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13 de fevereiro de 2018

Uma doutora chamada

A doutora Vera Cordeiro é médica há décadas e conhece os limites da medicina. Ora, não adianta curar uma criança pobre que volta para casa, sofre de violência doméstica e muitas vezes não tem o que comer. O resultado é uma sequência cruel, comum em doentes de alta vulnerabilidade social, que começa com a internação, prossegue com a reinternação e resulta no óbito. O Saúde

Criança, criado pela médica em 1991, nasceu para quebrar esta lógica. Por meio do tratamento multidisciplinar, a ONG oferece ao doente e às suas famílias tratamento médico associado ao apoio psicológico e social.

O resultado é que, em 26 anos, a ONG deu mais do que esperança para as crianças e suas famílias, entre as mais de 70.000 pessoas que atendeu. Uma pesquisa da Universidade de Georgetown revelou uma redução de 86% nos dias de internações em hospitais atendidos pela ONG e fez aumentar em 92% a renda das famílias envolvidas. Credenciada por esta performance, Vera Cordeiro, fundadora e atual presidente do Conselho do Saúde Criança, corre o Brasil e o mundo dando palestras sobre a metodologia e os resultados auferidos pela ONG no tratamento de crianças carentes.

Reconhecimento o Saúde Criança tem de sobra. Pela sexta vez consecutiva foi eleita a organização não governamental mais influente da América Latina. Além disso, subiu uma posição na avaliação da entidade suíça NGO Advisor, alcançando a 18a posição entre as 500 melhores ONGs do mundo. A metodologia multidisciplinar de tratamento já está sendo exportada para vários países e, no Brasil, pelo menos 23 ONGs a adotam. Foi recomendada como política pública: recentemente a prefeitura de Belo Horizonte começou a adotá-la nos hospitais públicos da capital.

Vera Cordeiro é membro do Conselho Mundial da Ashoka, empreendedora social da Schwab Foundation e da Skoll Foundation. Sobre o papel das empresas na questão social, ela gosta de citar Stephan Schmidheiny, fundador da Avina, da qual é membro: “Não existe empresa de sucesso numa sociedade falida”.

NÓS: Como foi o seu envolvimento com a questão social no Brasil?

Vera Cordeiro: Como médica clínica, trabalhei 20 anos, de 1978 a 1998, no Hospital da Lagoa, no Rio, onde fundei um setor de medicina psicossomática. Percebia que muitas das doenças tinham relação com as condições de vida a que os pacientes estavam submetidos. Por exemplo, o paciente portador de tuberculose também tinha uma vida de risco, estava desempregado, se alimentava mal, vivia em áreas insalubres. A tuberculose era uma consequência dessas condições, como poderia ser uma pneumonia ou outras doenças infecciosas. No final dos anos 1980, início dos anos 1990, fui trabalhar como chefe do setor de Psicossomática da Pediatria do Hospital da Lagoa e assistia mães com filhos com câncer, doenças infecciosas e outras enfermidades graves. Não era tarefa fácil. Mas foi conversando com essas mães que eu percebi que a situação era pior do que eu imaginava. Tratar das crianças não era, muitas vezes, o mais complexo desafio. O grande desafio era saber que a criança sairia dali para morar em área de risco, na rua, e que a mãe não tinha recursos nem para transporte e voltar ao hospital. Ou seja, o ato médico não se completava.

A senhora tinha noção do tamanho, da extensão do problema da saúde no País?

VC: Tinha. Mas quando eu fui trabalhar com crianças da Baixada Fluminense, na Rocinha, Vidigal, no Rio, é que me dei conta do tamanho da tragédia. Eu diria que a pobreza, no seu viés mais dramático, aparece na área da Saúde. Somos nós, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, que vemos o retrato final da desigualdade social em nosso
País. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo.

As empresas ainda não estão engajadas na solução dos problemas sociais?

VC: Ainda não. Não tão profundamente como ocorre em outros países mais avançados. No exterior as fundações se engajam para valer, inclusive em projetos que não são de seus países. Porém acredito que atualmente tanto o empresário nacional como o internacional estão cada vez mais sensíveis à questão social.

Nossas elites não são sensíveis ao problema?

VC: O problema é que vivemos numa sociedade com tecido social esgarçado. A Dra. Ruth Cardoso (esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, já falecida) dizia que não existe comunicação fácil entre as diversas classes sociais no nosso país. Uma sociedade tão desigual como a brasileira não pode trazer paz nem felicidade para ninguém. O segmento mais frágil, evidentemente, é dos miseráveis, mas todos os segmentos da sociedade estão fragilizados com esta situação.

A precarização do nosso sistema de saúde é o retrato da desigualdade?

VC: É paradoxal, pois conceitualmente, o nosso sistema de saúde é extremamente avançado, uma vez que assegura na Constituição a saúde para todos. Não se pode negar o mérito de ele ter sido implementado com esta definição altiva. O problema é que, na prática, o sistema de saúde do País está sucateado, não funciona a contento em nenhum dos níveis, municipal, estadual e federal, de forma geral, existem exceções. Prova disso é que nas grandes manifestações da população, a primeira reivindicação é pela melhoria na Saúde.

O setor público tem uma resposta pronta para esta precarização da Saúde: faltam recursos.

VC: Sim, mas nós todos sabemos que essa não é a única questão. Existem várias falhas no sistema que não dependem diretamente de recursos. Falha administrativa, por exemplo. Assim como uma empresa privada, a estrutura pública tem que ser muito bem gerenciada, pois senão vai à falência. Outra questão é a falta de agilidade na destinação dos recursos. Na Saúde há urgências e complexidades que não toleram a burocracia e a ineficiência.

Um maior controle da sociedade civil não seria um caminho para uma maior eficiência na gestão desses recursos?

VC: Isso é básico. As contas dos hospitais públicos e de outras unidades de saúde têm que ser transparentes e acessíveis a todos. Tem que haver um intercâmbio e uma disponibilidade de informações consistente entre Governo e Sociedade Civil para uma melhor governança.

Defina Saúde.

VC: Saúde é o bem-estar, um meio biopsicossocial. Os hospitais e clínicas públicas cuidam da doença. Mas e o psicológico e o social? O problema é que falta comunicação entre os diversos setores da Saúde. Uma vez que a doença é multidimensional, para tratar as suas verdadeiras causas a resposta tem que ser multidisciplinar. No nosso caso, como diz Bill Drayton, fundador da Ashoka, não damos o peixe, não ensinamos a pescar, o que queremos é transformar a indústria da pesca. O que se pretende é mudar o paradigma de saúde.

E há que se levar em conta a falta de uma boa alimentação quando se trata de comunidades carentes, não?

VC: Sem dúvida. Nós tratamos no hospital público, por exemplo, de crianças com leucemia, mas qual o sentido em se fazer um protocolo, com diagnóstico e tratamento bem feitos se a criança, ao voltar para casa, não tiver o que comer? Isso para não falar dos outros aspectos de medicina integral. E se a criança sofre violência doméstica? Como curar uma pneumonia, se chove dentro da casa?

Entramos então num ciclo vicioso: miséria-internação-reinternação-morte.

O Saúde Criança quer acabar com esse ciclo mortal?

VC: O Saúde Criança não quer substituir o Estado nas suas funções básicas que é prestar Saúde à população. Queremos é dar sentido ao ato médico, para complementar as ações para que o diagnóstico e o tratamento médico atuem positivamente em diversos patamares, no físico, psicológico e social. A medicina tradicional cuida do físico, mas muitas vezes a verdadeira causa da doença está nas condições em que vivem as crianças miseráveis do nosso País. Dos diversos atores a criança é o elo mais vulnerável da cadeia. Criança muito pequena, com pneumonia, com câncer ou uma doença degenerativa, se não houver diversos tipos de suportes, o tratamento muitas vezes não será eficaz. Mas, a bem da verdade, esta visão tradicional da Saúde, restrita à doença, é mundial.

Como a senhora montou o Saúde Criança?

VC: Fundei a ONG em 1991 vendendo objetos da minha casa e reunindo recursos escassos para comprar remédios para as famílias em risco social. Fui aos poucos envolvendo profissionais da área de saúde, colegas médicos, enfermeiros e amigos. Começamos numa estrebaria dentro do Parque Lage. Depois Vivi Nabuco construiu uma sede onde permanecemos 25 anos. Ao longo do tempo fomos sendo reconhecidos, eu diria mais rápido internacionalmente do que aqui, em nosso próprio País.

Como o Saúde Criança atua?

VC: O Saúde Criança atua dentro do Plano de Ação Familiar. A família é selecionada para o programa por um grupo de profissionais da unidade pública de saúde parceira e a equipe multidisciplinar da Associação Saúde Criança – ASC (assistentes sociais, médico, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, advogados e arquitetos, entre outros). A área de Saúde compreende ações direcionadas para a criança atendida e o grupo familiar, esclarecendo sobre diagnóstico e prognóstico da doença da criança e de seus familiares, além de auxiliar na marcação de exames e consultas nas redes pública e particular. Doa remédios, alimentos e leites especiais, e, ainda, equipamentos médicos quando não disponíveis por meio da rede pública de saúde. O Saúde Criança orienta e assessora nas providências que assegurem que todas as crianças da família atendida estejam com a vacinação em dia, além de encaminhar para tratamento odontológico, oftalmológico e outras especialidades médicas. É feito também acompanhamento nutricional mensal. Além disso, oferece apoios psicológico e psiquiátrico na sede ou em local mais próximo à residência.

Como trabalham as demais áreas?

VC: A área de Educação tem como objetivo garantir a assiduidade e o bom aproveitamento das crianças na escola, assim como estimular a participação direta dos pais na educação dos filhos. A equipe Saúde Criança facilita o acesso à escola, acompanha o processo de matrículas, aproveitamento e frequência da criança ou jovem, além de buscar bolsas de estudo em escolas particulares. Há também atividades de reforço escolar e encaminhamento para atendimentos específicos (oftalmológicos, pedagógicos ou com fonoaudiólogos e psicólogos). A conscientização dos pais sobre a importância da educação é a base desse programa. A área de Cidadania tem como objetivo promover o acesso à Justiça e orientar a família sobre direitos e deveres e conta com assistentes sociais e advogados que orientam sobre benefícios governamentais específicos, assim como sobre questões relacionadas ao reconhecimento de paternidade, pensão alimentícia e regularização de propriedade, entre outras. Ainda, facilita o acesso a benefícios sociais públicos e para a obtenção de toda a documentação cidadã (certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF, carteira de trabalho, histórico escolar etc.). A área de Renda visa capacitar os responsáveis da família para geração de renda, novas oportunidades de trabalho e de empreendedorismo. Os adultos da família recebem orientação vocacional e encaminhamento para oficinas profissionalizantes na sede da ASC e em centros de formação profissional da cidade. Na ASC são oferecidos cursos de Culinária, Beleza e Costura, que são estruturados em módulos, de forma a permitir que as alunas e alunos desenvolvam suas habilidades de acordo com seu tempo e capacidade. Podem, ainda, se aprofundar em áreas correlatas quando descobrem interesse ou vocação em um dos módulos. A área de Moradia faz reformas na casa da família atendida, de forma a criar um ambiente saudável e seguro e fazer adaptações para a criança com necessidades especiais.

Qual a estrutura de pessoal da Associação Saúde Criança?

VC: Hoje o Saúde Criança tem 150 voluntários e 45 funcionários na matriz, porém o trabalho foi expandido em 6 estados brasileiros e se tornou política pública em Belo Horizonte.

Como a Instituição é mantida?

VC: Nossos três maiores patrocinadores são a White Martins, a Johnson & Johnson e a Fundação alemã Ursula Zindel-Hilti, além da Ashoka, Skoll Foundation e Schwab Foundation. Mas temos muitos outros parceiros, que acreditam no nosso projeto, como a McKinsey, que nos deu 5 mil horas pró-bono de consultoria, além de contribuintes pessoas físicas e do trabalho de voluntários.

Qual a responsabilidade das empresas na resolução dos problemas sociais brasileiros?

VC: Está cada vez mais claro que as empresas têm que atuar também na solução dos problemas sociais. A visão de que uma empresa deve apenas gerar lucro para seus acionistas está sendo superada no mundo civilizado.

Como as empresas podem se utilizar da metodologia multidisciplinar?

VC: Trabalhamos muito para desenvolver esta metodologia multidisciplinar de atuação, junto às famílias vulneráveis. A Associação Saúde Criança presta consultoria para ONGs, empresas e governos.

Como podem comprovar isso?

VC: Uma Avaliação de Impacto a Longo Prazo, realizada pela Universidade de Georgetown, em 2013, analisou famílias atendidas após três e cinco anos da data de conclusão do Plano de Ação Familiar. O estudo revelou o aumento de 92% na renda familiar, o aumento no número de famílias com casa própria (antes apenas 26% eram proprietárias; depois, 50% das famílias já tinham casa própria após a alta do atendimento) entre outros indicadores. Houve também uma diminuição de reinternações hospitalares, do grupo avaliado, em 86%, com significativa redução de custos para o sistema público de saúde. A percepção da família com relação ao seu bem-estar saiu de 9,6% que consideravam bom/muito bom para 51,2% que, 3 a 5 anos pós-alta da ASC, consideravam muito boa.

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