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7 de março de 2018

Quando a igualdade rima com diversidade

Sempre entendi que a ação social da empresa poderia ganhar maior efetividade se considerasse a diversidade, seja para realizar recortes de gênero e raça, por exemplo, seja como tema para suas atividades junto ao público-alvo. As práticas de responsabilidade social junto à comunidade, no entanto, ainda têm um longo caminho a percorrer no Brasil quando se fala em diversidade.

Foi apenas em 2015 que tivemos a primeira organização do terceiro setor voltada ao tema da diversidade. É o Instituto Carrefour, que diz a que veio em sua apresentação: “Somos um instituto de origem empresarial, sem fins lucrativos e de interesse público, dedicado a valorizar a diversidade e enfrentar as desigualdades sociais. A partir do diálogo aberto, de parcerias e da educação, nós acreditamos que, juntos, podemos transformar a realidade e criar uma sociedade melhor para todos”.

Por meio do GIFE, Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, no Censo que realizou em 2016, fala de R$ 2,9 bilhões de investimento total das organizações do terceiro setor de origem empresarial ou investimento social realizado diretamente pela empresa. Não é um recurso capaz de transformar a realidade do país e a postura estratégica tem feito toda a diferença quando a ação da empresa consegue influenciar positivamente as políticas públicas, legislação, atuar em sintonia com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Também não é todo o recurso disponível porque trata-se de 116 respondentes dentro do universo de organizações associadas ao GIFE. Há outras organizações não associadas e, portanto, outros recursos destinados por empresas, de variadas maneiras, para as ações sociais.

Os três temas mais presentes na destinação dos recursos dos associados do GIFE são educação (84%), formação de jovens para o trabalho e/ou para a cidadania (60%) e cultura e artes (51%). Quando observamos o foco considerando recortes dentro do público-alvo beneficiado, temos que 4% consideram mulheres ou meninas, 2% consideram grupos étnico/raciais e 58% consideram crianças e jovens, um recorte tradicionalmente presente em um país que há poucos anos era muito jovem. Não há outros grupos etários considerados, como idosos, nem mesmo a questão da deficiência ou LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, entre outras situações). Nos EUA, presente no gráfico ao lado, assim como na Europa, há um cuidado um pouco maior com questões de gênero e raça/etnia, entre outras.

Realizar recortes é se perguntar se conseguiremos impactar positivamente a educação, prioridade maior dos investimentos, sem considerar as questões exemplificadas acima. Educação melhor para quem? A quem a educação tem beneficiado no País? Quem está ficando de fora ou até mesmo está sendo prejudicado pela educação na medida em que suas questões específicas não são consideradas? Como o tema da valorização da diversidade poderia estar presente nos conteúdos trabalhados nas três prioridades de maneira a enfrentar situações de discriminação, construir ambientes inclusivos e uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos na sociedade?

Muitas empresas dizem enfrentar, por exemplo, dificuldades para identificar profissionais com deficiên­cia a serem contratados para o cumprimento da legislação de cotas.

Assumem multas às vezes pesadas, mas a ação social raramente está considerando a questão, por exemplo, de crianças e jovens com defi­ciência em suas práticas. Até mesmo programas de aprendizagem (Lei da Aprendizagem 10.097/2000), que têm também forte caráter social, não são muito utilizados com os devidos recortes para contribuir no cumprimento da legislação de cotas para inclusão de profissionais com deficiência, aumentar o número de profissionais negros, ou de mulheres, ou de travestis e transexuais.

A proposta, assim, seria que o investimento social privado e programas de voluntariado empresarial pudessem considerar a diversidade no foco que escolheram como prioritário, seja como tema específico ou transversal. Começo dizendo que essa abordagem poderia oferecer maior efetividade nas ações sociais das empresas, mas tenho desconfiança se a desconsideração das características específicas de nossa população poderia até mesmo ter algum resultado de qualidade.

A visão universalista – educação de qualidade para todos, por exemplo, não se sustenta sem essa consideração pelo fato de mulheres (52%) e negros (54%) serem maioria na sociedade e enfrentarem questões muito específicas. Haverá a tal qualidade na educação e ela será mesmo para todos sem considerar demandas e contribuições específicas? Veja que não se trata apenas de demandas, mas de como cada tema, como orientação sexual e identidade de gênero, podem contribuir com o todo ao trazer perspectivas, questões, formas de agir e se relacionar, que obrigam a repensar o que é oferecido.

Em 2018, assim como aconteceu em 2017, teremos uma forte presença do tema da valorização da diversidade na sociedade. A ação social das empresas, em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), terá uma contribuição excelente se considerar a diversidade como um desafio e uma riqueza.

Reinaldo Bulgarelli sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT e da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial. É um dos fundadores do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, que contribuiu para a elaboração e aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente.

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