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Grupo de pessoas com deficiência em visita pelo programa Inhotim para Todxs (Foto: William Gomes)

23 de dezembro de 2019

Projeto do Instituto Inhotim amplia repertório cultural de grupos vulneráveis

Patrocinado pela Unimed-BH há três anos, o projeto Inhotim para Todxs aproxima integrantes de projetos sociais e grupos comunitários do acervo cultural e botânico daquele que é considerado o maior museu a céu aberto do mundo. Desde que foi criado, em 2011, o programa socioeducativo do Instituto Inhotim já atendeu mais de 104 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica

A assistente social Vanessa Rezende, do Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP), de Contagem, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), trabalha com um público heterogêneo, que dorme em praças, ruas ou sob as marquises de prédios, não tem vínculos familiares ou profissionais e muito menos acesso à educação, saúde, cultura e lazer. Uma população que se autodenomina “invisível”, porque o restante da sociedade os vê, mas não os enxerga. Este ano, como parte do objetivo do Centro POP de realizar atividades direcionadas para o desenvolvimento de sociabilidades e a construção de novos projetos de vida, Vanessa levou o grupo de moradores de rua que assiste para conhecer o Instituto Inhotim, também na Grande Beagá.

Vista aérea do Centro Educativo Burle Marx, no Instituto Inhotim, em Brumadinho (Foto: William Gomes)

Considerado o maior museu de arte contemporânea a céu aberto do mundo, o complexo cultural e botânico ocupa uma área de 1,4 milhão de metros quadrados no município de Brumadinho, localizado a 60 km de Belo Horizonte. Foi criado nos anos 90 para abrigar, inicialmente, as obras de arte do empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, mas a abertura ao público, em 2006, o transformou em um dos principais destinos turísticos culturais do Estado. Desde a sua criação, Inhotim recebeu mais de 3 milhões de visitantes.

O espaço integra arte, natureza, cultura, arquitetura, entretenimento e educação, reunindo pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de 60 artistas de 38 países diferentes, que estão dispostos ao ar livre e distribuídos em 23 galerias permanentes e 4 temporárias, além dos 8 jardins temáticos.  Ao todo, são 560 obras em exposição atualmente. Das galerias, quatro são dedicadas a exposições temporárias: Lago, Fonte, Praça e Mata. Os pavilhões contam com grandes vãos, que permitem o aproveitamento versátil dos espaços para apresentação de obras de variadas mídias.

“Da Lama Lâmina”, de Matthew Barney, uma das 560 obras em exposição no Instituto Inhotim (Foto: Pedro Motta)

Por estar encravado em uma região de Mata Atlântica e Cerrado, dois dos principais biomas do país, o Instituto Inhotim recebeu, em 2010, o título de Jardim Botânico. Seu belíssimo jardim abriga uma coleção expressiva – são mais de 4.500 espécies da flora e 30 destaques botânicos, entre eles a família de palmeiras (Arecaceae), com cerca de mil espécies e variedades, e a dos imbés, antúrios e copos-de-leite (Araceae), com mais de 400 espécies e formas.

O acervo é utilizado pela equipe do Jardim Botânico para a realização de estudos com vistas à conservação da biodiversidade e combate à mudança climática. Dos 140 hectares da área de visitação, 42 são de jardins. O Inhotim também possui um Viveiro Educador e uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) com 249 hectares. A RPPN colabora de forma vitalícia para a conservação da biodiversidade, conectando Inhotim ao sul da Cadeia do Espinhaço.

Foi a esse o acervo botânico e de arte que os moradores de rua assistidos pelo Centro POP de Contagem tiveram acesso gratuito. “Vivendo na situação de rua, essas pessoas jamais teriam conhecido o Inhotim e interagido com a arte como interagiram”, diz Vanessa.  É fácil entender porque a assistente social diz que eles não teriam acesso de outra forma. Para esse grupo vulnerável, visitar o Inhotim é caro. O transporte, partindo de Belo Horizonte, custa R$ 66 (ida e volta), e o ingresso para o complexo, R$ 44 (inteira). “Eles demostraram satisfação e alegria por fazer parte de algo tão importante e esplêndido e somos gratos por poder proporcionar isso a eles.”

A visita de Vanessa e seu grupo só foi possível porque, desde 2011, o Instituto Inhotim mantém um programa social chamado Inhotim para Todxs, cujo objetivo é democratizar o acesso à arte e à cultura a integrantes de projetos sociais, organizações sociais sem fins lucrativos, grupos comunitários e programas sociais municipais. Patrocinado pela iniciativa privada, o programa oferece a grupos em situação de vulnerabilidade social e econômica acesso e transporte gratuitos ao parque, além de uma programação de visitação elaborada de acordo com as características de cada grupo.

Grupo de Idosos participantes do programa Inhotim para Todxs (Foto: William Gomes)

Além de moradores de rua, já participaram do Inhotim para Todxs, grupos de pessoas com vários tipos de deficiência, LGBTQI+, idosos e mulheres vítimas de violência doméstica. “O projeto acolhe essas pessoas, respeitando suas especificidades, necessidades, experiências de vida e realidades”, diz Lidiane Arantes, supervisora de educação do Inhotim. “Estamos falando da democratização da cultura em seu sentido mais amplo”.

Lidiane conta que, quando um grupo se inscreve no programa, cada integrante preenche um formulário em que é possível à equipe do projeto – formada por dois educadores, um com formação em serviço social e outro em direito e história, e um supervisor com mestrado em educação – desenvolver um programa de visitação personalizado.

Além da sessão de acolhimento, em que a equipe conta como funciona o Inhotim, fala sobre o histórico da instituição e da região de Brumadinho, sobre os acervos artísticos e botânicos, cada integrante do grupo recebe o mapa do complexo com sugestões de opções de roteiros de visitação de acordo com o que foi informado nos formulários. A visitação é livre, e os integrantes podem circular pelo complexo seguindo ou não as sugestões dadas pela equipe do Inhotim.

Com alguns grupos, como os de pessoas com deficiência e de escolas localizadas em áreas de grande vulnerabilidade social, a equipe opta por fazer visitas mediadas. Em 2019, o Inhotim para Todxs focou parte de sua atenção às pessoas com deficiência e atendeu vários grupos de cadeirantes, cegos e surdos, disponibilizando transporte dentro das dependências do Inhotim para as pessoas com dificuldade de locomoção, ou criando roteiros com rotas acessíveis.

Para o grupo de cegos, incluiu no roteiro o Jardim de Todos os Sentidos, com três canteiros circulares contendo ervas aromáticas, medicinais e tóxicas, que podem ser “experimentadas” e identificadas pelo olfato, tato e paladar. “É uma experiência tátil e gustativa, que provoca lembranças e narrativas dos visitantes”, diz Lidiane. “A questão da acessibilidade vai muito além da adequação de espaços físicos. Abordamos esse debate de forma mais completa, aumentando a aproximação com a arte, a botânica e a cultura de forma geral”, afirma.

Jardim de Todos os Sentidos: experiência tátil e gustativa para visitantes (Foto: William Gomes)

Há três anos, o projeto conta com o apoio da Unimed BH, por meio da lei de incentivo à cultura (Lei Rouanet). Este ano, o programa Inhotim para Todxs superou a meta de atendimento. A equipe esperava atender 10 mil pessoas, mas fechou novembro com 12 mil atendimentos em 214 grupos, sendo 123 escolas, 72 ONGs e 19 grupos de prefeituras parceiras (Mario Campos, Brumadinho e Sarzedo). Ao todo 106 mil pessoas já foram beneficiadas pela iniciativa desde 2011.

O programa Inhotim para Todxs, que integra a gerência de educação do complexo, atende instituições públicas e organizações da sociedade civil, como Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), escolas estaduais e municipais e Organizações Não Governamentais (ONGs).

Projetos educativos

Os acervos artístico e botânico do Instituto são utilizados para produção de conhecimento e desenvolvimento de ações educativas, atendendo escolas, universidades e diferentes instituições dos setores público e privado de Minas Gerais. Os projetos educativos têm por objetivo aproximar a sociedade de valores como arte, meio ambiente, cidadania e diversidade cultural. São programas transdisciplinares, voltados para professores e estudantes, que visam à formação de um modelo de vida sustentável. 

Com 33 colaboradores (de um total de 500 do Instituto), a gerência de educação é responsável não apenas pelo Inhotim para Todxs, mas por outros programas educativos gratuitos que atendem, anualmente, 40 mil pessoas, como:

Nosso Inhotim – projeto de democratização do acesso ao Inhotim para moradores de Brumadinho, exclusivamente.

Jovens Agentes Ambientais e Laboratório Inhotim – projetos que trabalham com os jovens de Brumadinho, desenvolvendo experiências relacionadas aos acervos artístico e botânico, e que pensam em ações que envolvam a comunidade da cidade. O Jovens Agentes Ambientais é um projeto de conscientização ambiental e formação cidadã. As turmas de 25 alunos atuam no Instituto durante dois semestres, aprendendo, entre outros temas, sobre consumo consciente, agricultura familiar e qualidade de vida na contemporaneidade.

Uma das turmas do Jovens Agentes Ambientais, programa do Instituto Inhotim criado há 11 anos

Escola de Música – programa voltado para a educação musical dos jovens de Brumadinho.

Agente propulsor de desenvolvimento social, cultural e econômico, o Instituto Inhotim articula diversas atividades em conjunto com a comunidade da cidade de Brumadinho e do seu entorno, desde a valorização de manifestações culturais populares, ao incremento de negócios das redes gastronômica e hoteleira, passando pela mobilização social e pesquisas de resgate histórico.

O complexo cultural é o segundo maior empregador da cidade e desempenha papel importante para a economia local, estimulando a abertura de novos empreendimentos e o desenvolvimento de outros, principalmente dos setores hoteleiro e gastronômico da região. O Inhotim tem sido fundamental na formação profissional dos jovens de Brumadinho que têm no Instituto o seu primeiro emprego.

Inhô Tim

O local onde hoje está o Inhotim já foi uma fazenda pertencente a uma empresa mineradora, cujo responsável, no século 19, era um inglês chamado Timothy, a quem os funcionários chamavam de Senhor Tim. Na linguagem local, herdada do tempo da escravidão, Senhor foi abreviado para “Inhô”. Daí, Senhor Tim acabou virando “Inhô Tim”. O nome pegou, e os moradores da região se referiam à fazenda como “Fazenda do Inhô Tim”. Quando Bernardo de Mello Paz comprou a área e a transformou no museu, manteve o nome popular, mas com uma leve modificação na grafia. Assim “Inhô Tim” virou Inhotim.

Hoje, o Instituto Inhotim é uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida pelo Governo do Estado de Minas Gerais como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e com custo médio anual de R$ 35 milhões. Para a realização de suas ações socioeducativas e manutenção de seus acervos, o Instituto é mantido com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas, de maneira direta ou incentivada (com amparo nas leis Federal e Estadual de Incentivo à Cultura), convênios com o governo e bilheteria.

Por Gisele Ribeiro

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