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15 de julho de 2017

Reverência ao planeta água

Vamos tratar aqui de um gigante. A Coca-Cola brasileira é nada menos do que a quarta operação mundial da The Coca-Cola Company. Em 2017, o Sistema Coca-Cola, que inclui nove fabricantes, 41 fábricas e gera 62,5 mil empregos diretos, está investindo R$ 3,2 bilhões em 152 produtos nos sete segmentos em que atua – água, café, chás, refrigerantes, néctares, sucos e bebidas esportivas. Com esse tamanho paquidérmico, cada movimento no sentido dos seus negócios tem efeitos de proporções literalmente oceânicas. Uma ideia: no ano passado a companhia jorrou de suas fábricas 9,3 bilhões de litros de bebidas. A Coca-Cola é isso aí e muito mais.

Para matar toda esta sede de negócio, a Coca-Cola precisa de água, muita água. Segue que, sendo esse seu principal ingrediente e dele depende a sobrevivência do negócio, inclusive em escala mundial, não é de se estranhar que a empresa esteja fortemente engajada em liderar ações para proteger as fontes desse precioso líquido. Até 2020, em projeto conjunto com o Banco do Nordeste, serão investidos R$ 20 milhões em programas de inovação para acesso à água potável em comunidades rurais e urbanas de baixa renda, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Estamos tratando, sim, de Responsabilidade Social.

A boa notícia é que a Coca-Cola vem economizando água. No recém-lançado Relatório de Sustentabilidade da empresa consta que os programas de reflorestamento e conservação de bacias hidrográficas se estenderam para 103 mil hectares. E no documento uma informação salta aos olhos: desde 2015, por meio de ações socioambientais, a companhia está devolvendo ao ambiente o dobro de água que consome para a produção de suas bebidas. Em 16 anos a empresa reduziu em 30% o volume de água utilizada para produzir um litro de bebida, chegando, hoje, a 1,78 litro para cada litro produzido. Índice comparável a países desenvolvidos como Portugal, Alemanha, Canadá, Espanha e Itália.

Mas todo o seu gigantismo coloca em seus ombros uma responsabilidade equivalente em termos de ação social. E a empresa tem, sim, o que mostrar nesse quesito. Os números do Relatório indicam que são 186 mil pessoas impactadas pelos seus inúmeros programas sociais. Alegue-se que, muitas vezes, senão na maioria delas, o que a Coca-Cola entrega com uma mão muitas vezes retirou com outra, mas é inegável também que o saldo social é positivo. Tome-se o citado exemplo da água. “Não dá para separar o que é uma demanda da sociedade da demanda no nosso negócio”, diz o Diretor de Sustentabilidade e Valor Compartilhado da Coca-Cola, Pedro Massa. “Ao mesmo tempo em que, com nossa expertise, geramos vantagem competitiva para a empresa também geramos impacto social”.

A preocupação com a água é tamanha, que a Coca-Cola está buscando parceiros externos para sua causa. Recentemente, a companhia lançou o Movimento Coletivo, uma plataforma de investimento social privado que destinará, por meio de editais públicos voltados para empresas, startups e universidades, R$ 3 milhões para iniciativas de acesso à água, educação nutricional e equidade de raça. Que não se despreze os dois últimos itens, mas não é à toa que o primeiro edital, no valor de R$ 600 mil, é voltado justamente para soluções de melhoria de acesso a água para comunidades de baixa renda. De novo a água.

A chamada pública do Movimento Coletivo busca soluções para os principais desafios mapeados e diagnosticados pela Coca-Cola com as ONGs SISAR Ceará, Projeto Saúde e Alegria, Rede SISAR/Centrais Bahia e Fundação Amazonas Sustentável, que atuam com programas de acesso à água em mais de duas mil comunidades e beneficiam cerca de 600 mil pessoas das re­giões Norte e Nordeste.

Pelo edital, até dez ações serão implementadas em projetos pilotos que, por sua vez, poderão ser disseminados para outras comunidades. A iniciativa faz parte do programa e aliança Água+Acesso, lançado em março pela Coca-Cola em parceria com o Banco do Nordeste, Funda­ción Avina, Instituto Trata Brasil e WTT (World-Transforming Technologies). Esta será uma plataforma de longo prazo e contará com um conselho independente externo, com caráter deliberativo e formado por notáveis de diversos setores. “A água é o recurso mais precioso para a vida humana, assim como para o negócio da Coca-Cola Brasil. Por isso, estamos fortemente engajados em mobilizar colaboradores, parceiros e a sociedade para ampliar o acesso e tratamento à água de forma segura e sustentável para comunidades rurais e urbanas de todo o Brasil”, afirma Massa.

Mobilizar é uma das especialidades da gigante. Maior comprador de frutas do país, o negócio Coca-Cola envolve 25 mil pequenos e médios agricultores na sua cadeia de fornecedores. Se, de novo, a companhia alia a Responsabilidade Social aos interesses do seu negócio, isso pode ser mais bem percebido na presença da empresa no Amazonas, onde atua há mais de 28 anos, por meio dos fabricantes Recofarma e Grupo Simões, e adquire boa parte dos insumos para o processamento de seus sucos e chás.

É nesse bioma, único no mundo, que a empresa vem desenvolvendo modelos de negócio que buscam a sustentabilidade para si própria e para a região. O melhor exemplo é o fortalecimento da cadeia produtiva do açaí, insumo utilizado na fabricação do suco produzido com a marca Del Valle. Por meio do Coletivo Floresta, programa de incentivo à agricultura familiar, que teve início em 2013, junto às comunidades do município de Carauari, os agricultores aprendem a explorar os recursos da floresta de forma organizada, produtiva e sustentável. Se antes plantavam e colhiam, hoje todo o açaí fornecido para a Coca-Cola é proveniente de árvores nativas, evitando assim o desmatamento e o plantio comercial.

O Programa com o açaí foi a primeira experiência da empresa com o extrativismo. A fruta, que 24 horas depois de retirada do pé perde o sumo, tem que ser beneficiada o mais rápido possível. As famílias que plantavam o açaí em Carauari, cujo acesso fica a sete dias de barco de Manaus, não obtinham valor comercial pelo insumo. Com a implementação do programa Coletivo Floresta, as famílias têm acesso a assistência técnica, são mais produtivas e o açaí colhido ganhou certificação. O resultado é que hoje calcula-se que a renda das famílias é três vezes maior. A Coca-Cola também incentivou no município a criação de uma micro­usina de processamento e garantiu a compra da produção.

Ao estimular a organização comunitária em prol da cidadania e melhoria da qualidade de vida, o Coletivo Floresta aposta no fortalecimento das comunidades. Graças aos programas de assistência e capacitação técnica por meio de treinamentos e workshops para melhorias na logística, segurança do trabalho, práticas de manejo sustentável, além de estímulo à conservação da floresta e ao acesso, mais de 7 mil pessoas já foram impactadas.

O programa Olhos na Floresta é outro que se sustenta na produção amazônica. Nesse caso, o que está em foco é o guaraná, cujo fornecimento provém da produção familiar de 237 agricultores de 12 municípios que se organizam em cooperativas ou associações para produzir e vender o insumo para a Coca-Cola. Criado em parceria com a ONG Imaflora em maio do ano passado, o Olhos na Floresta ainda está em fase de implementação e pretende, até 2020, beneficiar 350 famílias amazonenses.

Mas em Urucará, município a 260 quilômetros de Manaus, os agricultores estão prestes a colher os primeiros frutos do Olhos na Floresta. Graças à capacitação técnica e incentivo às práticas sustentáveis de produção, a Agrofrut, uma cooperativa local que reúne 50 produtores familiares, está mais fortalecida. Com a adoção, pelos trabalhadores, de equipamentos de proteção indivi­dual e métodos para controle de insetos, a produtividade aumentou e eles vão colher ao final deste ano cerca de 90 toneladas de guaraná.

Desde 2007, depois de um trabalho intenso de capacitação e preparação das famílias, sete produtores da Agrofrut conquistaram o selo Orgânico, da Ecocert Brasil, o que permitirá que a cooperativa venda sua produção para o exterior. Em 2015, foram exportadas 13 toneladas de guaraná orgânico, embora a demanda fosse maior. “Nossa ideia é investir cada vez mais na produção orgânica, que, além de ser melhor para o meio ambiente, também tem um preço de venda mais alto, aumentando a renda dos cooperados”, explica Antônio Carlos Fonseca, um dos fundadores e presidente da Agrofrut.

Com a organização dos trabalhadores, nota-se um fortalecimento das relações sociais. Entre as boas práticas incentivadas está a retomada do trabalho em mutirão, que, embora muito comum na região, andava enfraquecido. Agora, em reuniões comunitárias, os produtores são incentivados a criar grupos de trabalho para atividades ao longo de todo o ano, como a limpeza de áreas. Na cidade, que tem apenas 17 mil habitantes, a prosperidade se faz notar. As casas começam a ganhar estrutura de alvenaria e os moradores, que antes percorriam as longas distancias a pé, agora dirigem caminhonetes e motos.

No município Presidente Figueiredo o Olhos na Floresta baseia-se nos Sistemas Agroflorestais (SAF), método que combina culturas agrícolas com espécies arbó­reas para restaurar florestas e recuperar áreas degradadas. Já a partir do ano que vem a Coca-Cola comparará suas primeiras safras de guaraná cultivadas pelo SAF. O sistema recebeu o prêmio SDN-Amazônia, na categoria Gestão de Áreas Protegidas, durante o Amazon Solutions Day, realizado em dezembro de 2015, na COP-21, em Paris.

Nas agroflorestas, culturas perenes e de ciclo curto, de diferentes características, atuam na recuperação natural da floresta. Expostas ao sol, plantações de milho e mandioca, por exemplo, se desenvolvem mais rapidamente que as árvores e preparam o ambiente para outras espécies, como bananeiras, palmeiras e árvores que vão produzir frutas e castanhas. É a floresta nascente, num ciclo que impacta diretamente a conservação do solo e de microbacias. Com o tempo, animais e microrganismos voltam a essas áreas, aumentando a diversidade de espécies. Para os agricultores, o programa aumenta a geração de renda ao diminuir a dependência de uma só cultura, permitindo sua permanência no campo a longo prazo.

Com atuação que estimula o desenvolvimento sustentável da região, por meio de compra de matérias-primas, capacitação da agricultura familiar e proteção de bacias hidrográficas, a Coca-Cola tem outros programas socioambientais no local, como o Bolsa Floresta, da Fundação Amazonas Sustentável, que já reduziu em 75% o desmatamento em áreas mapeadas, com garantia de renda para os participantes. O programa já beneficiou mais de 40 mil pessoas.

A Coca-Cola também tem ações de Responsabilidade Social que estão desconectadas dos seus insumos. O Coletivo Jovem, um programa que objetiva capacitar para o mercado de trabalho rapazes e moças, na faixa etária de 16 a 25 anos, tem apresentado resultados eloquentes. Por meio de uma rede formada por 200 empresas, o programa atua em 105 unidades espalhadas pelo país e já capacitou mais de 130 mil beneficiados, sendo que, destes, 36,2 mil jovens já foram encaminhados ao mercado de trabalho. Os aprendizes contratados nas fábricas são egressos desse programa.

No campo da diversidade racial, há mais de dez anos a Coca Cola vem apoiando instituições do gênero, e ações mais efetivas dentro de casa ainda estão por acontecer. Como primeira iniciativa a empresa patrocinou o Troféu Raça Negra, que premia ícones que promovem a identidade afro-brasileira, realizado pela Afrobras, organização que trabalha pela inserção socioeconômica, cultural e educacional dos jovens negros brasileiros. O Coletivo Coca-Cola, programa da companhia que promove oportunidades econômicas para moradores de comunidades de baixa renda, já impactou a vida de quase 150 mil pessoas, sendo 65% de jovens afro-brasileiros.

Recentemente, a companhia e o Fundo Baobá lançaram o edital “Cultura Negra em foco”, destinando R$ 400 mil para organizações que desenvolvam projetos inovadores focados na divulgação da cultura e da identidade negra no Brasil. Mais recentemente a empresa aderiu à Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, movimento que busca mobilizar as empresas na promoção da diversidade e, com isso, se compromete a aumentar a participação de afrodescendentes em seus quadros gerenciais. Há promessas de aumentar a presença de afrodescendentes na companhia, tarefa que está delegada a um Comitê de Lideranças para o Futuro.

Leão sedento

A Leão Alimentos e Bebidas, braço do Sistema Coca-Cola Brasil, também tem sede de água. Em fins do ano passado, a empresa assinou com o governo do Espírito Santo e a The Nature Conservancy (TNC), maior organização ambiental do mundo, acordo para recuperar entre 100 e 150 hectares de vegetação nativa em áreas no norte do estado. O acordo, que faz parte do Programa Reflorestar, de iniciativa daquele estado, também prevê a implementação, nos próximos cinco anos, de boas práticas agrícolas em 51 propriedades da região. Em cada uma delas, serão protegidos de dois a três hectares. O objetivo maior do programa é preservar as bacias hidrográficas locais, duramente atingidas pela estiagem.

A meta do projeto, em três anos, é conseguir entre 138 mil a 176 mil metros cúbicos de água extra na bacia hidrográfica, volume suficiente para abastecer durante um ano a processadora de frutas e polpas da Leão, em Linhares, no Espírito Santo. As frutas tropicais processadas pela Leão são em boa parte produzidas por produtores rurais, de 2 a 15 hectares, que praticam a agricultura consorciada e tem a fruticultura como a segunda ou terceira cultura da propriedade.

A Coca-Cola Brasil e a Leão investirão no projeto cerca de R$ 1 milhão, que será utilizado não somente para o reflorestamento em si, mas também para o engajamento dos proprietários e o monitoramento de longo prazo das áreas replantadas. Os recursos também serão utilizados para apoiar o programa Coalizão Cidades pela Água, que a TNC desenvolve no Brasil desde 2005 com o setor privado nacional e internacional para atuar na busca de segurança hídrica de 12 regiões metropolitanas brasileiras (RMBs) sob risco hídrico.

Ao se integrar ao Programa Reflorestar, que é gerenciado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (Seama), o pequeno produtor capixaba passará a receber tanto insumos para recuperação da cobertura florestal como recursos na forma de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Ou seja, ele contribui para a melhoria das bacias hidrográficas e ganha apoio para sua própria produção. São os casos de Jaime Balbino de Menezes, da localidade Córrego Cupido, e José Clovis de Oliveira, de Barra Seca, que já tiveram seus contratos aprovados para o Reflorestar.

A seca no Espírito Santo não é brincadeira. Abateu as propriedades rurais do município de Vila Valério, no Noroeste do estado e trouxe muitos prejuízos aos agricultores. Exceção para o produtor Chico da Mata, que, prudentemente há décadas, vem preservando as cinco nascentes em torno do seu sítio. Quando adquiriu a propriedade, há 30 anos, optou pela manutenção das árvores no entorno, e isso resultou num ótimo negócio.

Hoje, enquanto em suas terras brotam mudas viçosas de café, as dos vizinhos estão desoladas. Todos os dias, o caminhão-pipa da prefeitura vai até o sítio de Chico da Mata para recolher água e abastecer outros produtores rurais da região. “Na época, achavam que eu estava perdendo dinheiro, porque tinha que derrubar, fazer lavoura. Mas se eu tivesse feito isso, tinha acabado, não teria água para ninguém”, disse.

Outro projeto da Leão de melhoria da eficiência hídrica, este em parceria com a empresa AgroSmart, fica em São Roque do Canaã, município localizado a 120 km da capital Vitória. Com investimento de R$ 300 mil, foi instalado nas lavouras, em março deste ano, sistemas tecnológicos de monitoramento para orientar a irrigação do solo no cultivo de goiaba, outro insumo processado pela Leão. “O objetivo é aumentar a produtividade em 10% e reduzir o consumo de água em 30%”, explica Fabiano Rangel, gerente Institucional e de Desenvolvimento Sustentável da Leão Alimentos e Bebidas.

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