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22 de maio de 2019

Shopping de SP transforma lixo orgânico de praça de alimentação em ‘comida’ para horta urbana

Projeto Telhado Verde é exemplo de ecoeficiência, pois além de dar destino correto a resíduos sólidos produzidos no estabelecimento, beneficia 600 famílias com a doação de produtos livres de agrotóxicos

Todos os dias, países da América Latina e Caribe despejam em aterros sanitários e lixões cerca de 540 mil toneladas de resíduos urbanos. Segundo relatório da ONU Meio Ambiente, 141 mil toneladas desse total são lixo orgânico oriundo, em sua maioria, do desperdício de alimentos. Só no Brasil, 800 milhões de toneladas de restos de comida vão para o lixo anualmente, e, de acordo com pesquisa realizada pela Embrapa em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o brasileiro, principalmente o das regiões Sul e Sudeste, tem o péssimo hábito de jogar fora a “comida dormida” e os alimentos excedentes não consumidos: são 114 g de comida por dia ou 41,6 kg por ano. É muito, ainda mais se considerarmos que todo esse refugo vai parar em aterros sanitários, criando outro problema ambiental, que é a contaminação do solo e dos lençóis freáticos com o chorume e os gases tóxicos produzidos pela decomposição desses resíduos.

Pensando em reduzir a quantidade de lixo que vai para os aterros sanitários e seguir as metas estabelecidas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (empresas devem dar o tratamento adequado ao lixo sólido que produzem e reduzir a zero o seu envio para os 3.000 lixões e aterros controlados do país até 2020), o Shopping Eldorado, em São Paulo, implantou um sistema de coleta seletiva com tratamento para o lixo orgânico produzido em sua praça de alimentação.

A administração do empreendimento recolhe os restos das cerca de 6.000 refeições servidas diariamente e os transforma em um composto orgânico e natural usado na horta que ocupa cerca de 8.000 m2 da laje da cobertura do prédio. Batizado de Telhado Verde, o projeto começou em 2011 como um simples processo de coleta seletiva. Como o objetivo inicial era apenas aumentar o volume de reciclagem do shopping, a administração criou um processo de separação de lixo orgânico do reciclável na praça de alimentação para evitar a contaminação. No entanto, o lixo orgânico continuava indo para o aterro sanitário, e a empresa decidiu dar um destino melhor a ele: transformá-lo em um composto para ser usado como adubo. A solução encontrada foi a construção de uma usina de compostagem com capacidade de produção diária de 2 toneladas. Mas depois de iniciada a produção, o próprio composto passou a ser um problema, pois a empresa não tinha o que fazer com o excedente. Foi quando surgiu a ideia de cultivar uma pequena horta na cobertura do edifício, usando o adubo não aproveitado no paisagismo.

Canteiro de hortaliças

A horta urbana orgânica do Shopping Eldorado começou ocupando uma área de 1.600 m2, tendo apenas funcionários voluntários trabalhando em sua manutenção. Em pouco menos de um ano, a área de cultivo passou a 4.000 m2 e dois anos depois, já ocupava 5.000 m2. Hoje ocupa quatro vezes a área inicial e tem dois funcionários cuidando dos canteiros em tempo integral.  A produção livre de agrotóxicos de berinjelas, jilós, tomates, pimenta, cebola, pimentões, beterraba, abobrinha, couve-flor, alface, acelga, couve, manjericão, alecrim, hortelã e tomilho entre outros legumes, ervas, hortaliças e frutas é doada aos cerca de 600 funcionários do shopping, que podem participar de todo o processo, desde a coleta seletiva até a colheita. Para se ter uma ideia da dimensão do projeto, uma das colheitas rendeu 3.000 pés de alface, 300 kg de berinjela, 100 kg de pimentão, 200 kg de abobrinha e 5 kg de pimenta. Para os funcionários, poder fazer a feira – ainda que a cada três meses – representa um alívio no orçamento familiar.

Ecoeficiência

Além de produzir alimentos e utilizar o lixo decomposto do próprio shopping, a horta tem uma terceira função. Ela melhora o desempenho térmico da construção, pois impede o calor de penetrar nos ambientes através da cobertura. Assim, as temperaturas dentro do shopping ficam naturalmente mais amenas, reduzindo o desperdício de água e o consumo de energia gerado pelos aparelhos de ar-condicionado.

Composteira usada para transformar lixo orgânico em adubo

Para transformar o lixo orgânico separado nas praças de alimentação em adubo, um funcionário do shopping faz a triagem fina, na qual os dejetos não orgânicos, como plástico e papel, são retirados. O resultado dessa triagem é misturado com serragem, que retira a umidade e evita que a comida apodreça, exalando mau cheiro e atraindo bichos. A seguir, recebe enzimas desenvolvidas em laboratório, à base de algas, catalisadores e minerais, que consomem os resíduos orgânicos e aceleram a compostagem, reduzindo para três horas um processo que levaria naturalmente 180 dias. A mistura fica guardada fechada no escuro por uma semana, e o substrato resultante, de cor marrom e cheiro de terra,  fica exposto ao sol por mais sete dias, quando estará pronto para uso na fertilização dos alimentos. Parte da produção do adubo que não é utilizada na horta é doada aos usuários do shopping.

Com este projeto o shopping conseguiu, inicialmente, dar um destino ecologicamente correto a 30% do lixo produzido pelo estabelecimento. Deu tão certo que, combinando o Telhado Verde com outras ações de sustentabilidade, como doação para cooperativas de todo o lixo reciclável não orgânico, abastecimento dos banheiros com água de reúso e readequação da iluminação interna, o shopping já dá destino correto a 100% do lixo que produz, zerando o seu envio para os aterros sanitários – marca atingida um ano antes da meta inicial.

Canteiro de ervas medicinais

Para implantar o Telhado Verde, o Shopping Eldorado investiu R$ 200 mil. O custo mensal de manutenção fica entre R$ 35 mil e R$ 45 mil. Seria muito maior se ele não fizesse uso racional da água. Os cerca de 100 mil litros utilizados na irrigação da horta são coletados da condensação dos equipamentos de ar-condicionado do estabelecimento e tratados com cloro antes do reúso. Não há, portanto, gasto com utilização de água nem dispêndio (estima-se que cerca de 60% da água utilizada em projetos de irrigação são perdidas por fenômenos como a evaporação). A cobertura de plantas forma uma espécie de colchão que funciona como isolante térmico e reduziu a temperatura interna no shopping em torno de 6o C no entreforro, levando a um consumo menor de energia.

O Projeto Telhado Verde é um exemplo em ecoeficiência de ponta a ponta. Não à toa, recebeu vários prêmios e está inspirando projetos semelhantes em outros shoppings do país. Em 2014, a iniciativa ganhou o prêmio de sustentabilidade da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers). Em 2015, o prêmio de Grande Empresa da Federação de Comércio de São Paulo e ICSC Global Awards Latin America. Em 2016, conquistou mais uma vez um prêmio de sustentabilidade da Abrasce com os impactos do projeto na vida dos colaboradores. Em novembro passado o shopping Mega Moda Park, em Goiânia, anunciou que também terá um telhado verde com horta urbana orgânica para colaboradores e lojistas.  E a Ancar Ivanhoé, que administra outros shoppings além do Eldorado, está replicando mesmo modelo de sustentabilidade nos demais estabelecimentos da rede. Para quem quiser conhecer o projeto, o Telhado Verde abre para o público toda terça-feira, das 11h às 18h. As visitas devem ser agendadas pelo telefone (11) 2197-7815 ou pelo e-mail sac.eldorado@shoppingeldorado.com.br.

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