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30 de novembro de 2016

Pessoas com Deficiência: há vagas

Já foi tempo em que pessoas com deficiência batiam perna atrás de emprego ou recebiam respostas vagas a currículos enviados e jamais vistos. No mundo da comunicação digital, a busca das pessoas com deficiên­cia (PcDs – como são chamados os deficientes no mercado de trabalho) por emprego resumiu-se a um mero e virtual procedimento de computador. O Deficiente Online, uma ideia genial, coloca milhares desses profissionais em contato direto com as áreas de Recursos Humanos de empresas como Citibank, Walmart, TIM, Microsoft, Dell, Google e Pão de Açúcar, que estão cada vez mais disponíveis para contratações desses profissionais. O site mantém permanentemente entre 2 mil a 3 mil vagas abertas no mercado de trabalho para as PcDs.

O fundador do site é o analista de sistemas Cláudio Tavares, ele próprio portador de deficiência congênita na mão direita. Teve a ideia de criar o site em 1993, quando trabalhava na área de informática da Secretaria de Emprego do Estado do Paraná, em Curitiba. Na época, ele e a esposa, Kelli, analista de RH, queriam deixar seus empregos para dedicar mais tempo ao filho recém-nascido. Cláudio chegou a oferecer a ideia do portal para algumas ONGs que trabalham com os profissionais PcDs, mas não houve interesse. Diante da situação, ele resolveu usar sua experiência e conhecimento em gestão de processos e projetos sociais para, junto com a esposa, criar o portal deficienteonline.com.br.

Em 13 anos de atividades, o filho já é um adolescente, o portal atingiu a marca de mais de 57 mil PcDs inscritos, e há cerca de mil empresas cadastradas. O site é amistoso, inclusive para deficientes visuais, e os serviços para os candidatos a emprego são completamente gratuitos. Eles se cadastram de acordo com o perfil profissional e região e aguardam o resultado do processo de seleção dos empregadores. São as empresas que pagam pela utilização do site e, quando optarem, pela contratação de um dos três planos empresariais disponíveis.

O Deficiente Online cresceu no rastro da Lei 8.213/91, que obriga a empresas com 100 ou mais funcionários a preencher entre 2% a 5% dos seus cargos com trabalhadores reabilitados ou com deficiência. Segundo dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,2% dos brasileiros têm algum tipo de deficiência. Desta população, mais de 352 mil já estão inseridos no mercado de trabalho em todos os estados do país. Contudo, outros milhares ainda estão desempregados.

Contratar deficientes, para 86% das empresas, ainda é obrigação diz a pesquisa realizada recentemente pela i.Social/Catho, com o apoio da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil). Uma das razões, que se depreende da pesquisa, é a baixa qualificação desses profissionais: 41% dos entrevistados consideram que está abaixo da média, ante 7% que julgam a qualificação positiva.

No entanto, há sinais mais alvissareiros de boa vontade empresarial com esses profissionais. Empresas, como a TIM, ultrapassaram a cota estabelecida por lei. Citibank, Serasa Experian e Man Latin America destacaram-se como finalistas da segunda edição do Prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência, uma realização da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD) de São Paulo em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e a i.Social, consultoria especializada em empregabilidade de pessoas com deficiência.

Na ponta oposta estão empresas que ainda não se conectaram com os novos tempos de inclusão social empresarial. O Santander deverá indenizar um ex-funcionário em R$ 200 mil por danos morais, em decisão tomada recentemente pela juíza Débora Cristina Rios Fittipaldi Federighi, da 7a Vara do Trabalho de São Paulo. Segundo o processo, que corria desde 2012, o banco não ofereceu condições adequadas para o trabalho do funcionário, já que, por portar defi­ciência física, precisava de ajuda para subir e descer escadas e não tinha uma mesa adaptada.

Há outras empresas na lista da exclusão social. O grupo paranaense Balaroti, de materiais de construção, deverá pagar indenização por danos morais coletivos por não cumprir a cota mínima, prevista em lei, de contratação de pessoas com deficiência. A condenação de R$ 100 mil foi aplicada pela 4a Turma de Desembargadores do TRT-PR no julgamento de uma Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). A mineira Tradimaq, uma operadora logística, foi condenada por dano moral coletivo a pagar R$ 200 mil pela Segunda Turma do Tribunal Superior do Trabalho por ter descumprido, durante 16 anos, o dever de contratar trabalhadores reabilitados ou deficientes para seu quadro de empregados.

O preconceito contra a PcD existe, é grande e muitas vezes ampara-se na ideia de que esses profissionais são inabilitados para qualquer função. O exemplo das empresas citadas demonstra, no entanto, que a PcD pode exercer diversas funções, mas isso vai depender da adaptação do tipo de trabalho ao tipo de deficiência. Ora, não se contrata um cego para técnico em eletrônica, mas ele pode perfeitamente ocupar a função de telefonista. Já um paraplégico se daria muito bem em algum cargo administrativo. Não é uma questão de paternalismo. “A empresa procura o profissional e não a deficiência”, diz Kelli Tavares. “A contratação não é só para preencher cota, mas para dar retorno positivo”, afirma.

Boa parte das vagas do Deficiente Online é preenchida com funções administrativas e de baixa habilitação, mas pelo menos 30% são de profissionais que têm curso superior completo ou que estejam cursando. As vagas, para os mais graduados – engenheiro civil, programador, dentista, enfermeiro – seguem a mesma regra de um mercado pouco ofertado e em crise, com salários que variam de R$ 8 mil a R$ 20 mil. “O Deficiente Online foi criado para mudar vidas e gerar oportunidades de sucesso”, diz Kelli. De fato, para muitos, ingressar no mercado de trabalho, mais do que uma mudança, significou um novo sentido para suas vidas.

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