentações teatrais, oficinas, palestras e formam-se mediadores de leitura – profissionais responsáveis por estimular nas crianças o gosto pelos livros e pela leitura.

O Semear Leitores disponibiliza acervo com mais de 600 títulos, renovados semestralmente com o envio de kits de 15 novos livros, e oferece baús lúdicos, com adereços e fantasias que contribuem para as atividades de contar história. Só neste ano, já foram registradas mais de 30 mil visitas e mais de 9 mil empréstimos de livros. Em 2017, os espaços de leitura, concebidos para serem lúdicos e atrativos à leitura, receberam cerca de 290 mil visitas e 53% das crianças levaram livros emprestados.

Em agosto último, a Fundação Bunge formou, na Escola Municipal ABC, localizada na cidade de Fronteira, em São Paulo, mais 25 mediadores de leitura do seu programa para os municípios de Guaraci, Nova Granada, Orindiúva, Fronteira, Icém, Paulo de Faria, Riolândia e Palestina. No ano passado, no total, foram capacitados 196 profissionais da educação nos estados da Bahia, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Mato Grosso e Tocantins.

Além de semear leitores, a Fundação Bunge aposta na integração com as comunidades onde atua, e isso inclui colaborar na solução dos problemas locais. É justo, dado que o grupo extrai do solo a matéria-prima para o seu negócio. Em 4 de abril último, durante o Global Child Forum, em evento organizado pelo Rei Carl XVI Gustaf e a Rainha Silvia da Suécia, o CEO da Bunge Brasil, Raúl Padilla, apresentou para líderes e influenciadores de empresas, governos, sociedade civil e universidades o trabalho de Proteção Integral à Criança e ao Adolescente, do programa Comunidade Integrada, desenvolvido pela Fundação Bunge no estado do Pará.

O Global Child Forum, fundado em 2009 pela família real sueca, foi organizado em parceria com a Unicef e a Childhood Brasil e reuniu os maiores líderes empresariais para um dia de diálogo, conhecimento e ação com relação aos direitos da criança com o objetivo de identificar oportunidades para que empresas possam criar valor para a sociedade e seus próprios resultados, bem como reduzir as desigualdades investindo no bem-estar, na saúde e na segurança infantil. Não é uma equação simples, mas é possível.

Um bom exemplo é o Comunidade Integrada, que está presente, desde 2014, nos municípios de Barcarena e Itaituba, no Pará, onde a empresa tem operações logísticas. Ao se deparar com o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes na região, a empresa atuou em três frentes. Criou internamente o programa Mão Certa, com campanhas de sensibilização dos transportadores de carga na região, muitos deles envolvidos com a prostituição infantil. “O programa procurava mostrar o impacto da exploração sexual na vida de uma criança, sensibilizando a família do caminhoneiro ou do aquaviário, explicando, por exemplo, que aquela vítima poderia ser seu filho”, conta a gerente de Projetos Sociais da Fundação Bunge.

Houve também cláusulas novas nos contratos com os fornecedores, exigindo que monitorassem a questão. E, ainda, apoio à política pública, com um fluxo de trabalho definido com 80 entidades ao longo de três anos, que inclui a criação de um banco de dados, aplicativo para denúncias e apoio às instituições para o acolhimento das crianças.

As ações contaram com a parceria da Childhood Brasil, que tem um programa voltado ao combate da prostituição infantil nas estradas. Todas as ações do programa são realizadas em parceria com as comunidades, que opinam e fazem sugestões sobre os projetos desenvolvidos, envolvendo ainda o Conselho Tutelar do município, educadores, servidores municipais, policiais, promotoria pública e juízes.

Incialmente, no Tocantins, os desafios do Comunidade Integrada referiam-se à falta de mão de obra e de qualificação dos fornecedores. No município de Pedro Afonso, onde a empresa opera uma usina de açúcar, álcool e produção de energia elétrica, 60% dos trabalhadores eram de outros estados. Em dois anos, por conta de um programa de qualificação da Fundação Bunge em parceria com a prefeitura, a usina passou a contar com 63% de mão de obra local.

Com os fornecedores foi a mesma coisa. Quando a Bunge chegou ao Tocantins, em 2011, trabalhava com menos de 1% de fornecedores locais, por conta da falta de qualificação. No entanto, dois anos depois, após um trabalho desenvolvido em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), 27% dos fornecedores passaram a ser da região, que experimentou mudanças na dinâmica econômica local – mais postos de trabalho, aumento da arrecadação e diversificação do comércio.

Muitas dessas ações da Fundação são sustentadas operacionalmente pelo Comunidade Educativa, um programa de voluntariado corporativo, criado em 2002, que tem por objetivo valorizar o trabalho comunitário em municípios onde a Bunge Brasil está presente. O programa conta com um exército de cerca de 700 voluntários – colaboradores da Bunge – formados mensalmente, que dedicam até duas horas semanais de trabalho para desenvolver atividades lúdicas e culturais em escolas, abrigos de crianças e idosos, espaços comunitários e os espaços de leitura Semear Leitores, também da Fundação Bunge.

Em setembro passado o Comunidade Educativa desenvolveu um sem número de atividades nos dez estados onde está presente. No município de Luís Eduardo Magalhães (BA), os voluntários contaram histórias e abordaram o tema diversidade com alunos da Escola Vania Aparecida, utilizando livros como “O meu é maior que o seu”, “O menino que morava no livro” e “Superamigos”. Já os voluntários de Orindiúva (SP) falaram de diversidade, com foco em intergeracionalidade, apresentando o livro “A Ilha do Vovô” para os alunos da Escola Luiz Adriano da Costa.

Na unidade, em Santa Juliana (MG), voluntários promoveram uma discussão sobre crenças e etnias, com outros colaboradores da empresa. E na Escola Tarcila Neves da Costa, em parceria com as áreas de Saúde, Segurança e Gente & Gestão da Bunge, organizaram o 1o Workshop de Primeiros Socorros para os professores. Já os voluntários da sede da Bunge, em São Paulo (SP), realizaram uma ação na instituição São Paulo da Cruz e levaram advogados e contadores para um bate-papo com cerca de 90 crianças e jovens, entre sete e 16 anos, sobre a importância e os desafios de suas carreiras.

Maria Fabiana Pereira, 34 anos, analista da área fiscal, é uma dessas voluntárias que atua no Projeto Educativa. Há dois anos ela é coordenadora na unidade na sede do Grupo Bunge em Pinheiros, onde atua em programas que tratam sobre o respeito à diversidade, deficientes físicos e o relacionamento entre gerações. Nas atividades externas ela trabalha com crianças no contraturno escolar e orfanatos. “Há total incentivo para que o funcionário escolha a unidade onde quer atuar como voluntário”, explica Juliana. Quem se candidata?

A semente das ciências e das Artes

O arcabouço de Responsabilidade Social do Grupo Bunge é complementado pelo Prêmio Fundação Bunge, que procura valorizar os talentos nas artes e nas ciências. Criada em 1955, a premiação homenageia dois profissionais na categoria Vida e Obra e dois em Juventude (pesquisadores com até 35 anos de idade). Mais de 190 personalidades já foram contempladas, entre elas os escritores Jorge Amado e Ruth Rocha, o arquiteto Oscar Niemeyer, o médico e pesquisador Carlos Chagas Filho, o cientista político Fernando Abrucio e o engenheiro agrônomo Eurípedes Malavolta.

Em sua última edição, de 2018, o Prêmio Fundação Bunge homenageou profissionais das áreas de ciên­cias agrárias e de letras, com base nas indicações feitas pelas principais universidades e entidades científicas e culturais do Brasil. No tema Literatura Infanto-juvenil os contemplados foram Daniel Munduruku, escritor indígena que preserva sua cultura em livros para crianças, jovens e educadores, na categoria “Vida e Obra”. Já na categoria “Juventude”, a escolhida foi Nina Krivochein, de 14 anos, autora de quatro livros que fazem sucesso entre o público infanto-juvenil.

No tema Serviços Ambientais Para o Agronegócio, o contemplado foi o físico Silvio Crestana, um dos fundadores da Embrapa Instrumentação Agropecuária, centro de pesquisa vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), na categoria “Vida e Obra”. Nesta mesma área, na categoria “Juventude”, quem levou o prêmio foi o engenheiro agrônomo Pedro Henrique Brancalion, reconhecido pelas inúmeras pesquisas e projetos de extensão para manejo e restauração de florestas nativas tropicais no Brasil.

A cerimônia de entrega acontecerá em 13 novembro deste ano, no Palácio Bandeirantes, na cidade de São Paulo. Os contemplados na categoria “Vida e Obra” vão receber, cada um, medalha de ouro e R$ 150 mil. Na categoria “Juventude”, cada um receberá medalha de prata e R$ 60 mil.

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