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27 de fevereiro de 2017

Pequenas e médias empresas enxergam o social

Dado a escassez de estudos sobre o tema, o artigo “A Responsabilidade Social em Pequenas e Médias Empresas”, assinado por José Eduardo Pereira Filho, Nívea Maria Ferraz Corrêa e Cristina de Oliveira Vaz e publicado na Revista Ciência Atual das Faculdades São José, se constitui em material importante não apenas para a pesquisa acadêmica, mas por oferecer subsídios para a modelagem de projetos de ações sociais por parte deste segmento. O estudo, que pela abrangência ganha características ensaísticas, tem texto escorreito e viés assertivo, faz análise pontual de caso e amplia o debate sobre a própria definição de Responsabilidade Social.

Segue que a conclusão ou uma das conclusões a que chega o estudo, de que as práticas de Responsabilidade Social das PMEs estão ancoradas no equilíbrio financeiro e, portanto, suscetíveis à sobrevivência dessas empresas, mais do que um truísmo é uma advertência. Sim, programas de Responsabilidade Social devem ser estruturados com base em forte sustentação financeira, planejamento e foco, seguindo uma cartilha que não é nova e há muito vem sendo adotada pelas grandes organizações. Mas cabe distinguir que estas, entretanto, trabalham com o diferencial substantivo de orçamentos alargados que são pela escala e pela injeção robusta e muitas vezes diversificada de investimentos.

Sobre definição e histórico da Responsabilidade Social no País, que ocupa boa parte do arrazoado e tem relato vigoroso, já há vasta literatura. Mas é de se registrar, por paradoxal, que, de acordo com o estudo, a correia de transmissão, para usar vocabulário extemporâneo, que ensejou a prática de ações inclusivas nas empresas veio de uma onda conservadora dos anos 80, patrocinada pelo pensamento liberal ou, como se preferir, neoliberal. É o que o estudo aponta como “terceira fase da Responsabilidade social”, esta marcada pela ascensão ao poder de governos conservadores, a debacle comunista e a globalização. Com o giro da roda da história, países e governos promoveram forte ajuste fiscal, reduziram o tamanho do Estado, impuseram barreiras comerciais e limitaram os direitos trabalhistas. “O cenário que se desenhou neste estágio foi de incredulidade com relação ao poder estatal em prover as necessidades sociais”, diz o estudo ao assinalar que, no bojo desse ambiente, os movimentos sociais ganharam força. “O poder das megacorporações se sobrepõe ao poder estatal, e com isso crescem também os questionamentos e as demandas no que concerne ao papel social das empresas.”

O papel das corporações no ambiente social sempre foi tema de debates acadêmicos, mas ampliou-se com o advento da Responsabilidade Social Corporativa desde meados dos 80. O estudo pontua historicamente a mudança de eixo da ação social filantrópica para o novo diapasão da responsabilidade social corporativa. E aborda, providencialmente, o antagonismo existente entre as duas escolas sobre a responsabilidade das empresas na sociedade: a visão clássica, monetarista de Milton Friedman, de que a única responsabilidade da empresa é gerar lucro; e a contemporânea, de Keith Davis ou Michael Porter, que defendem que a corporação, para se manter no mercado e se perpetuar, deve envolver-se com todos os seus stakeholders, incluída aí a comunidade.

No caso das PMEs, a teoria é um pouco diferente da prática, uma vez que estas organizações trabalham justas, com orçamento reduzido e gestão muitas vezes anacrônica. Mesmo considerando esta limitação, o estudo, no entanto, aponta para o diferencial competitivo proporcionado pela ação corporativa inclusiva. “Além disso, pode-se destacar como vantagens da Responsabilidade Social Empresarial o maior envolvimento da empresa com seus clientes e a comunidade e o marketing positivo, projetando uma imagem de confiabilidade e responsabilidade fundamental na era da informação, em que a reputação de uma empresa repercute diretamente na geração de lucros.”

É sintomático, como aponta o estudo, que, desde o final da década de 1990, nota-se um maior envolvimento das PMEs em causas sociais, tendência que, não por acaso coincide com o crescimento no período desse segmento empresarial. “Pode-se inferir que no Brasil existem ferramentas para a implementação de uma gestão social, existe engajamento por parte dos empreendedores nacionais, porém é fundamental melhorar as condições de existência e sobrevivência das PMEs para que elas possam efetivamente realizar a sua função social.”

O estudo de caso apresentado, da West Internet, grupo de oito pequenas e médias empresas com atuação no Rio de Janeiro, é significativo para o tamanho do negócio. A West, “uma empresa comprometida com a Responsabilidade Social”, faz reciclagem de cabos, pilhas e baterias utilizados na sua atividade; fornece gratuitamente serviços de internet para prefeitura de Búzios, município da região dos Lagos; faz campanha para angariar alimentos a orfanatos e creches; e participa de mobilizações coletivas para ajudar populações atingidas por tragédias, como a da enchente que desabrigou milhares de pessoas em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro.

Tais ações não devem ser compreendidas quantitativamente, pelo grau ou intensidade da atuação da West na Responsabilidade Social corporativa, mas pela demonstração de que há um corredor de acesso à participação das PMEs em ações dessa natureza. É um farol do possível no mundo das pequenas.

Veja o estudo completo em: http://inseer.ibict.br/cafsj/index.php/cafsj/article/view/121/105

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