Ir para o Topo
Projeto Empoderando Refugiadas, que o Instituto Renner promove em Roraima (Divulgação)

Projeto Empoderando Refugiadas, que o Instituto Renner promove em Roraima (Divulgação)

10 de março de 2020

Empresas avançam em iniciativas para igualdade de gêneros no ambiente corporativo

De licença-maternidade ilimitada para mães e pais a programas de liderança para mulheres e empoderamento feminino nas comunidades, as corporações investem em projetos para diminuir a desigualdade entre homens e mulheres e o preconceito dentro das companhias. A PepsiCo, por exemplo, adotou políticas e iniciativas de atração, retenção e desenvolvimento de talentos femininos para incrementar o número de líderes mulheres ao redor do mundo.

Na semana passada, o youtuber Felipe Neto anunciou que sua empresa, a Netolab, dará licença-maternidade e paternidade ilimitada aos seus funcionários, em vez dos quatro meses para a mãe e cinco dias para o pai previstos em lei. Além do afastamento remunerado por tempo indeterminado, Neto garante à mãe estabilidade de um ano após o retorno ao trabalho e um bônus de R$ 10 mil reais para o recém-nascido.  O anúncio,  feito poucos dias antes da celebração do Dia da Mulher, no último domingo, foi uma grata surpresa. Nos últimos anos, as brasileiras vêm testemunhando a perda de direitos sociais e trabalhistas e assistindo ao aumento dos casos de violência doméstica em função do gênero. Um estudo da Fundação Getulio Vargas, concluído no ano passado, mostrou que 50% das mães são dispensadas logo após o retorno da licença-maternidade.

“A maternidade é um dos assuntos mais sensíveis do mercado de trabalho. É utilizada para justificar porque mulheres recebem menos e têm menos oportunidades”, justifica Felipe Neto. “Não basta gerar emprego, é preciso gerar mudança, distribuição de renda e justiça. E tudo isso começa quando um empresário decide tirar do próprio bolso para injetar naqueles que geram suas riquezas”.

A iniciativa de Neto vai de encontro aos 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas, um conjunto de ações coletivas, corporativas e individuais para erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais e econômicas e garantir a igualdade de gênero, entre outros temas, com o objetivo de tornar o mundo um lugar mais seguro, sustentável e justo. “Não faz sentido ser alguém que só pensa em potencializar lucros para enriquecimento pessoal, em detrimento daqueles que te possibilitam gerar esse lucro. Um empresário que vive dessa forma (e são muitos) não contribui realmente para melhorar o mundo”, afirma Neto.

Neto está na contramão da onda de preconceito e conservadorismo que vem aumentando em todo o mundo. Um estudo realizado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostra que normas sociais discriminatórias estão profundamente enraizadas em todas as sociedades, ricas ou pobres, onde frases como “Mulheres deveriam conhecer seu lugar”, “Tudo bem, o homem bater na mulher” são quase lugares-comuns. E que é esse pensamento machista internalizado que continua gerando dados como estes:

Em artigo publicado no site da ONU Mulher, na semana passada, o secretário-geral da ONU, António Guterres diz que “as mulheres ainda são excluídas do alto escalão, de governos e conselhos corporativos e premiações de prestígio, e a disparidade salarial entre homens e mulheres é apenas um sintoma da desigualdade de poder entre os gêneros. Mulheres líderes e figuras públicas enfrentam assédio, ameaças e abuso, na internet ou fora dela. Em casa ou no ambiente de trabalho”.

Uma pesquisa desenvolvida para o Dia Internacional das Mulheres pela Ipsos, em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, do King’s College London, mostra que apenas 1 em cada 4 brasileiros acredita que homens e mulheres são tratados com igualdade no trabalho. O estudo, que engloba 26 nações e aborda a percepção dos entrevistados sobre desigualdade de gênero no âmbito profissional, coloca o país em último lugar no ranking.

A maioria das pessoas ouvidas em todo o mundo (56%) entende que, em seus países, os dois gêneros não são vistos da mesma maneira nos locais de trabalho. A nação com a percepção mais positiva sobre o tratamento igualitário entre homens e mulheres é a Malásia, onde 68% dos entrevistados localmente afirmaram que há equidade no ambiente profissional. China (60%), Índia (54%), Rússia (50%) e Peru (48%) fecham o top 5.

Quando perguntados se seus países já fizeram o suficiente para garantir que os direitos de homens e mulheres sejam iguais, os entrevistados brasileiros colocaram o país, novamente, no fim do ranking. Sessenta e seis por cento dos ouvidos localmente creem que as ações já tomadas no Brasil não são o bastante. A média global de descontentamento é de 47%. A pesquisa ainda constatou que a maioria das pessoas (68%) em todo o globo reconhece que os homens devem ser parte ativa na luta para dar às mulheres os mesmos direitos garantidos ao gênero masculino. O percentual de entendimento brasileiro é o mesmo.

Para 58% de todos os entrevistados no mundo, um caminho para seu país atingir a igualdade de gênero é colocar mais mulheres em cargos de liderança no governo e nas empresas. O Brasil está ligeiramente acima da média global, com 59% afirmando que essa é uma medida necessária. O estudo on-line ouviu 20.024 pessoas de 26 países, com idades entre 16 e 74 anos, entre 24 de janeiro e 7 de fevereiro de 2020, com margem de erro de 3,5 pontos.

Representatividade feminina nas empresas

Para tentar mudar essa realidade, algumas empresas, como a Netolab, vêm promovendo iniciativas que incentivam a representatividade feminina e a equidade de gêneros dentro e fora do ambiente corporativo. A PepsiCo, por exemplo, adotou políticas e iniciativas de atração, retenção e desenvolvimento de talentos destinadas a promover a diversidade em várias esferas, inclusive incrementar o número de líderes mulheres ao redor do mundo.

“Nós acreditamos na diversidade como um diferencial competitivo e que somos agentes transformadores dentro e fora da PepsiCo”, comenta a diretora de RH Glaucia Nogueira. “No Brasil, 44% dos cargos de liderança na empresa são ocupados por mulheres, e o objetivo é chegar a 50% até 2025”.

A PepsiCo Brasil realiza diversos programas, como o Elas por Elas, que reúne as lideranças femininas da PepsiCo visando a troca de conhecimento e experiências; e o Inspira, em que mulheres em cargos seniores participam de treinamento intensivo de uma semana na sede global da companhia nos EUA.

Já com o programa Mulheres com Propósito, a empresa espera criar uma força de trabalho mais diversificada, mais inclusiva e mais engajada, que reflita e reforce as comunidades. A iniciativa oferece cursos gratuitos de empreendedorismo a mulheres de comunidades, para que possam ter o seu próprio negócio e conquistar a independência financeira. Até 2025, o programa vai beneficiar 2.000 mulheres no Brasil.  A iniciativa está ligada às metas da ONU – Objetivos do Milênio, que visapromover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres.

O cuidado da PepsiCo com a diversidade e a equidade de gênero começa já nos processos seletivos em que a empresa garante a representatividade de mulheres entre os candidatos finalistas apresentados em todo e qualquer processo seletivo. Em seus programas de estágio e trainee, conhecidos como First Gen e Next Gen, há 68% de representação feminina. Dentre os programas da companhia, também há o Ready to Return, que apoia o retorno de profissionais ao mercado de trabalho. Válido para quem está longe do mercado de trabalho há no mínimo dois anos, o Ready to Return é voltado para todos os gêneros, mas impacta especialmente as mulheres, como aquelas que resolveram se dedicar à maternidade por um período.

Assim como a Netolab, a multinacional quer inspirar mudanças ao promover a equidade de gênero no ambiente de trabalho, rompendo estereótipos na representatividade feminina. A companhia mantém mulheres em cargos essencialmente masculinos, pois acredita que a função desempenhada independe do gênero, qualquer que seja a área.

 Ainda dentro da companhia, a empresa desenvolve programas que incentivam as mulheres a evoluírem em suas carreiras. Iniciativas de mentoria e capacitação, além dos benefícios que permitem flexibilidade de jornada de trabalho para equilibrar família e trabalho, e um ambiente de trabalho inclusivo e receptivo para mulheres são alguns dos exemplos. A PepsiCo oferece também o programa Doce Começo, que conta com licença maternidade de seis meses e acompanhamento especializado dessas mulheres em todas as fases da gravidez, auxiliando a mãe e o recém-nascido. Todos (homens e mulheres) têm flexibilidade de horário para amamentar, buscar filhos na escola, levar a consultas ao pediatra e ao dentista. A empresa possui em seu escritório central a Sala da Mamãe, para a extração de leite materno. 

Em março de 2017, a PepsiCo assinou o acordo de princípios de empoderamento feminino da ONU e aderiu à iniciativa “He for She”, que determina que homens e mulheres tenham a mesma responsabilidade para alcançar a equidade de gênero; a companhia também participa do Movimento Mulheres 360, em que compartilha boas práticas. As iniciativas para promover a equidade de gêneros renderam à empresa o prêmio WEP’s Brasil 2019 (Women’s Empowerment Principles), da ONU Mulheres.

O DB1 Group,  formado por empresas brasileiras de tecnologia, com sede em Maringá (PR) e bases operacionais na Argentina e Estados Unidos, aposta cada vez mais em ações para atrair, capacitar e empoderar as mulheres, promovendo a igualdade de oportunidades e de desenvolvimento profissional. Dos 536 colaboradores da empresa, 26% são mulheres. Dentro desse percentual, 13% são programadoras; contudo, um longo caminho já foi percorrido: há sete anos, a DB1 tinha uma só mulher em cargo de liderança em meio a 20 líderes, representando apenas 5%. Em 2019, a representação feminina na empresa atingiu 23%, com 14 mulheres em cargos de liderança entre 60 líderes.

A empresa de TI Cognizant investe no programa Aprendiz Women in Tech, iniciativa que visa a estimular, treinar e capacitar mulheres que estão cursando ou terminaram o ensino médio para atuar na área de tecnologia da informação.  O programa pretende ajudar a aumentar o número de mulheres atuando na área de TI, hoje estimado em 20%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE. “O que precisamos é que elas queiram aprender e estejam abertas a conhecer este mundo novo, porque muitas não fazem ideia do que seja o universo da tecnologia”, diz Carla Catelan, head da área de Aquisição de Talentos da Cognizant.

Paridade salarial

Com presença feminina em 43% dos cargos de liderança, a Philip Morris Brasil foi a primeira empresa no país a receber a certificação internacional Equal Salaryconcedida pela Equal Salary Foundation, por oferecer remuneração igual para homens e mulheres por trabalho equivalente. A empresa está ampliando as ações voltadas à equidade de gênero, à diversidade e à inclusão, com o objetivo de atingir a meta de ter 50% dos cargos de liderança ocupados por mulheres nos próximos três anos.

Desde fevereiro deste ano, a Philip Morris Brasil faz parte do Movimento Mulher 360 (MM360), um movimento empresarial criado para contribuir para o empoderamento econômico da mulher brasileira em uma visão 360 graus, através do fomento, da sistematização e da difusão de avanços nas políticas e nas práticas empresariais e do engajamento da comunidade empresarial brasileira e da sociedade em geral.

O Movimento Mulher 360 foi criado em 2011, por iniciativa do Walmart, visando ampliar a participação feminina no ambiente de trabalho, por meio de ações concretas com seu público interno, em um primeiro momento, e para mulheres nas comunidades e cadeia de suprimentos, gradualmente. Entre as empresas fundadoras estão Bombril, Cargill, Coca-Cola, DelRio, Diageo, Johnson&Johnson, Natura, Nestlé, PepsiCo, Santander e Unilver.  O Movimento tem como base de suas atividades os sete princípios de empoderamento das mulheres – instituído pela ONU Mulheres –, entre eles a necessidade de estabelecer uma liderança corporativa de alto nível para a igualdade entre gêneros.

“Temos o compromisso de construir uma cultura inclusiva e diversa, que respeita e valoriza igualmente todos os colaboradores. Dessa forma, somamos esforços ao Movimento Mulher 360, para que a equidade de gênero avance no País. A empresa vive uma grande transformação de seu negócio, e sabemos da importância das mulheres em um processo de inovação”, destaca Renata Mazoco, gerente sênior de Eficiência Organizacional da Philip Morris Brasil. 

Para a empresa, contar com equipes diversas e uma cultura inclusiva é um fator fundamental para o fortalecimento de seus negócios e para promover a inovação. Em 2019, a companhia implementou o Programa de Desenvolvimento para a Liderança Feminina, com foco na capacitação de competências específicas e fortalecimento da rede de relacionamento interna de suas participantes. Como consequência, essas profissionais fomentam um ambiente de maior inclusão em todos os níveis da organização ao atuarem como embaixadoras do tema e influenciadoras do processo decisório.

Sessão do Empow#Her, grupo de representates das unidades da Phillip Morris que promove a equidade de gêneros

A empresa também lançou o grupo Empow#Her, formado por representantes de todas as unidades e áreas da empresa, visando a promoção da equidade de gênero. Com um trabalho focado em três pilares – contratação e desenvolvimento; comunicação interna e externa; e mitigação de vieses inconscientes –, o grupo, criado e gerenciado por colaboradoras da empresa, promoveu a criação de uma equipe de networking feminino, treinamentos para desenvolvimento da liderança e a montagem de salas de amamentação nas principais localidades, entre outras ações. Para 2020, o foco do trabalho será a liderança feminina.

Participantes do programa “Mulheres na cadeia do algodão orgânico”, do Instituto Lojas Renner (Foto: Reprodução)

No último dia 5, a Renner destinou 5% de seu faturamento líquido a projetos que atuam na promoção do empoderamento econômico e social das mulheres na cadeia do varejo têxtil. A iniciativa integrou o conjunto de ações do movimento Todas Avançam Juntas, do Instituto Lojas Renner,braço social da companhia. No ano passado, a ação arrecadou R$ 2,8 milhões para investir em projetos como o Empoderando Refugiadas, que já qualificou profissionalmente 300 mulheres em situação de refúgio no Brasil, buscando contribuir para sua inserção no mercado de trabalho. 

Desde sua fundação, em 2008, o Instituto apoiou quase 900 projetos com foco na mulher, beneficiando mais de 200 mil pessoas. “O movimento Todas Avançam Juntaspermite que nossos clientes, por meio de sua decisão de compra, contribuam diretamente com o Instituto Lojas Renner, que atua há mais de 10 anos em diferentes regiões do Brasil”, afirma Eduardo Ferlauto, diretor executivo do Instituto Lojas Renner. 

Como parte desta edição do movimento Todas Avançam Juntas, a Renner está compartilhando histórias reais de mulheres inspiradoras em uma série no seu canal no Spotify. Esta é a primeira vez que a marca lança um conteúdo digital nesse formato. São três podcasts que dão visibilidade a participantes de projetos apoiados pelo Instituto Lojas Renner.

Um longo caminho a percorrer

Essas são apenas algumas das iniciativas de responsabilidade social das empresas no Brasil para promover a equidade de gêneros no ambiente corporativo. Ainda há muito a ser feito no país. Pesquisa salarial feita pela plataforma de empregos Catho mostra que as mulheres no Brasil ganham até 49% menos que os homens em todos os cargos, em qualquer nível de formação.

“A formação profissional é um dos principais fatores para o desenvolvimento na carreira e, consequentemente, na promoção de melhores salários e demais benefícios. No entanto, os dados apontam o contrário, ou seja, apenas formação, qualificação e experiência profissional ainda são insuficientes para igualá-las”, afirma Tábitha Laurino, gerente sênior da Catho.

Segundo dados do Great Place to Work (GPTW) de 2019, apesar de serem maioria no mercado de trabalho (56%), 45% delas estão em cargos de média liderança (gerente/coordenadora), 26% na alta liderança (diretora, gerente sênior) e apenas 16,4% nas cadeiras de presidente/CEO. “Os dados refletem a urgência das empresas em proporcionar equiparação entre homens e mulheres. Quando uma mulher cresce profissionalmente, todos crescem”, avalia Tábitha.

Uma questão de poder

Segundo a Pesquisa dos Profissionais Brasileiros da Catho, em 2019, 89% das mulheres aceitam a primeira proposta oferecida por uma empresa, enquanto entre os homens esse número é 75%. Ainda de acordo com o levantamento, 25% dos homens negociam a remuneração salarial antes de aceitar uma proposta de emprego, entre as mulheres o percentual é 11%.

António Guterres, secretário-geral da ONU: “Igualdade de gêneros é uma questão de poder” (Foto:ONU)

“Há uma série de pressões externas que desencorajam as mulheres a pedirem o que desejam no momento de negociação. Muitas vezes, elas não identificam que podem, sim, pedir um aumento salarial ou benefício. A negociação deve ser vista como uma ferramenta que está também ao alcance das mulheres”, ressalta a gerente sênior da Catho.

Como diz António Guterres, da ONU, em seu artigo, “tudo isso porque igualdade de gêneros é fundamentalmente uma questão de poder. Séculos de discriminação e patriarcado profundamente arraigados criaram uma desigualdade de poder entre os gêneros em nossas economias, sistemas políticos e corporações. A evidência está em todo lugar”.

© Revista Nós - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e imagens sem prévia autorização.