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27 de outubro de 2017

Um drible na exclusão social

Times de futebol integrados por refugiados, que estão deixando seus países aos milhares para fugir da guerra, da fome e de outras mazelas, poderia ser mais uma ideia ousada para chamar a atenção do mundo sobre esta que está sendo considerada uma das maiores tragédias humanitárias desde a Segunda Guerra. Mas a proposta, que vem sendo encabeçada pela ONG carioca Viva Rio e já chegou aos ouvidos da FIFA, iniciou no Haiti, estendeu-se para o Rio e está chegando na Jordânia. A iniciativa tem como base o trabalho desenvolvido com o Pérolas Negras, time de haitianos que lidera o grupo A da série C do campeonato carioca de futebol.

O modelo de inserção social adotado pelo Viva Rio consiste na inclusão social, pelo esporte, em que jovens de países em situação de extrema pobreza ou conflagrados têm formação educacional e, simultaneamente, são preparados para disputar campeonatos oficiais de futebol. “O problema dos refugiados, além da questão social, reúne muitas desigualdades, de ordem cultural, religiosa, racial e podem ser equalizadas pelo futebol, que tem uma linguagem universal e positiva”, diz o presidente e fundador do Viva Rio, Rubem César Fernandes. “No campo de futebol, a pena, a comiseração, é substituída por valores positivos, como a meritocracia e a disputa entre iguais”.

Nos próximos meses, o mesmo sistema adotado para a criação dos Pérolas Negras cariocas e haitianos pode ser replicado no campo de refugiados de Mafraq, na Jordânia. Lá, a ideia é mobilizar organizações sociais locais, para ajudar a organizar torneios de futebol nas comunidades e campos da região. Só em Mafraq há 12 campos de futebol soçaite, onde meninos e meninas de todas as idades jogam peladas, muitas vezes utilizando bolas improvisadas de papel e materiais recicláveis.

Se não é proibido sonhar, o Viva Rio pretende, no futuro, instalar em Mafraq uma Academia Pérolas Negras, nos moldes das que montou em Paty do Alferes, no Brasil, e em Porto Príncipe, no Haiti. Com escola, alojamento, alimentação balanceada e treinamento de alta performance, a Academia funcionaria em uma estrutura já existente no local, cedida pelo Ministério de Juventude e Esportes da Jordânia. Mafraq, cidade com grande quantidade de refugiados urbanos, fica a apenas 10 quilômetros de Zaatari, o segundo maior campo de refugiados do País, onde vivem precariamente 80 mil pessoas, entre iraquianos, palestinos e, principalmente, sírios.

O trabalho do Viva Rio em Mafraq ainda está no início, mas pode começar a materializar-se nos próximos meses se chegarem a bom termo as conversas que o Viva Rio vem mantendo com as autoridades jordanianas ligadas ao esporte. Numa primeira etapa, ainda preliminar, a ONG pode enviar olheiros profissionais que, num prazo de seis meses, vão selecionar cerca de sessenta jovens, entre meninos e meninas, para participar do projeto. Passado esse período, será feita nova triagem, e 25 desses futuros atletas continuariam os treinamentos e os estudos na Academia Pérolas Negras no Brasil.

Os jovens selecionados vão se juntar aos internos da Academia Pérolas Negras de Paty do Alferes, cidade serrana de 25 mil habitantes, a 100 km do Rio, onde atletas haitianos sub-20 e profissionais vivem e treinam duro para realizar o sonho de um dia integrar uma grande equipe de futebol profissional. Mas lá não é lugar só para jogar bola. Inaugurada em janeiro de 2016, a Academia oferece ainda aulas de idiomas e assistência educacional com o objetivo de promover a integração ao sistema formal de ensino e o acesso a cursos profissionalizantes e de capacitação.

No Haiti é a mesma coisa. Cerca de 150 atletas, meninos e meninas a partir de 11 anos, vivem e estudam na Academia Pérolas Negras, localizada nos arredores da capital Porto Príncipe. Selecionados entre milhares de jovens em torneios de rua organizados pelo Viva Rio, eles recebem alimentação balanceada e treinamento tático, físico e técnico para uma performance de alto nível. Ao completar 16 anos, os jovens com mais talento e garra são convidados a treinar no Brasil, onde encontram possibilidades reais de inserção no mercado do futebol.

Para os mais talentosos o céu é o limite. As Academias podem oferecer bolsas de estágio aos Pérolas Negras que se destacarem e estiverem interessados em treinar em um clube de futebol profissional para, a partir daí, trilhar uma carreira internacional. A intenção é também estimular os grandes clubes europeus a contratar os Pérolas Negras dos três países.

Mas, como a carreira de futebol profissional é para poucos, os Pérolas Negras também têm que estudar – e muito. Concomitantemente à rotina pesada de treinos, os jovens desenvolvem uma formação básica que os habilitará a seguir uma carreira, dentro ou fora dos campos de futebol, no Brasil ou em seus países de origem. No Haiti, um levantamento de 2015 mostrou que 94% dos ex-alunos da Academia haviam encontrado trabalho ou seguiam estudando.

Pelo menos sete atletas de Porto Príncipe já participaram de treinamentos nas categorias de base do Botafogo de Futebol e Regatas e do Cruzeiro Esporte Clube em 2014 e, no mesmo ano, participaram da Taça das Favelas, sagrando-se campeões. O time participou da Copa da Amizade em 2015 e levou para casa o troféu Destaque pelas mãos do jogador Saint-Duc Steev Selso. No final de 2015, 23 jogadores da equipe Sub-20 haitiana desembarcaram no Brasil para formar a base da Academia Pérolas Negras do País.
Para que os Pérolas Negras possam jogar os torneios oficiais sem estourar o limite de estrangeiros por equipe, a Confederação Brasileira de Futebol passou a considerar os atletas refugiados e os imigrantes por razões humanitárias como atletas brasileiros.

Pérolas de Porto Príncipe

Localizada nos arredores de Porto Príncipe, instalada em uma área de 50 mil metros quadrados, a Academia de Futebol Pérolas Negra dispõe de quatro campos de futebol, uma piscina, uma área de ginástica e pode acomodar até 96 atletas. Lá meninos e meninas com idades entre 11 e 18 anos obedecem, de segunda sexta-feira, a uma rotina que inclui estudo formal, treino e lazer. Nos fins de semana, eles são liberados para visitar a família.

Os atletas têm apoio de fisioterapia, saúde, nutrição e uma dieta alimentar controlada, com quatro refeições diárias. A equipe técnica é formada por profissionais recrutados através de parceria com o programa de pós-graduação em futebol da Universidade de Viçosa, Minas Gerais.

Além da formação esportiva, os jovens cumprem um programa educacional que tem, entre as disciplinas, o estudo da língua portuguesa. Muitos dos atletas que passaram pela Academia já estão jogando na seleção haitiana de futebol. Outros foram selecionados para atuar em times estrangeiros.

Esforço humanitário

Em 2004, o setor de Desmobilização, Desarmamento e Reintegração (DDR) da MINUSTAH convidou o Viva Rio a participar das operações de paz no Haiti. Na região de Grande Bel Air, a ONG promoveu o diálogo entre grupos armados rivais e facilitou um primeiro acordo de paz, em maio de 2007, com a participação de autoridades do governo do Haiti e da MINUSTAH.

O Viva Rio participou ativamente do esforço humanitário e da reconstrução do País em seguida ao terremoto de 12 de janeiro de 2010. Abrigou 2 mil pessoas em um campo montado em sua sede Kay Nou (“Nossa Casa”), forneceu água, alimentos e deu assistência a mais de vinte campos de desabrigados. Em Bel Air, a ONG coordenou as demolições e a limpeza das 64 toneladas de entulho, retiradas com o trabalho remunerado de mais 500 moradores. Em 2011, um quinto Acordo de Paz foi assinado por 106 líderes de 17 comunidades, vítimas das rivalidades entre grupos armados paralelos (“Bases”). Em estímulo à redução dos homicídios, o Viva Rio sorteava mensalmente bolsas escolares e de profissionalização.

Hoje, o Viva Rio trabalha em Bel Air e Porto Príncipe, com formação profissionalizante (apoio do IBAS); em Cité Soleil, com reciclagem (apoio da MINUSTAH); em Bon Repos, Croix des Bouquets, com formação esportiva (apoios privados) e em Côte des Arcadins, com Turismo Ecológico (apoios privados).

Títulos do Pérolas Negras

Campeão do Torneio de Três Rios (RJ /2015)

Destaque para o jogador Steev Selso na Copa da Amizade (RJ /2015)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-15/2015)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-17/2014)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-15/2014)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-13/2014)

Vitória sobre a Seleção das Favelas (RJ/2014)

Campeão da Copa ABS (MG/Sub-17/2014)

Entre os Top-16 na Gothia na Suécia (Sub-13/2014)

Vice-campeão da Copa Mundial da Noruega (Sub-16/2013)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-15/2013)

Campeão Nacional do Haiti (Sub-15/2012)

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