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A Política Nacional dos Resíduos Sólidos quer reduzir a zero o envio de lixo para aterros sanitários (Getty Images)

3 de abril de 2020

Ações de empresas para descarte de resíduos sólidos vão muito além da reciclagem de latinhas

Com programas que vão da diminuição de plástico em embalagens a reaproveitamento de garrafas PET na composição de tintas imobiliárias, companhias nacionais e multinacionais tentam alcançar a meta da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê reduzir a zero, até o final deste ano, o envio de resíduos para lixões e aterros sanitários do país.

Por Gisele Ribeiro

A Política Nacional de Resíduos Sólidos completa dez anos de sua promulgação em 2020. Ela fixou metas e prazos para que empresas e municípios dessem tratamento adequado ao lixo que produzem diariamente. Uma dessas metas é a de reduzir a zero, até o final deste ano, o envio de resíduos para os cerca de 3.000 lixões e aterros sanitários controlados do país. Nesses dez anos, porém, pouco se avançou na gestão do lixo. Segundo o Índice de Sustentabilidade Urbana (ISLU), formulado pelo Sindicato Nacional de Empresas de Limpeza Urbana e pela PwC Brasil, o percentual médio da cobertura da coleta do lixo no Brasil em 2019 se manteve em 76% – com variação mínima sobre o ano anterior. Dos municípios cobertos, 51% ainda destinam o lixo incorretamente, e apenas 3,9% dos resíduos coletados são reciclados.

Existe uma enorme desigualdade entre as regiões do Brasil no que diz respeito à gestão dos resíduos sólidos. A Região Sul é a que possui os melhores resultados e a única com possibilidade de atingir, daqui a dois anos, a meta da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) para o quesito de impacto ambiental. No Sul, a destinação ambientalmente correta chega a 88,6%. No Sudeste, região com o segundo melhor resultado, é 56,9%. Em relação à reciclagem, também o Sul está na frente, destinando 7,8% dos resíduos para reaproveitamento, enquanto o Sudeste encaminha apenas 4,2%.

“É importante que as iniciativas pública e privada estejam juntas para promover a boa gestão de limpeza urbana”, diz Eliane Kihara, sócia da PwC Brasil. “Qualquer país que queira um crescimento sustentável deve aderir cada vez mais às políticas de processamento de lixo para que isso não se torne um problema de saúde pública”. O descarte incorreto e irregular dos resíduos sólidos pode contaminar o solo, os lençóis freáticos e o ar com gases tóxicos gerados em sua decomposição.

No final de fevereiro, foi assinado o Decreto 10.240 de 2020, que regulamenta mecanismo previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos envolvendo o descarte de produtos eletroeletrônicos. A nova lei estabelece regras para a implementação do sistema de logística reversa obrigatório para que os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes desses itens se responsabilizem pelo descarte de lixo eletrônico de forma a reduzir os impactos no meio ambiente.

Os equipamentos eletrônicos contêm gases e metais pesados, altamente tóxicos, que podem contaminar o solo, aumentar o aquecimento global e causar problemas de saúde. Afinal, o que fazer com os milhões de celulares, impressoras, computadores e outros aparelhos eletrônicos que são descartados diariamente em todo o mundo no lixo comum? Ou com a quantidade de plástico atirada ao lixo comum e que vai parar nos rios e oceanos, colocando em risco o ecossistema marinho? Se nada for feito e as projeções de crescimento da indústria se mantiverem, em 2050 haverá mais plástico nos oceanos do que peixes.

Montanha de garrafa PET esperando para ser reciclada (Getty Images)
Montanha de garrafa PET esperando para ser reciclada (Getty Images)

Embalagens plásticas retornáveis

Essa é uma preocupação global. De grandes corporações a pequenas empresas, passando por municípios, Estados e organizações não governamentais, surgem iniciativas visando à redução da geração de resíduos sólidos de todo tipo e sua correta destinação. Empresas como Coca-Cola e Ambev, por exemplo, iniciaram uma cruzada para atingir a meta de ter 100% de seus produtos em embalagens retornáveis ou de utilizar garrafas feitas com conteúdo reciclado.

Há três anos, a Coca-Cola vem ampliando o uso de embalagens plásticas retornáveis (RefPET) de tipo e formato único para todos os refrigerantes que fabrica. A empresa também aumentou a produção de bebidas envazadas em garrafas de vidro e em latinhas de alumínio, que utilizam material reciclado como fonte de matéria-prima (mais de 60% da composição de novas latas de alumínio e de garrafas de vidro é proveniente de embalagens recicladas). A RefPET é feita de resina PET e pode ter até 25 ciclos de uso – uma economia de 70 milhões de garrafas por ano no Brasil. Ao final do ciclo de vida, as garrafas voltam para as fábricas da Coca-Cola, onde são recicladas.  Antes de adotar a RefPET, a empresa vinha reduzindo a quantidade de plástico das embalagens em um processo chamado light weight (peso leve). De 2008 a 2016, conseguiu reduzir a gramatura das garrafas PET em 17%, em média, sem provocar prejuízos ao produto.

O programa de redução e reutilização de embalagens plásticas da Coca-Cola Brasil foi criado sob a lógica da economia circular. Nenhum componente é encarado como resíduo, e, nesse processo, a empresa concentra seus investimentos no desenvolvimento social e estrutural de cooperativas de catadores no Brasil. Os catadores são um elo essencial para a logística reversa, pois eles fazem a triagem dos resíduos gerados pela população e revendem para as indústrias recicladoras.

Ambev quer reduzir em 100% o uso de matéria-prima virgem nas garrafas de suas bebidas (Divulgação)
Ambev quer reduzir em 100% o uso de matéria-prima virgem nas garrafas de suas bebidas (Divulgação)

Em 2018, a empresa assumiu globalmente o compromisso “Um Mundo Sem Resíduos”, que tem a ambição de ajudar a coletar e reciclar o equivalente em peso a tudo o que vende até 2030. Para isso, no Brasil, a empresa criou, em parceria com a Ambev, o programa Reciclar pelo Brasil, que apoia 220 cooperativas em 25 Estados. Hoje, além da Coca-Cola Brasil e da Ambev, fazem parte do programa Nestlé, Vigor, Dr. Oetker, Tetra Pak, PesiCo e BRF.

Em janeiro, a Ambev, que dois anos atrás tinha como meta ter 100% dos produtos em embalagens retornáveis ou que tivessem mais de 50% de material reciclado em sua composição até 2025, anunciou a ampliação de suas metas de uso de material reciclado em embalagens plásticas. Agora a companhia pretende chegar a 2025 com 100% das embalagens plásticas feitas de material reciclado.

“Nos últimos dois anos, geramos negócios da ordem de R$ 200 milhões na economia circular com a reciclagem de plástico. Quando chegarmos em 100% de plástico reciclado, vamos colocar na economia circular em torno de R$ 1 bilhão, sem contar investimentos em inovação e em novos materiais”, disse à época Rodrigo Figueiredo, vice-presidente de Sustentabilidade e Suprimentos da Ambev. Segundo Figueiredo, 18% de todo o líquido produzido pela empresa é envasado em embalagens plásticas, mas a empresa pretende acabar com a poluição plástica causada por suas embalagens em cinco anos.

Coleta seletiva

Para isso, a empresa fez parceria com a Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat), a produtora e recicladora de embalagens plásticas ValGroup e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para coletar e dar destino correto da reciclagem às embalagens de seus produtos. O grupo realizou ações no carnaval de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife, onde a cervejaria patrocinou a folia, colocando 2.800 catadores para coletar o lixo gerado por 26 milhões de foliões.

Em ação semelhante, o Galo da Madrugada, maior bloco de Carnaval do mundo, criou o movimento #VADELATA, em parceria com a Ball Corporation, Novelis e Liga da Reciclagem. Só os 2.800 catadores participantes da iniciativa recolheram 13 das 20 toneladas de material reciclado deixado durante a sua passagem pelo Recife: 8,4 toneladas de metal, 3 toneladas de plástico, 1,5 tonelada de papel e 2 kg de vidro. Outras iniciativas pública e privada foram responsáveis pela coleta de outras 7 toneladas de lixo.

Na mesma semana em que a Ambev anunciou a ampliação de seu programa de reciclagem, a Minalba, marca pertencente ao portfólio Minalba Brasil, do grupo Edson Queiroz, disse que vai envasar sua água mineral, provinda de fonte única em Campos do Jordão (SP), nas versões com gás e sem gás, em latinhas de alumínio. A iniciativa faz parte da estratégia da marca de ampliar a sustentabilidade de produtos com o intuito de preservar o meio ambiente.

Com o objetivo de aproveitar as embalagens plásticas de matéria-prima virgem derivada de petróleo na produção de esmaltes e vernizes, a BASF criou o projeto PET, que transforma plástico em tinta imobiliária para a marca Suvinil. O projeto une produtividade e sustentabilidade e começa na coleta seletiva. Nesse momento, milhões de garrafas PET descartadas são separadas e vão para a trituração. Após esse processo são usadas como matéria-prima para a produção de resina alquídica, um dos principais componentes dos esmaltes e vernizes Suvinil. Cada galão de 3,6 litros leva, em média, seis garrafas PET em sua composição.

O programa também se baseia na economia circular, gerando novas oportunidades de negócio e renda para catadores. “Acreditamos que a sustentabilidade deve estar presente em toda a cadeia de valor”, diz Celdia Bittencourt, gerente sênior de Inovação de Projetos da Suvinil. “Em uma ponta, incentivamos os programas de coleta seletiva para garantir que tenhamos a matéria-prima desejada, e, com isso, novos postos de trabalho diretos e indiretos são gerados.” O projeto PET Suvinil retira do meio ambiente 35 milhões de garrafas PET por ano, poupando o uso de 1.500 toneladas de matéria-prima virgem. No processo, ainda reduz proporcionalmente a geração de efluentes durante o processo de reação de polimerização.

Lixo zero

O manejo de resíduos sólidos também é preocupação em pequenas empresas. O Ilha de Toque Toque Boutique Hotel & Spa, localizado em São Sebastião, litoral Norte de São Paulo, é o único do mundo a receber a Certificação Lixo Zero, da Zero Waste International Alliance (ZWIA). O hotel investiu em um programa de gestão sustentável que reduziu o envio de lixo para aterros em 90%.  A ZWIA é uma organização global sem fins lucrativos composta por representantes de todos os setores da sociedade, criada com o objetivo de promover alternativas positivas para aterros e incineração, além de conscientizar a comunidade dos benefícios sociais e econômicos a serem obtidos quando o lixo é considerado uma base de recursos sobre a qual podem ser construídas oportunidades de emprego e negócios.

Localizado em São Sebastião, litoral Norte de São Paulo, o Ilha de Toque Toque opera com um viés sustentável desde a sua fundação, em 2006. O hotel foi construído e decorado com material reciclado, faz uso de painéis solares para a geração de energia elétrica e desde o ano passado não dá destino correto a todo resíduo produzido em suas dependências. “O objetivo inicial era reduzir o impacto ambiental do negócio”, diz Edson Pavão, um dos proprietários do hotel. “As mudanças que adotamos no hotel, no entanto, acabaram impactando não somente colaboradores, mas seus familiares e hóspedes”.

Estação de armazenado do lixo separado no Ilha de Toque Toque Hotel Boutique (Divulgação)
Estação de armazenado do lixo separado no Ilha de Toque Toque Hotel Boutique (Divulgação)

Para atingir a meta de reduzir em 100% o envio de resíduos para aterro, o hotel realizou mudanças nos processos organizacionais e de descarte, em um planejamento envolvendo gestores, colaboradores e hóspedes. Lixo orgânico é separado do reciclável na origem, em todas as dependências, e armazenado em uma área específica onde é dividido por tipo. O lixo orgânico vai para compostagem, e o reciclável, para a coleta seletiva e para cooperativas de catadores.

A administração do hotel também eliminou o lixo plástico proveniente de garrafas PET e materiais plásticos de uso único, como canudos, copos descartáveis, isopor, sachês de manteiga, mostarda, ketchup e maionese. Um dispenser com água mineral foi colocado em cada suíte e nas áreas comuns em substituição às garrafas plásticas individuais. A água passou a ser oferecida aos hóspedes gratuitamente, em temperatura ambiente ou gelada.

Os sachês de ketchup, mostarda, maionese, geleias, manteiga, cream cheese e requeijão foram substituídos por potinhos de cerâmica. Na cozinha, houve uma redução de 50% no uso de pano perfex e de luvas cirúrgicas. As esponjas sintéticas, de difícil decomposição no ambiente, foram substituídas por buchas vegetais. Nas suítes foram colocados dispensers para shampoo, condicionador, sabonete e hidratante, mimos que eram disponibilizados em embalagens plásticas que, após o uso diário, eram descartadas pelos hóspedes.

Dentro do programa de Lixo Zero do hotel está a reciclagem de equipamentos eletroeletrônicos. Para não produzir lixo eletroeletrônico, o hotel optou por alugar esses equipamentos em vez de comprá-los. Assim, cabe à empresa contratada trocar os aparelhos sempre que necessário e dar aos inservíveis a destinação correta, de acordo com o Decreto 10.240 de 2020, assinado em fevereiro.

Lixo eletrônico

A lei regulamenta mecanismo previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos envolvendo o descarte de produtos eletroeletrônicos. Os equipamentos eletrônicos contêm gases e metais pesados, altamente tóxicos, que podem contaminar o solo, aumentar o aquecimento global e causar problemas de saúde.  Desde que a Política Nacional dos Resíduos Sólidos entrou em vigor, em 2010, a responsabilidade do descarte do lixo eletrônico era uma incógnita.

Decreto assinado em fevereiro cria regras para o descarte de lixo eletrônico (Getty Images)
Decreto assinado em fevereiro cria regras para o descarte de lixo eletrônico (Getty Images)

Agora, pelo decreto, a responsabilidade do descarte correto é das empresas – fabricantes, distribuidoras, importadoras e varejistas. Elas são obrigadas a fazer a logística reversa do lixo eletrônico, além de custear a comunicação e a conscientização da população. O decreto prevê que essas empresas criem pontos de coleta de aparelhos eletroeletrônicos de uso doméstico em municípios brasileiros com população acima de 80 mil habitantes. Também obriga as prefeituras a criar novos postos de coleta para cada grupo de 25 mil habitantes. Dessa forma, cabe à iniciativa privada envolvida e ao poder público acompanhar e gerar relatórios sobre os resultados obtidos.

O decreto também estabelece os deveres dos cidadãos: a responsabilidade pelo descarte do produto em pontos adequados de coleta é direta do consumidor. Assim como o de qualquer outro tipo de resíduo. Mas ainda há muito a ser feito em termos de conscientização ambiental. Uma pesquisa global da Ipsos divulgada no final do ano passado revelou que 54% dos brasileiros não entendem o funcionamento da coleta seletiva do lixo doméstico em sua região – contra 47% em outros países. A maioria dos entrevistados (77% no Brasil, 80% no restante do mundo) acredita que as empresas deveriam ser responsáveis pela reciclagem e reúso das embalagens dos produtos que fabricam.

O estudo “A Throwaway World – The Challenge of Plastic Packaging and Waste” também revelou que 75% dos consumidores globais consideram mais as marcas que promovem mudanças para atingir resultados ambientais melhores. O que quer dizer que as empresas que adotarem práticas sustentáveis em seus processos de produção e assumirem a responsabilidade do descarte ambientalmente correto de embalagens e produtos eletrônicos têm mais chances de se darem bem junto aos consumidores de todo o mundo.

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