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Alunos do ensino médio participam de aula da Trilha Empreendedora, ministrada por voluntários do IBP

Alunos do ensino médio participam de aula da Trilha Empreendedora, ministrada por voluntários do IBP

23 de março de 2020

Trilha Empreendedora combate evasão escolar e transforma a vida de alunos de escolas públicas do RJ

Projeto da Junior Achievement RJ, em parceria com o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) e a Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC), impactou 3.003 alunos do ensino médio de 25 escolas públicas de 10 municípios do Rio de Janeiro em 2019, com a aplicação de programas educativos nas áreas de empreendedorismo, educação financeira e preparação para o mercado de trabalho.

Por Gisele Ribeiro

A jovem Maria Alice Rodrigues, de 18 anos, acabou de concluir o terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Professor Antonio Maria Teixeira filho, no bairro do Leblon, na capital fluminense, e quer economizar para empreender na produção de bolos caseiros. O estudante Gabriel Lima, de 16 anos, do CIEP Charles Chaplin, em Duque de Caxias (RJ), quer aplicar o que aprendeu sobre metodologia Ágil e Design Thinking em um negócio próprio, de preferência envolvendo tecnologia. Em comum, além de serem alunos de escolas públicas do Estado, Maria Alice e Gabriel participaram do projeto piloto da Trilha Empreendedora, uma iniciativa da Junior Achievement do Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustível (IBP) e a Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC). A Trilha tem por objetivo reduzir a evasão escolar no ensino médio no Rio de Janeiro.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de evasão escolar no ensino médio no Brasil é de 6,1%. São quase 1,3 milhão de adolescentes, entre 15 e 17 anos, que abandonaram os bancos escolares, somente em 2019. Os motivos variam da falta de interesse nos estudos à necessidade de complementar a renda da família.

“O modelo de escola no Brasil possui 13 disciplinas, super fechadas, sem possibilidade de alteração. Muitas vezes são matérias que o aluno não gosta ou não tem domínio. Assim, a escola se torna desinteressante para esse estudante e ele tende a não voltar mais”, explica Thaine Pereira, coordenadora de projetos do Todos pela Educação, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). “Como o processo de aprendizado é contínuo e requer que o estudante domine algumas competências e habilidades para que possa adquirir outras, se as falhas de aprendizagem acumuladas ao longo do ensino básico não forem sanadas, chega um ponto em que o aluno não consegue mais acompanhar e acaba abandonando”, diz ela.

As perdas individuais e sociais do abandono escolar no ensino médio são muitas. Segundo o IBGE, um trabalhador com ensino médio completo recebe 18% a mais que um funcionário que só concluiu o ensino fundamental. A perda salarial, ao longo da vida, é de R$ 35 mil, o equivalente a dois anos de trabalho. Além disso, dados do sistema prisional brasileiro mostram que apenas 9% dos encarcerados concluíram o ensino médio. O restante ou só tem o fundamental completo (29%) ou nem isso (61%). Para o país, isso significa perda de produtividade e competitividade e aumento de custos com combate ao crime e com saúde, já que adultos que não concluem o ensino médio em geral têm piores condições de saúde, o que eleva as despesas médicas e hospitalares.

Em seu estudo “Políticas públicas para a redução do abandono e da evasão escolar de jovens”, Ricardo Paes de Barros, do Insper, diz que, para cada concluinte do ensino médio, a redução estimada na criminalidade gera economia de 63% da renda per capita ao longo da vida. A sociedade poupa R$ 18 mil em despesas com polícia, Justiça e prisão. Há, portanto, uma relação direta entre educação e melhores condições de vida: pessoas mais escolarizadas se dão melhor no mercado de trabalho, envolvem-se menos com crime, têm saúde mais robusta, desenvolvem famílias mais estáveis e planejadas e engajam-se mais nos assuntos públicos.

É justamente para evitar que o jovem fluminense engrosse as estatísticas de evasão escolar, com todas as consequências individuais e sociais implicadas, e tenha melhores oportunidades de vida, que a Trilha Empreendedora foi criado. O projeto aplica, dentro do currículo do ensino médio de escolas públicas da rede estadual do Rio de Janeiro, uma sequência de programas estruturados em três vertentes: empreendedorismo, educação financeira e preparação para o mercado de trabalho.

Os programas foram elaborados pela Junior Achievement (JA), a mais antiga organização sem fins lucrativos de educação prática em negócios, economia e empreendedorismo do mundo, com 100 anos de existência e presença em 120 países e em todos os Estados brasileiros. A JA é mantida pela iniciativa privada e tem o objetivo de “despertar o espírito empreendedor nos jovens, ainda na escola, estimulando o seu desenvolvimento pessoal, proporcionando uma visão clara do mundo dos negócios e facilitando o acesso ao mercado de trabalho”.

Dinâmica do programa Empresário Sombra, da Trilha Empreendedora

Para colocar o projeto Trilha Empreendedora em prática, a JA do Rio de Janeiro fez uma parceria com o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustível e com a Secretaria de Estado de Educação. O IBP entrou com o corpo de voluntários que aplicam o programa junto com os professores das escolas que integram o Programa Ensino Médio Inovador (PRO-EMI) selecionadas pela SEEDUC. A JARJ responde pela gestão do projeto, pela metodologia, pelo material didático e pela capacitação de voluntários e professores.

A Trilha tem um ciclo de três anos e segue o aluno do primeiro ao terceiro ano do Ensino Médio. No primeiro ano são dados três dos dez programas previstos: “As vantagens de permanecer na escola”, “Economia pessoal” e “Empresa em ação”. No segundo ano entram “Vamos falar de ética”, “Conectados com o Amanhã”, “Habilidades para o sucesso”, “Meu dinheiro meu negócio” e “Empresário sombra por um dia”. No terceiro ano, que fecha o ciclo, são aplicados os programas “O futuro do trabalho” e “Gestão de projetos – Habilidades para a vida”.

“Os programas da Trilha são aplicados dentro da disciplina Estudos Orientados, que é obrigatória em todas as séries do Ensino Médio das escolas da rede pública com período integral. Isso garante uma continuidade na aplicação da metodologia”, diz Carol Thaines, coordenadora de projetos da Junior Achievement.

Foram as aulas de Gestão de Projetos e Finanças Pessoais que cativaram a jovem Maria Alice, citada no começo deste texto. Participante do projeto piloto desde 2017, no último ano da Trilha, em 2019, ela foi diretora de produção de uma pequena empresa, proposta como um dos desafios do conteúdo programático. A empresa vendeu 59 luminárias. “Aprendi muito sobre controle de qualidade e a importância do relacionamento com o cliente, que são fundamentais para desenvolver novos negócios”, diz ela. “Os cursos, as palestras dos voluntários e dinâmicas proporcionaram um currículo mais completo e aquisição de novos conhecimentos e me fizeram refletir sobre o futuro”.

Voluntários do Trilha Empreendedora: diferentes cargos e profissões no segmento de óleo e gás

Já o Gabriel, que começou a Trilha no ano passado, diz que idealizar e desenvolver seus próprios projetos com conhecimento para reduzir riscos e alavancar os negócios foi o principal aprendizado até o momento. Gabriel esteve presente em classes e palestras voluntárias de Design Thinking e Metodologia Ágil, que o auxiliaram na geração de ideias para abordar e solucionar problemas de forma breve e criativa.

Junto com outros 200 alunos do colégio, divididos em grupos, Gabriel se deparou com um desafio, proposto em um workshop: como minimizar o bullying, um problema bastante comum no ambiente escolar. Sua equipe criou um aplicativo que operava com um mix de inteligência artificial e uma base de estudos psicológicos. O objetivo era que, ao acessar o programa, as pessoas pudessem melhorar sua autoestima por meio de mensagens positivas e encontrar formas de denunciar e combater as práticas de violência de origem moral ou física.

Gabriel ainda teve oportunidade de conhecer a tecnologia e os processos aplicados nas operações e exportações no setor de óleo e gás em virtude do conteúdo programático da Trilha Empreendedora. “O projeto me proporcionou o acesso ao empreendedorismo por meio de estudos orientados. Agora quero aprender mais neste novo ciclo de 2020 e começar algo novo, analisar projetos bem estruturados e construir uma carreira de sucesso”, conclui.

Projeto piloto

O projeto da Trilha foi viabilizado através do trabalho desenvolvido pela Comissão de Responsabilidade Social do Setor de Óleo e Gás, do IBP, focado especialmente nos objetivos 4, 10, 16 e 17 de desenvolvimento sustentável da ONU. Em 2019, o projeto viabilizou a distribuição de 3.193 manuais de alunos e voluntários. Além dos recursos financeiros, as empresas fomentaram o voluntariado corporativo através do incentivo à participação dos colaboradores em sala de aula e nas próprias empresas. “A adesão inicial de voluntários foi bem alta”, diz Carlos Victal, gerente de sustentabilidade do IBP. “Mais de 200 voluntários se apresentaram, mas 85 seguiram até o fim”.

O projeto piloto começou em 2017, com a participação de 12 escolas, 1.404 alunos da rede pública, 85 voluntários de 11 empresas do segmento de óleo e gás e do IBP e 24 professores. Em 2018, no segundo ano do piloto, 24 escolas já estavam na Trilha, somando 16 empresas mais o IBP, 2.541 alunos, 395 voluntários e 52 professores. O ciclo fechou 2019 com 25 escolas, 18 empresas mais o IBP, 3003 alunos, 326 voluntários e 45 professores. Ao todo, foram 1.840 horas de voluntariado em sala de aula e 546 horas nas empresas, já que o programa contempla visitas e workshops nas empresas. O aluno que completou o ciclo recebeu 108 horas de aulas voltadas para o empreendedorismo, para a educação financeira e para o mercado de trabalho.

Se Maria Alice e Gabriel estão satisfeitos com o que aprenderam na Trilha, os voluntários têm feito da experiência também um aprendizado para a vida. “É importante mostrar aos alunos que todos podem sonhar e que empreender é possível”, diz o analista Cláudio Viveiros, voluntário do programa e gerente de relações institucionais da Wilson Sons, uma das maiores operadoras de serviços portuários, marítimos e logísticos do Brasil. Engenheiro mecânico com MBA em Marketing, Cláudio atua na Trilha desde o início do projeto piloto. “É gratificante fazer a diferença, garantir a excelência educacional em escolas públicas e promover um amanhã mais próspero para nossos talentos”, diz ele.

A relação de amizade com os jovens é uma das principais conquistas do programa, analisa a geóloga Maria Dolores, também na Trilha desde o início. Coordenadora de Exploração da Enauta, uma das principais companhias de produção e exploração de petróleo do país, Dolores conta que a possibilidade de auxiliar na formação educacional é fundamental para o futuro desses jovens. “Em muitos casos, eles precisam de uma referência, de um apoio. Participei dos três cursos do programa. Encontrei um estudante que sempre reclamava. Tive a oportunidade de dialogar com ele e mostrar que eu também batalhei para chegar onde estou. Hoje, mantemos contato e procuro aconselhá-lo profissionalmente”.

Segundo Carlos Victal, a Trilha Empreendedora também promoveu maior interação entre os voluntários. “São pessoas de várias empresas, acostumadas a se encontrar em eventos do setor, num ambiente de trabalho”, diz ele. “A Trilha os levou a se encontrar em um ambiente prazeroso e positivo, não relacionado ao trabalho, em que um pode apoiar o outro, mesmo sendo de empresas concorrentes”.

Métricas de evasão

Os voluntários do programa têm as mais diversas funções e profissões. São gerentes, diretores, técnicos, analistas, auxiliares administrativos, gente que trabalha embarcada em plataformas de petróleo e que ficam felizes em poder contribuir com a formação de jovens de áreas de vulnerabilidade social e com a redução da evasão escolar. “Eles não se incomodam se a escola é distante, se está em uma área de risco, se as aulas acontecem pela manhã ou no final do dia”, assegura Victal. “O que eles querem é dar sua contribuição, mostrando aos jovens que é possível vencer as dificuldades com ética e dedicação”.

Victal observa ainda que, como muitos dos voluntários são das comunidades onde parte das escolas está inserida, os alunos acabam se identificando com a trajetória de vida do profissional e se espelhando no sucesso alcançado por ele, o que serve como incentivo para seguir com os estudos até a conclusão do ensino médio.

O engajamento das equipes de voluntários para a realização do programa “Empresário Sombra” é um ponto de destaque da Trilha. Por meio de palestras, tours pela empresa e acompanhamento da rotina de profissionais de diferentes áreas, estudantes de diferentes municípios podem conhecer de perto o setor de petróleo e gás.

Os principais impactos observados ao longo do projeto foram:

Em 2020, quando entra em um novo ciclo de três anos, a Trilha Empreendedora tem previsão de impactar 5.745 alunos, o que representa um crescimento de 310% em relação a 2017. Serão 50 novas escolas em 19 municípios do Rio de Janeiro, totalizando 80 escolas, 120 professores e 500 voluntários. “O sucesso do projeto nos mostra que a Trilha está no caminho certo, diz Carol Thaines, da Junior Achievement”.

A partir desse segundo ciclo, a entidade passa a mensurar os resultados do programa, iniciando a série histórica sobre evasão escolar, onde o projeto é aplicado. “A Trilha está transformando vidas. Agora vamos ver o quanto ela pode transformar o futuro”

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